VER-O-FATO: Fascismo e nazismo; direita e esquerda

sábado, 30 de março de 2019

Fascismo e nazismo; direita e esquerda

Mussolini e Hitler, expressões viscerais e letais de fascismo e nazismo

Hyago de Souza Otto - analista judiciário

Direita e esquerda não são conceitos de consenso; mesmo estudiosos costumam divergir sobre as posições e, via de regra, questionar espectros políticos de diversas formas de Estado implementadas ao longo da história.

Para definir os conceitos é necessário, todavia, retornar ao surgimento dos termos: Revolução Francesa. À época, o regime era dividido em "três estados": nobreza, clero e burguesia (alta e baixa burguesia).

Em 1789, em virtude do descontentamento do terceiro estado e de parte da nobreza na França com o modelo de Estado até então adotado (feudalismo) e com o poder absolutista de Luís XVI, a Revolução estourou, efetuando-se uma Assembleia Constituinte para redefinir o futuro da França.

À esquerda, situaram-se os jacobinos, os quais, liderados por Robespierre, tinham ideias muito mais radicais de mudança. Os girondinos, por sua vez, ficaram à direita; esses eram mais moderados e pregavam mais a conciliação.

Assim, definiu-se o ponto chave que diferenciaria esquerda e direita: revolução e conservadorismo. Ao longo do tempo, outros aspectos foram sendo impregnados em cada uma das posições.

As propostas de Marx, já no século XIX, certamente influenciaram fortemente o pensamento revolucionário (de Esquerda), ressaltando uma busca incansável por "igualdade", que seria até os dias atuais atribuído ao pensamento de esquerda. Com isso, veio o pensamento coletivista e a ideia de direitos sociais.

Por outro lado, a Direita antagonizou as premissas marxistas, seja no aspecto social, com críticas aos pressupostos adotados por ele, seja pela pouca (ou nenhuma!) viabilidade econômica de suas ideias. Adotando-se o pensamento liberal, encabeçado por Adam Smith, a Direita passou sua perspectiva a liberdades individuais, limitando o poder do Estado, e ao indivíduo (contraponto ao coletivismo).

Estabelecidas tais premissas, os três pontos diferenciadores que distanciam os pensamentos de direita e de esquerda, respectivamente, são: conservadorismo versusprogressismo; liberdade versus igualdade; individuo versus coletivo.

Ressalte-se um equívoco muito comum: a ideologia de esquerda não se resume ao pensamento marxista; pelo contrário, aquela precede a este. Aliás, o pensamento revolucionário é muito anterior à própria revolução francesa e, ousa-se dizer, sempre existiu.

Nos dias atuais, aviventaram-se discussões sobre espectros políticos de estados totalitários da história. Há, sobretudo, dois modelos atribuídos ora à direita, ora à esquerda: fascismo e nazismo.

Inicialmente, é importante ressaltar um fator chave e que deve pautar tal discussão: ser de direita ou de esquerda tem pouca relevância para as atrocidades cometidas por um regime.

O grande equívoco na tentativa de colocar tais regimes à direita ou à esquerda é utilizar premissas erradas, como nacionalismo, autoritarismo ou militarismo. Ora, tais características não têm absolutamente nenhuma relação com espectro político.

A URSS era evidentemente comunista, tinha um nacionalismo extremamente arraigado e seu regime era autoritário. Hugo Chavez era militar, nem por isso, o regime implementado na Venezuela foi de direita.

Dito isso, importante ressaltar que os regimes fascista e nazista tinham grande traço de intervencionismo econômico governamental. Na Alemanha, preços chegaram a ser tabelados e fiscalizados pelo governo. Foram realizadas reformas trabalhistas e, por outro lado, fechados sindicatos, fundando a Frente Alemã para o Trabalho, controlando tudo.

No fascismo de Mussolini, além de grande intervencionismo econômico, os direitos trabalhistas foram hipertrofiados e os sindicatos ganharam força, desde que vinculados ao regime, maneira para controlar determinadas forças coletivas.

O diploma normativo trabalhista fascista da época, Carta del Lavoro, de 1927, aliás, inspirou a CLT de Vargas, vigente no Brasil até os dias atuais.

Portanto, resta evidente que traço de liberdade, seja econômica, seja social, era extremamente baixo em tais regimes. Isso pode derivar justamente da necessidade de centralização do poder e imposição das vontades do governante por um autoritarismo.

Os traços de individualismo também são de difícil visualização em tais regimes nazista e fascista. Uma vez que a perspectiva era mais nacionalista, a balança penderá para o coletivismo e, sobretudo, para os direitos sociais, em uma busca de melhora de condições trabalhistas e financeiras do povo, embora esses direitos sociais fossem desvestidos da noção de Direitos Humanos contemporânea que só adveio pós Segunda Grande Guerra.

A verificação do aspecto conservador para a definição de um regime só se dá por uma perspectiva da época; caso a proposição quando da transição seja uma mudança gradual e lenta de valores ou de modelo, pode-se dizer que é uma alteração conservadora. Se, por outro lado, for repentina e extremada, terá um traço revolucionário e, portanto, de esquerda. É, portanto, uma análise demasiadamente complexa e difícil de ser feita após décadas.

Afinal, qualquer regime visto após décadas poderá ser visto como conservador; não por sê-lo, mas porque os costumes da época eram certamente muito diferentes do que os adotados atualmente.

A questão é que, desde Gramsci, a "Revolução" já não é mais pregada de tal maneira, impositiva e rápida. Antonio Gramsci propôs que a mudança deveria ser cultural, por infiltração e ocupação de espaços, o que poderia levar a crer que até mesmo a esquerda passou a adotar uma ideia mais conservadora de mudança.

É, portanto, de difícil (ou quase impossível) estabelecer que nazismo ou fascismo possam ter sido de "direita". Também não é simples dizer que tais regimes foram de "esquerda", pois há certamente pontos que divergem do pensamento progressista, especialmente o atual.

Veja-se que o ponto principal que os caracteriza e criou efeitos tão nefastos não foi ser de esquerda ou de direita, mas, sim, a centralização de poder e o totalitarismo.

Deixando de lado qualquer discussão sobre espectro político, seja de um lado, seja de outro, nenhum dos dois deve e será repetido.



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