VER-O-FATO: EXCLUSIVO - Herdeira quer de volta as terras da maior grilagem do mundo, em Altamira

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

EXCLUSIVO - Herdeira quer de volta as terras da maior grilagem do mundo, em Altamira


Gláucia Meirelles: " a quadrilha sumiu com tudo, até dos cartórios"

Ela já foi chamada de “a maior grileira” de terras do Brasil, no “livro branco", editado pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). A acusação não tinha nenhuma prova e, sob ameaça de processo judicial por calúnia, injúria e difamação, foi retirada do livro. Quase 20 anos depois do episódio, a paraense Gláucia Alencar Meirelles Rocha, ao 79 anos, e que há mais de 40 reside no Rio de Janeiro, clama por justiça, tentando reaver de volta as terras de sua família que foram usadas na maior fraude fundiária da qual se tem conhecimento no mundo.
“Não tenho recursos sequer para sobreviver. Vivo de uma pensão deixada por meu marido e gasto a maior parte dela comprando remédios, pois tenho problemas de saúde”, desabafa Gláucia Meirelles em entrevista exclusiva por telefone ao Ver-o-Fato. As terras da família, compostas de 12 áreas que juntas somam 52 mil hectares, foram usadas de maneira criminosa e aumentadas em 92 vezes, passando a apresentar, nas certidões registradas do cartório de registro de imóveis de Altamira, 4,7 milhões de hectares, equivalente ao tamanho, juntos, de países como Holanda e Bélgica, ou estados como Sergipe e Alagoas.

Essas terras foram registradas ilegalmente em favor empresa Incenxil, ligada ao grupo CR Almeida, do empresário Cecílio do Rego Almeida, já falecido. Em 2011, a Justiça Federal do Pará, por meio de decisão já transitada em julgado (não cabe mais recurso) do juiz Hugo Sinvaldo da Gama Filho, mandou cancelar todos os registros imobiliários e as matrículas no cartório das 12 áreas da chamada Gleba Curuá, localizada no rio Iriri, afluente da margem esquerda do rio Xingu.

Dona Gláucia e seus familiares eram os herdeiros das terras. Parte delas posses pertencentes ao Estado do Pará, concedidas aos familiares para exploração de seringais sem reserva de domínio, enquanto as outras áreas constituem propriedades de herança deixada pelo coronel Ernesto Acioly da Silva a seu único herdeiro, o sobrinho Antônio Acioly Meirelles, pai de Gláucia e de outros seis filhos.

O que anima a herdeira e a faz ter esperança de ter de volta parte das terras é o trecho da decisão do juiz Hugo Gama Filho em que ele, com base nas informações do Iterpa, diz que das áreas griladas pela Incenxil como supostamente “cobertas por títulos hábeis”, apenas quatro delas haviam sido realmente objeto de contratos de arrendamento celebrados entre o governo do Estado do Pará e os senhores João Gomes da Silva, Francisco Acioly Meirelles, Bento Mendes Leite e Anfrísio da Costa Nunes. “Então, as outras oito áreas não eram posses, nem terras públicas, mas domínio em nome do coronel Ernesto Acioly. Por que o Iterpa não libera esses documentos?”, questiona.

Um absurdo - “Depois que a Justiça Federal anulou as fraudes que a Incenxil praticou com a conivência do cartório, o Estado e o Iterpa nunca fizeram nada para reconhecer o nosso direito e até documentos que deveriam constar dos títulos originais, como o inventário de partilha das terras e as certidões, o Iterpa se nega a fornecer”, critica Gláucia, que exibe requerimento feito nesse sentido em 2016 pelo advogado Ismael Moraes.

Gláucia Meirelles apela para que o Estado repare o erro que comete ao negar a ela até mesmo o acesso sobre a documentação original das terras. “A quadrilha que falsificou as escrituras e aumentou de tamanho as áreas queimou tudo e até no cartório Fabiliano Lobato, em Belém, onde constava o inventário do coronel Ernesto Acioly da Silva, eles dizem que não conseguiram localizar o documento, o que é um absurdo. O que a herdeira possui é uma cópia com alguns trechos quase ilegíveis do inventário, onde aparece a logomarca do cartório.

Ela reitera não ter dinheiro para pagar advogado e vai tentar que a Defensoria Pública do Pará, ou da União, se interesse pelo caso e ingresse com ação judicial contra o Estado para ter as terras de volta. (Leia mais, a seguir.)
 

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