VER-O-FATO: O Lázaro ressuscitou e o Papão está vivo

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

O Lázaro ressuscitou e o Papão está vivo


Nos vestiários, em Floripa, a equipe bicolor comemora a vitória e celebra a vida

Como um Lázaro ressuscitado, o Paysandu provou ontem, contra o Figueirense, que nunca se deve subestimar um quase morto. Pois era assim que o time, na Série B deste ano de 2018, se encontrava. Estava 99% morto, na UTI do descrédito, respirando por aparelhos, praticamente rebaixado.

Foi aí que lembramos, no dia do jogo contra o Guarani, faltando três partidas para o final da longa competição, do "Sobrenatural de Almeida", um personagem criado pelo jornalista e escritor Nelson Rodrigues.

Esse personagem, cuja mãe é o milagre e o pai, o imponderável, aparece numa partida de futebol quando tudo está perdido para um time e ninguém acredita nele, salvo os mais fanáticos torcedores. Mas quem é capaz de explicar coisas inexplicáveis?

O "Sobrenatural de Almeida" entrou em campo contra o Guarani, empurrando o time à vitória, porque ele simpatiza com o Paysandu, um clube capaz de feitos inusitados, históricos e impossíveis.

Como fazer o gol mais rápido do mundo, pelos pés do atacante Vital, em apenas 2 miseráveis segundos, ainda com a Curuzu sob o trilar do apito do juiz, começando a partida contra o Santa Rosa, de Icoaraci, pelo campeonato paraense, em 1997.

Ou como na vitória épica, por 3 a 0, contra o Penarol do Uruguai, então campeão do mundo, em 1966, deixando o adversário boquaberto. Isto sem falar naquele teste para cardíaco e maluco que foi a vitória por 4 a 3 contra o Cruzeiro (MG), no tempo normal e e nos pêrnaltis, em Fortaleza (CE), na decisão da Copa dos Campeões.

O que dizer, então, sobre a inesquecível e imorredoura derrota imposta ao Boca Juniors, por 1 a 0, no mítico estádio La Bombonnera? Uma vitória para calar incrédulos e amantes do absurdo.

Contra o Figueirense, com menos de 20 minutos de jogo ainda do primeiro tempo, o Papão tomou dois gols bestas, por falha de cobertura da zaga, uma rotina este ano. O time dominava o adversário e havia algo no ar que não batia com aqueles 2 a 0. O Figueirense não jogava nada.

O "Sobrenatural de Almeida" percebeu que precisava agir. E agiu com pés mágicos. Logo empatou em 2 a 2, e ainda teve um gol legítimo anulado. Aos 45 do segundo tempo, já nos descontos, cumpre um roteiro escrito nas estrelas, em outro planeta, sei lá, e faz 3 a 2. Um gol que parecia impossível, desafiador da lógica.

Ora, dane-se a lógica. A vitória improvável saiu. Com méritos. O futebol, convenhamos, vive desses momentos. E o estádio, ou no caso a TV, para a grande maioria que assistia a partida contra o Figueirense, foi o coliseu romano da contemporaneidade. O lugar no qual os torcedores do Papão exercitaram seus sentimentos mais antagônicos, sublimando as angústias existenciais e alternando-as em estados de êxtase e alegria. Em resumo: uma catarse colorida, em azul e branco.

O Paysandu “comeu” a bola contra o Figueirense e ressuscitou na competição, quando seu caixão já tinha sido encomendado. Aliás, a bola, como dizia Nelson Rodrigues, não passou de “um reles, um ínfimo, um ridículo detalhe”, naquela partida de ontem, em Florianópolis.

A corda já foi tirada do pescoço, o quase-morto está bem vivo, mas ainda falta torcer contra o CRB, nesta sexta-feira, e contra o Criciuma, no sábado. Que sufoco, hein ? Matématica assassina, cálculo esquizofrênico. Não interessa. O importante é que o Paysando não seja rebaixado e tenha o direito de decidir seu destino na Série B em casa, no dia 24, contra o Atlético (GO).

Resumo da ópera: nunca subestimem quem está quase morto. Ele pode dar a volta por cima, recuperar a saúde e a vontade de viver. Isso vale para a vida, para o futebol, para qualquer coisa.

Com o Paysandu é assim: enquanto houver 1% de chance de vida, haverá 99% de fé.

Papão !!!

Um comentário:

  1. Muito bem Carlos Mendes.. ótimo texto, sou fã de seu blog..

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