VER-O-FATO: Massacre de Suzano: deprimidos e raivosos, enfiados em um quarto, tornam-se zumbis

Reservas de ingressos

Reservas de ingressos
Clique na imagem, preencha o formulário e garanta seu ingresso

quinta-feira, 14 de março de 2019

Massacre de Suzano: deprimidos e raivosos, enfiados em um quarto, tornam-se zumbis


Marcelo Caixeta - psiquiatra *


1) Evidentemente, não é uma análise clínica, médica, do caso, pois não examinei ninguém. É um estudo teórico, genérico, sobre situações semelhantes que já vivi na clínica diária e já estudei ou pesquisei na literatura psiquiátrica. Uma tese ensaística por analogia.

2) No caso de “atiradores em massa” adolescentes há, no mínimo, uma situação psicopatológica onde há elementos depressivos, e, em cima da depressão, há outros quadros psiquiátricos que se instalam.

3) Isso é majorado pela adolescência, momento onde o cérebro sofre impacto intenso das revoluções hormonais. Há alterações na sinaptogênese, apoptose, alterações de fatores de crescimento neuronal, remodelação de circuitaria, adaptação de receptores neuroquímicos, desbalanço importante de transmissores intersinápticos, etc. Em termos mais simples, nesta fase há uma vulnerabilidade enorme para a emergência de doenças psiquiátricas graves. 

4) Um dos problemas que podem surgir é a disfuncionalidade de circuitos hidroxi-triptaminérgicos, levando à depressão, raiva, paranoia, impulsividade suicida, compulsividade agressiva, obsessões ( por exemplo, videogames ), comportamentos aditivos ( por exemplo “vícios” ), transtornos da sexualidade, modificações brutais no ritmo nictemérico circadiano ( por exemplo, “trocar o dia pela noite”, “passar a noite jogando e o dia morgado”), síndrome astênico-hipobúlico-anedônica ( “sem vontade de fazer nada, sem prazer, desanimado”) . 

5) Esses problemas se agravam na sociedade moderna porque o adolescente é deixado “apodrecer” na sua inércia patológica pelos adultos, que querem “respeitar o direito e o espaço dele”, não querem “obrigá-lo a nada , para não ferir suas susceptibilidades”. Entregue à “Deus-dará” essas patologias só aumentam. Antigamente muitos adolescentes suplantavam isso indo trabalhar, estudar, ocupar-se, ir para Igreja, socializar com a família, nem que fosse “debaixo de peia”. Hoje eles não têm mais esses mecanismos sócio-familiares-religiosos protetores. 

6) Deprimidos e raivosos, enfiados em um quarto, tornam-se zumbis. Fáceis vítimas de bullying, fáceis vítimas de ressentimentos , invejas, ciúmes : “sou feio, as meninas não olham para mim, tenho ódio daquele bonitão da escola, me humilham porque não estou dando conta das tarefas, sou tido como um zumbi\vampiro\estranho\freak\esquisito\repulsivo entre eles”. 

7) Sem tomar sol, sem fazer exercício, sem uma dieta adequada ( frutas e verduras), suas vitaminas D abaixam, endorfinas abaixam, serotonina abaixa, ácido fólico abaixa, L-metil-folato abaixa, ômega-3 abaixa, melatonina abaixa, etc etc, tudo isso piora o quadro psiquiátrico, pois são substâncias precursoras de neurotransmissores importantes.

8) tentam se tratar com energéticos, cafeína, açaí, maconha, guaraná, ritalina, metilfenidato, psico-estimulantes de toda natureza. Só piora o quadro psiquiátrico. 

9) Com a idade provecta de pais e mães ( tendo filhos mais tarde ou muito tarde), há um aumento de distúrbios psiquiátricos do espectro autístico, por exemplo, asperger. Muitos aspergers têm dificuldades sociais, dificuldades em entender os sentimentos dos outros, intimidade e lazer, dificuldades em relacionamentos amorosos, sofrem mais que os outros em termos de bullying e os outros problemas assinalados acima.

10) Muitos aspergers e também adolescentes hiperativos (há também aumento dessa patologia atualmente) têm problema de “empatia”, por causa de um déficit na região cerebral frontal. Esse déficit emocional, déficit de empatia, frieza afetiva, fazem com que tais pacientes não avaliem bem a dor insuportável ou as consequências de se retirar a vida de alguém ou seu ente querido.

11) A mídia mostrou um “caderno de videogames” de um dos atiradores de Suzano. Ele descrevia os jogos de violência como quem fez o massacre real. Fantasia lúdica e realidade misturaram-se em sua mente, algo que pode fazer pressupor um “nerd sem-noção”, um infantilismo que pode ser encontrado em aspergers, em adolescentes criados dentro de casa, filhos só-de-mamães-ou-vovós, pais ausentes-ou-apagados, o garoto o dia inteiro no game, sem ocupação útil nenhuma, à Deus-dará. 

