VER-O-FATO: "A Mineração Rio do Norte não tem cabeça, só tronco e membros, e o rio Trombetas está totalmente contaminado"

sábado, 9 de fevereiro de 2019

"A Mineração Rio do Norte não tem cabeça, só tronco e membros, e o rio Trombetas está totalmente contaminado"

 

" É preciso falar sobre tudo o que a Mineração Rio do Norte (MRN) fez no nosso município em 42 anos, porque eu conheço esse projeto na sua essência. Trabalhei nisso durante 14 anos. Se você for fazer uma imagem da Mineração Rio do Norte, ela não tem cabeça, só tem tronco e membros, porque chegou lá, na ganância do capitalista, poluindo o nosso meio ambiente". A afirmação é do empresário de Oriximiná, Oscar Seixas Pedrosa, durante audiência pública sobre as barragens realizada ontem no município entre a MRV, prefeitura e população, num ambiente superlotado de queixas.

No vídeo ( acima ) exibido no blog do Nelson Vinenci, o empresário faz pesadas denúncias e critica o alijamento da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa) dos estudos sobre o que ele aponta como "total contaminação do rio Trombetas", dizendo que quem foi contratada para monitorar as águas do rio foi uma universidade de fora do estado, a Universidade Federal de Viçosa (MG).

Segundo Pedrosa, a universidade mineira não conhece os problemas da região paraense. "O Trombetas está totalmente poluído", afirmou, sob aplausos da platéia, que emendava aos gritos de "é verdade". O empresário explicou ter trabalhado no carregamento de navios por 14 anos, enfatizando ter "cansado" de chamar a Capitania dos Portos para comprovar o despejo de rejeitos no rio. "Hoje, são 30 navios que poluem o Trombetas com óleo, água salgada e todos os tipos de rejeitos no meio ambiente", disparou.

Ele sugeriu que haja parceria na criação de uma comissão da qual façam parte os Ministérios Públicos Federal e Estadual, as entidades interessadas e a prefeitura, para realizar "inspeção rigorosa e permanente no rio Trombetas, porque a mineração não está nem aí para as comunidades". Pedrosa também alertou que em 2026 a Mineração Rio do Norte terá expirada sua licença ambiental "e vai querer mais 10 anos pra ficar poluindo". E resumiu, sob aplausos, que a exploração da bauxita pela MRN em Oriximiná rende de royalties R$ 920 mil ao município, "mas quem paga essa conta o povo".

Passivo ambiental negativo

Convidado a participar da audiência, o advogado e agrimensor Paraguassú Éleres, por já ter outros compromissos na agenda, não pode se deslocar de Belém até Oriximiná, mas enviou à procuradora-geral da prefeitura daquele município, Elisângela Fernandes Batista, uma  carta, fazendo considerações a respeito da atuação da MRN no Trombetas. Ele afirma que a empresa possui na região um "passivo ambiental negativo".Veja a íntegra da carta de Paraguassú Éleres:
"Infelizmente não foi possível aceitar o convite para participar da audiência pública do próximo dia 08, pois não contornei a questão da frequência da Oficina de Direito Fundiário e Topografia Forense, que estarei ministrando, do qual lhe falei ontem, dado o fato de que alguns alunos vem do interior. De qualquer maneira, é prudente que a Prefeitura de Oriximiná esteja preparada para contra argumentar as justificativas da Mineração Rio do Norte no tocante à segurança das barragens, afinal, a mineradora tem um passivo ambiental negativo na exploração de bauxita em Oriximiná, de que sou testemunha, pois (morando em Oriximiná de 1963 a 1970) em 1969, demarquei o terreno da empresa onde hoje estão o porto e a cidade. 
Nessa época, acerca de 500 metros e paralelo ao Trombetas, corria o igarapé Caranã, que seria colmatado pela ganga tirada na lavagem da bauxita, seguindo para o Lago do Batata, que foi assoreado em 10% de sua superfície, matéria que tratei em meu programa Planeta Amazônia, da Rádio Liberal CBN, de 29 de abril de 2009, ao comentar: “E que dizer do Lago do Batata, em Oriximiná, degradado pela mineração Rio do Norte, pois a lavagem da bauxita era feita num igarapé que em poucos anos assoreou completamente e atingiu cerca de 10% do lago.
Certa feita indaguei a um dos técnicos por que a lavagem não seria feita lá no alto da serra, o que causaria menos problemas (como aliás, a empresa faz agora) e ele respondeu que sairia muito caro para a empresa. Ora, mais caro foi sacrificar a natureza do Lago do Batata e, por consequência, a sua fauna aquática e parte da vegetação”.

Denunciada, a MRN mudou a prática ambientalmente degradante e passou a lavar a bauxita no alto das serras, lançando a ganga em buracos de cerca de 100 metros em quadro e profundidade suficiente para receber o material, cuja água percola, seca a lama e por cima lançavam terra preta sobre a qual reflorestaram, como vi pessoalmente em visita que fiz ao local nos anos 80, juntamente com os professores da UFPa, Camilo Viana e Geraldo Alves, e cujos efeitos recuperadores foram objeto de matéria na Revista Veja de 17 de março de 1999, página 68 (anexo).

Assim, e por tudo isso, a PMO deveria fazer um esforço financeiro e contratar um profissional especializado que domine a matéria e enfrente os argumentos que serão apresentados pela MRN na audiência pública do dia 8 de fevereiro. Será mais compensador remunerar um profissional competente que suportar prejuízos que poderão advir com acidente em barragens de contenção de lama de bauxita, como a que em meados de 2018 ameaçou a população do lago do Saracá, que recebe águas descidas das serras onde a MRN explora bauxita, e deságua no lago do Sapucuá, cujos efeitos poderiam confrontar a cidade de Oriximiná pela via do igarapé do Nhamundá. Cordialmente, Paraguassú Éleres".



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