sexta-feira, 20 de julho de 2018

Juiz Elder Lisboa, o "imortal", vá em paz


Dois meses atrás, Elder lançou livro sobre escravidão na Amazônia

Carlos Mendes


Elder Lisboa Ferreira da Costa, 52 anos, era um juiz diferenciado, como poucos que conheci e ainda conheço. Ele tinha uma inquietação que extrapolava suas sentenças, bem fundamentadas, condenando ou absolvendo pessoas. Estudava muito antes de proferir qualquer decisão. Tinha o humanismo na ponta da caneta, sobretudo quando sua decisão colocava em jogo o destino dos mais pobres.

"A morosidade compromete a imagem do Judiciário. Luto contra isso, fazendo a minha parte", costumava dizer a mim quando eu fazia a observação de que me sentia mal ao ver que o destino e a vida de muitas pessoas dependia daquela montanha de processos no gabinete dele à espera de decisão.

Era, porém, célere no despacho e justo no peso da lei. Foi assim quando aceitou a denúncia do Ministério Público contra a máfia que desviou milhões da Assembleia Legislativa. Vi muitos advogados entrarem e saírem da sala de Elder tensos e resmungões. Queriam retardar e até mesmo paralisar o processo. 

Havia muita gente poderosa, metida até o pescoço, naquela sujeira com o dinheiro público. Juiz honrado é aquele que valoriza a toga que veste e não se dobra diante de pressões dos prepostos de poderosos. "Não me incomodo com isso, sei dar meu chega-pra-la", afirmava, sorrindo.

Minha relação com Elder era respeitosa, apesar das brincadeiras. A recíproca era verdadeira e ele fazia questão de dizer isso a mim. " O povo que precisa do bom juiz é o mesmo que recorre ao bom jornalista quando tudo falha, inclusive a Justiça", sapecou certo dia a frase que nunca esqueci. 

A morte dele teve um impacto sobre mim tão grande quanto à do juiz Paulo Frota, outro magistrado que honrou o Poder Judiciário paraense e brasileiro. A de Elder, porém, vem num momento em que a Justiça vive momentos delicados, enfrentando o descrédito de boa parte da população. 

E ele era o contraponto, o porto seguro, como alguns outros juízes que conheço e permanecem nas lides do TJE, de que não podemos, nem devemos, perder a esperança na Justiça, porque se ela acabar, tudo acaba.

Quando em abril passado retornou de São Paulo, após o primeiro tratamento contra o câncer, Elder ligou para mim e me surpreendeu com a pergunta. "Carlos, é verdade que andaram dizendo por aqui que eu tinha morrido?". Respondi no ato: "eu não soube disso, não, mas acho que se alguém falou isso esse alguém já pode ter morrido, envenenado pela própria língua". Elder deu uma estrondosa gargalhada ao telefone, chegando a engasgar-se.

Nessa mesma conversa, ele mostrou a humildade que sempre o caracterizava, apesar de ser o magistrado que muitos, por não conhecê-lo, temiam por já terem experimentado o rigor de suas sentenças. Elder me disse que havia sido indicado para a Academia Paraense de Letras (APL), solicitando, "caso merecesse", uma nota no Ver-o-Fato sobre a indicação dele para o nosso silogeu.

Prometi que publicaria a nota ainda naquele dia, como de fato publiquei. "Agora és imortal", brinquei. E ele: "Carlos, hoje eu morreria feliz por fazer parte da APL". Percebi naquela frase a grandeza humana e a simplicidade do Elder Lisboa. 

Um magistrado respeitado, professor de Direito aqui e em universidades européias, com livros sobre direitos humanos, escravidão na Amazônia e meio ambiente, que havia sido agraciado pela rainha Sofia, da Espanha, feliz da vida porque iria ser "imortal" da academia de letras da terra onde nasceu. 

Elder, de fato, já é "imortal". 

FIM.

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4 comentários:

  1. O Homem é passageiro, mas sua obra e seu legado é perene e eterno. Descanse em paz magistrado, professor e "imortal" ÉLDER LISBOA!!

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  2. Notícia que entristece os corações daqueles que tiveram oportunidade de conhecê-lo. Homem de grande caráter, de sábias palavras,digno de muito respeito por tudo que fez em sua carreira.Sinto-mr honrada em ter tido o privilégio de ser sua aluna.

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  3. Tive o prazer de conhece-lo ...ficou aqui em minha casa em São Paulo algumas vezes hospedado...uma pessoa maravilhosa que hoje em perto de Deus.

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  4. Estou em choque!!! Moro fora de Belem faz alguns anos e ele foi meu professor e avaliador de monografia. Ser humano maravilhoso. Que Deus o tenha em bom lugar.

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