12) Para alguns aspergers ou do espectro autístico, é comum a mistura lúdica da fantasia com a realidade, eles são “ingênuos”, desconectados da realidade normal em prol da virtual, sem contato adequado com o mundo afetivo-social. Vivendo num mundo de games, e com depressão-agressão causada pela baixa de serotonina, está montada a mistura explosiva. “Vou atuar minha fantasia na realidade, não importo de matar, não importo de morrer, não gosto de ninguém, ninguém também não gosta de mim, aliás, nem sei bem o que é isso de gostar ou não gostar”. 

13) A violência dos videogames, (turbinada pelos hormônios agressivos-hiperativos da adolescência), associa-se ao espírito de gangue, espírito de grupo. Esse espírito de gangue-grupo piora a paranoia, piora o “nós-contra-eles”, “nós-contra-a-sociedade”, “nós, os meninos-perdidos-da-Terra-do-Nunca” contra os “adultos-perversos-da-tripulação-do-Capitão-Gancho”. 

Se fortalecem na noção “vamos-morrer-juntos”, “nosso grupo lutará contra o deles até o fim”. Unem-se no afeto e na paranoia. Mais uma vez, nenhum adulto para romper esse ciclo. A ausência do mundo adulto (“responsabilidade, ocupação, proteção, direcionamento, disciplina, ordem, hierarquia, pai, Deus”) deixa esse mundo psicopatológico do adolescente à deriva, aumenta a “imaturidade lúdica” do mundo em que eles vivem ( “jogos de guerra de videogames”). Se a esses jogos imaturos irresponsáveis e insensíveis ajunta-se uma agressividade e depressão, está pronta a fórmula para a tragédia. 

Sem amor, disciplina de um adulto, o “mundo dos jogos de guerra” se instala numa realidade psicótica. Tudo é ação e violência, não há o nuance do humano, do cuidar, do amor, do concernimento, do afeto profundo, do sacrifício pelo outro. 

14) Esses mecanismos descritos acima, de baixa de serotonina, depressão, paranóia, também podem estar presentes em adolescentes não-asperger, não-autistas. Aí eles podem ir menos para a dimensão lúdica\nerd\sem-noção da patologia, inafetiva da patologia e mais para uma dimensão depressiva paranoica da psicopatologia. Alguns, mais velhos, mais inteligentes, podem associar-se à companheiros ou discípulos mais novos, com psicopatologias análogas, mais influenciáveis, mais imaturos ou menos inteligentes, numa espécie de loucura compartilhada, “folie à deux”.

15) A isso tudo ajunta-se uma sociedade que quer “proteger o adolescente do patriarcalismo”, que o deixa fazer o que quer, sem ocupação, sem castração, sem figuras masculinas de ordem e disciplina, sem a figura máscula autoritária de um homem que os amou e sacrificou-se por eles. A sociedade excessivamente feminilizada favorece a des-responsabilização e “ludização” da mente adolescente.

16) Tentativas externas de disciplina e controle são vistas pelas mães, avós, sociedade, como algo truculento, machista, autoritário, traumático, invasivo, perturbador do “mundinho adolescente deles”. 

17) Num contexto de possíveis tratamentos, terapias , conversas, orientações, grupos de reflexão, etc, com psicólogas são até bem aceitos, pois são sucedâneos da feminilidade, da “proteção, do amor, do diálogo, do humanismo”. Mas a truculência e o estigma do diagnóstico e tratamento psiquiátricos são evitados como o diabo foge da cruz. Hospitalização psiquiátrica para os casos graves e insolúveis, então, nem se fala... “Jamais vou submeter meu filho a um trauma desses, coitado”. “Tadinho, ele teve falta de um pai, só isso”, é “caso de terapia, não da truculência de remédios e internação”. 

18) Por isso que, em casos como esses (os EUA já têm vários estudos à respeito), já estão notando a onipresente associação com problemas psiquiátricos graves, a ponto do atual presidente dos EUA, Donald Trump ter dito que “o problema da assistência psiquiátrica” a esses casos é, para ele, muito mais grave do que a deletéria exposição a armas a que são submetidos os cidadãos americanos. 

Infelizmente, o estigma da psiquiatria, a fraqueza de entidades médicas psiquiátricas que não divulgam, o preconceito da sociedade, serão prenúncios de outras e muitas tragédias do mesmo matiz e jaez. 

