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quarta-feira, 6 de março de 2019

Política: café filosófico em Belém discute nesta quinta-feira o fascismo



A radicalização política no Brasil a partir de 2013 trouxe de volta à agenda pública um tema cujo debate há muito restringia-se a historiadores e intelectuais em geral – o fascismo. Observa-se, aqui e no mundo, em pleno século XXI, o renascimento desta conduta política que marcou desastrosamente o século XX? 


Esse questionamento será o ponto de partida do café filosófico que acontecerá nesta quinta-feira (7), a partir das 18 horas, com entrada franca, no espaço de arte e gastronomia Casa do Fauno - rua Aristides Lobo, 1061, Reduto -, com o tema “Precisamos falar sobre o fascismo”. O café é promovido pelo Ciclo Filosófico de Belém, formado por Felipe Freitas, Sam Alves, Rafael Costa, Matheus Colares e Hailton Guimarino, estudiosos de filosofia e ciência política.

Os debatedores desta quinta-feira serão Hailton Guiomarino e Rafael Costa, com mediação de Matheus Colares, doutorando, mestrando e graduado em filosofia, respectivamente. Na próxima quinta-feira (14), o café filosófico sobre o fascismo terá uma segunda rodada; os palestrantes serão Sam Alves e Felipe Freitas, que estudam filosofia na UFPA em nível de graduação e mestrado. O tema do primeiro será “Um delírio sobre a educação filosófica brasileira”; o do segundo, “Para uma conduta não fascista”.

De acordo com Hailton Guiomarino, fazer a crítica do fascismo atualmente demanda, em primeiro lugar, estabelecer termos comparativos entre o fascismo clássico, caracterizado pelo autoritarismo, nacionalismo, militarização e obsessão conservadora, e suas novas formas de manifestação. É visível, para o estudioso, as práticas recentes de autoritarismo, intolerância, conservadorismo moral e naturalização da violência contra grupos sociais que têm se manifestado nas redes sociais, nas medidas do novo governo e nas ruas.

“Se por um lado essas práticas podem ser rotuladas como ‘fascistas’, por outro, elas são perfeitamente explicáveis como escravisões, isto é, visões de mundo herdadas da escravidão e transformadas em formas de sociabilidade no Brasil contemporâneo”, observa Guiomarino. Em sua intervenção, intitulada “Escravisões de um Brasil fascista”, ele vai pontuar a necessidade de perscrutar criticamente o passado brasileiro – colonial, imperial e escravagista, primeiramente, depois republicano e fortemente militarista –, para reconhecer em que medida ele constitui o nosso presente e como deve ser tomado para instrumentalizar práticas de resistência política.

Doutorando em filosofia pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), Guiomarino tem mestrado em filosofia pela mesma instituição e graduação em filosofia – licenciatura e bacharelado – pela Universidade Federal do Pará (UFPA). Realiza pesquisas sobre o sofrimento na filosofia de Nietzsche; filosofia no Brasil; o pensamento de Oswald de Andrade; modernismo brasileiro; a relação entre filosofia e escritas de si; e ainda sobre crítica da modernidade e crítica da cultura.

Crimes e castigos – O outro palestrante do café filosófico sobre o fascismo, Rafael Costa, falará “Dos crimes com castigo aos crimes sem castigo”, tomando como referência a obra do romancista russo Fiódor Dostoiévski. “Trata-se de um autor que, tal como Nietzsche, se lança ao diagnóstico de seu tempo. Em ‘Crime e Castigo’, por exemplo, vemos o personagem Raskolnikov, um ex-estudante fracassado e que vive em extrema miséria em São Petersburgo, incorporar o niilismo e o relativismo ético de seu tempo, condição que o encoraja a cometer, com as próprias mãos, crimes contra a vida”, observa.

Para Costa, tendo em vista que Raskolnikov pensa e executa os próprios crimes, em ‘Crime e Castigo’ não existe divisão ou alienação do trabalho de morte. Já em ‘Os Irmãos Karamázov’ essa perspectiva muda, pois neste outro romance de Dostoiévski a trama culmina no assassinato de Fiódor Pavlovich Karamázov por um dos seus filhos. “Mas o filho que mata (Smediakov) não é o mesmo que planeja a morte (Ivan), selando, na obra dostoiévskiana, a importante divisão do trabalho de morte que, no século XX, atingiu patamar ‘industrial’ com a máquina de guerra nazista’, diz o estudioso.

De acordo com Rafael Costa, é preciso trazer as reflexões ofertadas por Dostoiévski para o nosso tempo e lugar – o Brasil do século XXI, onde a liberação de armas para o cidadão comum já é realidade e onde o punitivismo emerge como doutrina de segurança pública. “Pois é, e nós, enquanto sociedade, será que estamos caminhando rumo à alienação do trabalho de morte? Caminhamos para crimes cada vez mais sem culpa, sem castigo?”, provoca.

Rafael Costa é graduado em Física pela UFPA. Desde o ano passado, integra o Grupo de Pesquisa em Nietzsche e Filosofia Contemporânea, coordenado pelos professores Roberto de Almeida Pereira de Barros e Ernani Pinheiro Chaves. Atualmente cursa o mestrado em Filosofia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Tem experiência na área de Física, com ênfase em Gravitação e Teoria Quântica de Campos, assim como em Filosofia, com ênfase em Nietzsche e suas relações com a filosofia das ciências. Texto: Iran de Souza, da Intercom.

Um comentário:

  1. É bom os organizadores terem cuidado,pois dependendo do atual governo esse evento pode ser proibido!Pois esses temas estão sendo radicalmente combatidos pelo presidente facista.Cuidado!

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