VER-O-FATO: Com ida a Caracas, PT demonstra continuar refém da sua ala mais sectária

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Com ida a Caracas, PT demonstra continuar refém da sua ala mais sectária

Gleise rende honras ao ditador: ruptura de princípios da história do PT

 Mathias de Alencastro - cientista político

Talvez a maior especificidade do avanço ultraconservador no Brasil tenha sido o engessamento do principal partido da social-democracia. Se os trabalhistas britânicos lançaram as bases de uma refundação e os socialistas franceses entraram em via de extinção, o PT continua tendo a maior bancada, mas segue avesso a qualquer tipo de renovação. É o pior dos dois mundos.


A história contará como a atual cúpula petista manipulou um drama nacional _a detenção da maior liderança da era democrática_ e deslegitimou a campanha do seu maior agente renovador _Fernando Haddad_ para assegurar a sua sobrevivência.


Os líderes do Congresso Nacional Africano, referência mitológica dos dirigentes do PT, jamais se esconderam entre as pernas de Nelson Mandela. A identidade do partido sempre foi maior do que a do seu símbolo, tendo sido possível substituí-lo sem perder força política. Décadas se passaram desde a presidência de Madiba, e a CNA continua um viveiro de lideranças.


Para o campo progressista, a consequência mais imediata da obtusidade burocrática foi a de juntar a ofensa à derrota histórica e às angústias sobre o que vem pela frente. Especificamente, a ofensa de ver os dirigentes apresentarem, na sua primeira missiva pós-eleitoral, uma visão que glorifica o seu próprio desempenho e coopta os eleitores não petistas, essa coalizão heteróclita e improvável de psolistas a tucanos cujos apelos por uma maior abertura foram rigorosamente desdenhados durante a campanha.


Soma-se a ofensa de ver pavonear figuras ultrapassadas como José Dirceu que, em recente entrevista, ousou falar de “nós”, como se tivesse um resquício de autoridade para palpitar sobre o futuro.

A ofensa maior que representa a ida da presidente do partido à posse de Nicolás Maduro é o sinal que faltava para uma insurreição dos progressistas.


Ao aterrissar em Caracas, Gleisi Hoffmann realiza a fantasia daqueles que buscam por todas as formas etiquetar o PT como antidemocrático, agrava o distanciamento com a social-democracia europeia --unânime na condenação do regime de Maduro-- e relembra aos brasileiros que o partido continua refém da sua ala mais sectária. A ida a Caracas será lembrada como o ponto de ruptura dos atuais dirigentes com todos os princípios que nortearam a história do partido.


Numa palestra a poucas semanas da eleição, Márcio Pochmann, entre uma sonolenta digressão sobre a burguesia industrial e uma delirante interpretação da reforma da previdência, comoveu-se com o destino do Partido Socialista Francês, obrigado a vender a sua sede depois da debacle de 2017.


A sede do PT continua de pé --mas a que custo? Os atos e declarações recentes dos dirigentes são mais uma camada de cimento que fazem dessa sede um bunker em que ninguém entra --e as rachaduras, cada vez maiores, tornam o risco de desabamento iminente. (artigo publicado na edição desta sexta-feira, 11, do jornal "Folha de S.Paulo".


* Mathias de Alencastro é doutor em ciência política na Universidade Oxford

5 comentários:

  1. Não adianta escrever,contra o PT, pois o povo é soberano para decidir em quem votar e com certeza o próximo presidente será do PT!

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  2. Pobre PT ! Como está impedido de falar de ética,competência e honradez,restou-lhe tão somente exercitar sua principal característica : empunhar a bandeira da farsa!

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  3. Pobre PT, como não pode falar de ética,honradez e competência, empunha a única bandeira que lhe sobrou : a da FARSA!

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  4. Vide o PT paraense ! Ana Júlia é uma morta-viva e Paulo Rocha é o suprasumo do fisiologismo !

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  5. O PT é o Midas invertido.O que toca,apodrece!

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