* Marcelo Caixeta é médico, especialista em psiquiatria da infância e do adolescente pela Universidade de Paris XI (Le Kremlin-Bicêtre ) e pós-graduado em psiquiatria da infância e adolescência pela Universidade de São Paulo.



21 comentários:

  1. A sociedade brasileira anda tão excessivamente feminilizada que poderia revogar a Lei Maria da Penha. A norte americana anda tão excessivamente masculinizada (veja só...) que psiquiatras já consideraram Trump incapaz de governar em fevereiro/2017 e janeiro/2018. Só você que não soube.

    ResponderExcluir
  2. Quanto ao ponto 5 da sua lista... o rapaz mais velho não estava indo trabalhar e voltou do meio do caminho? um trabalho de macho, carpindo e terraplanando?

    ResponderExcluir
  3. Questiono a capacidade de avaliação e até mesmo a intelectual desse pseudo psiquiatra. Associar psicopatia a portadores de Asperger, quando não se há nenhum caso no mundo que comprove tal argumento dito acima, é no mínimo fantasioso ainda mais por não haver qualquer estudo. Esse cidadão com sua teoria fantasiosa precisa ser estudado, ele sim é um belo case de insanidade e irresponsabilidade.

    ResponderExcluir
  4. Totalmente equivocado. Autistas sao extremamente amorosos, carinhosos. Demonstram afeto a sua maneira. Nao gostam de ninguem??? Pais de autistas, se manisfetem. Nunca vi um texto tao sem logica para definir um ato de um psicopata, com intelecto suficiente para tramar algo tão covarde. Envolver autistas, só mostrao quanto esse psiquiatra precisa de uma boa reciclagem.

    ResponderExcluir
  5. Dr, como pode em um momento como esse, apontar o dedo pra aqueles assassinos e falar que eles são portadores de Asperger?
    Em um mundo onde a conscientização do Autismo é uma luta diária e difícil, um texto deste irá propagar o ódio e mais ainda o preconceito contra portadores de autismo. Por favor, meça suas palavras para não fazer uma análise de uma tragédia virar arma de preconceito. Faça o bem com sua profissão!

    ResponderExcluir
  6. Tenho pena de quem chega em seu consultório em busca de atendimento.

    ResponderExcluir
  7. Relacionar eventos dessa natureza a pessoas com espectro autista/síndrome de Aspeger é cúmulo da ignorância humana.
    Sugiro refazer a matéria relacionando quantos eventos desses foram cometidos por pessoas com diagnóstico autista e só então volte a afirmar tal hipótese.
    Meu total repúdio à matéria.

    ResponderExcluir
  8. O asperger pode ter sim déficit emocional, déficit de empatia, frieza afetiva.Entretanto a racionalidade entre distinguir o certo x errado e muito superior INCAPACITANDO fazer com que tais pacientes não avaliem bem a dor insuportável ou as consequências de se retirar a vida de alguém ou seu ente querido.
    Sua afirmação ficou distorcida da realidade de Asperger,o qual lhe afirmo isto porque sou Asperger e me senti incomodado com sua afirmação.

    ResponderExcluir
  9. Sai desta Caixeta, Marcelo! Relacionar massacres ao Transtorno do Espectro Autista é no mínimo leviano, anti-ético, falso e desprovido de base científica! Vindo de alguém que desconheça a psiquiatria seriam compressível mas de um psiquiatra é imperdoável! Cuidado com tuas suposições, teu diploma te credenciam e podes gerar mais preconceito e ignorância a assuntos relativos ao TEA.

    ResponderExcluir
  10. Seu texto è um desserviço á todos os asoergers que ja sofrem preconceito o suficiente sem sua análise fraca e desfundada sobre adolescentes que vc nunca conheceu e nem pode examinar para falar qualquer coisa. Parabéns.

    ResponderExcluir
  11. Sobre esse artigo o começo parece lúcido e corente, mas depois ele desgrenha a um viés generalista bem falacioso, o conhecimento dele do autistmo é exterior, pois interior apenas quem realmente o tem sabe como eu que tenho asperger. Ora, ter dificuldades com emoções não significa ausência dela e muito menos há padrões factuais que respaldem os resultados de crimes perpetrados nessa condição socialmente insalubre proposta, como comentei ontem desconheço autistas que tenham cometidos crimes graves, normalmente são explosões do tipo meatdown coisa que mesmo eu já fiz assim como uma infeliz sinceridade pouco socialmente aceita. Mas tenho pleno discernimento entre um jogo e a realidade. Cresci jogando, comecei dos jogos de Atari 2600, fui para o Master System, Mega Drive (e o sega CD) e depois o playstation. Passava toda semana na frente da escola Tássio da Silveira (onde houve um massacre similar há uns anos) há dois quarteirões de onde mora meu primo que lá estudou, e nunca me passou pela mente invadir uma escola e matar a esmo quem encontrasse pelo caminho. Acho que ele confunde alho com bugalhos, tive muitos amigos na adolescência ainda que sendo "estranho", hoje não tenho por outros motivos. Se sofri bullyng, sim sofri e ainda sofro, mas se eu surtasse garanto que esse surto seria claramente direcionado.

    ResponderExcluir
  12. O texto me leva a pensar no comportamento do meu filho adolescente.😒

    ResponderExcluir
  13. Gostaria de saber com base em que literatura, estudos de caso ou estatísticas o senhor se embasou para afirmar que portadores da síndrome de asperger, devido seus deficits, não consigam avaliar a dor e as consequências de se retirar a vida de alguém. Principalmente relacionando a um caso notavelmente premeditado.

    ResponderExcluir
  14. O item 12) que se refere aos aspergers ou do espectro autístico não correspondem à realidade. Ele deveria ao menos ter mencionado alguma estatística para lastrear essa declaração. Tenho um filho tea e ele é muito sensível e afetuoso, pode não parecer que demonstra afetividade dentro dos padrões sociais, mas é certamente o oposto do que ele descreveu.
    Por gentileza não piorem a condição dessas pessoas estabelecendo padrões preconceituosos sem fundamentar adequadamente. Alessandra/RJ

    ResponderExcluir
  15. Esse senhor só falou inverdades em relação aos aspergers. Eu sou asperger e dentro da minha casa, leio livros produtivos e edificantes, assisto a filmes edificantes e ouço músicas edificantes também. Não trabalhar não pressupõe que alguém é doente mental. Há muitos doentes mentais (psicopatas principalmente), que trabalham , tem relações "afetivas" ...Estes sim, são o Mal personificado.Os aspergers muitas vezes não buscam muito o social, porque são pessoas que não são compreendidas na sua sensibilidade , que inviabiliza qualquer tipo de violência da parte deles. O senhor deveria se informar melhor a respeito dos autistas. Pois o senhor confunde autista asperger com psicopata.

    ResponderExcluir
  16. Atribuir um evento dessa natura a pessoas com transtorno do espectro autista/síndrome de aspeger é o cúmulo da ignorância humana.
    Sugiro refazer a matéria contabilizando em números, quantos desses massacres foram cometidos por pessoas com diagnóstico de aspeger e só então faça tal associação.
    Meu total repúdio pela matéria.

    ResponderExcluir
  17. Que absurdo propagar uma informação dessa, sem devidos estudos realizados!onde o proppró texto tem a seguinte frase: "É um estudo teórico, genérico, sobre situações semelhantes que já vivi na clínica" ...e porque espalhar isso na rede? não se pode agir dessa forma no "achometro", isso e um absurdo.
    Parou para pensar em quantas crianças podem ser afetadas por esse tipo de informação erronea!?
    Espero que se retrate sobre...

    ResponderExcluir
  18. Por Favor!!! Gostaria de saber se o Dr em questão faz atualizações com base no Dsm ou CID? Sua indicação de que pessoas com diagnóstico de autismo, leve por assim dizer tenham “problemas” com empatia e afetividade está totalmente errônea e ultrapassada, pelo no mínimo 70 amos! É do conhecimento de todos tanto da área clínica, como na população em geral que autismo não é sinônimo de psicopatia! Depressão e distúrbios psicóticos acometem pessoas de uma maneira generalizada na sociedade, sem ser exclusivo a algum transtorno específico, como no caso o TEA. Espero veementemente que o Dr em questão,retire imediatamente o que disse sobre os autistas asperges! Pois se não houver retratação e desculpas a este tipo de insulto,e colocações errôneas, isto será discutido na esfera judicial o mais breve possível! Aguardo ansiosa por uma resposta! Luciana Willemann

    ResponderExcluir
  19. Sou mãe de um autista e sinceramente não vi nenhum relato sobre um autista envolvendo em um massacre ou fazendo massacre.

    ResponderExcluir
  20. O fato de o menor agressor e também mentor da ação ocorrida em Suzano ser filho de uma mãe usuária de drogas lícitas e ilícitas (desde o período intra-útero) - e que perdeu a guarda dos seus filhos para a avó paterna - não poderia ter ocasionado lesões neurológicas desde o período gestacional nessa criança/adolescente?

    ResponderExcluir
  21. Diante de tantas críticas aqui no blogue, entendo que o psiquiatra Marcelo Caixeta deveria se manifestar, para estimular o debate sobre o polêmico artigo que escreveu.

    ResponderExcluir