VER-O-FATO: A PARALISAÇÃO DOS CAMINHONEIROS?

sábado, 2 de junho de 2018

A PARALISAÇÃO DOS CAMINHONEIROS?

Alexandre Cunha* - antropólogo

Esta paralisação articulada pelo modal rodoviário é grave pois poderia levar ao desabastecimento total, de alimentos, combustível a insumos de saúde. Também desorganiza a produção, o comércio e o consumo, atingindo direitos básicos da população, como o de ir e vir, de subsistência e à vida; caminhando para ingredientes piores que catástrofes como terremotos, pandemias e furações, como o Katrina.


Aliás, um vídeo produzido e divulgado há 15 dias por entidade dos caminhoneiros antevia a dependência absoluta do país pelos caminhões; mostrando como, em 5 dias, humanos, animais e plantas caminhariam para a morte e a paralisia total da comunicação, da produção e do consumo e alcançamos 11 dias, previstos, de uma situação de paralisação, como na série de TV, que mostra como seria após o fim dos humanos na terra ou no país.

A paralisação com a possível falta de tudo, numa antevisão, poderia levar a choques sociais e políticos intensos e trágicos com um potencial destrutivo de mortes, pela fome ou doenças, de humanos a animais, até insepultos. A causa foi a conjuntura da crise econômica agravada a partir de 2016 que impactou o transporte de cargas com queda de valor e volume.

A crise agravou-se dado o aumento, antecedente, da frota, via subsídios e a situação da Petrobrás que antes, artificialmente, manteve os preços baixos e controlados dos combustíveis.

Ao assumir, Pedro Parente, tentando recuperar a Petrobrás, atrelou o preço às variações mundiais do barril de petróleo e do dólar, o que levou nas últimas semanas há aumentos quase diários, posto que os preços do petróleo e do dólar aumentaram e variaram com a conjuntura internacional e a nacional dos Estados Unidos e seus juros. Este foi o gatilho da paralisação com tinturas de greve, mas com características de locaute e boicote.

Todos, grandes, pequenas empresas e autônomos são empresários não empregados e além disso forçam a paralisação de outras atividades como nas refinarias e portos, impedindo empregados de trabalhar até com sabotagens e em alguns casos impedindo jornalistas de trabalhar e noticiar, isto com as polícias "plantadas" a dez metros, no Porto de Suape-PE.

Atitude corriqueira do Estado brasileiro. As suas reivindicações, apesar de justíssima, não são trabalhistas mas empresariais e insolúveis no caro modelo rodoviarista. Mas, governo e os caminhoneiros deveriam saber que custos e valor do frete quase inviabilizam a atividade. Por que não negociaram?

Também o locaute foi planejado e organizado com antecedência, pois ficariam por tempo indeterminado sem faturarem e com os gastos da logística da ocupação. Houve coordenação nacional, pois pararam em quase todos Estados, ou seja, para o tamanho, mobilização e disposição do movimento só com planejamento e organização.

Mas, se foram eficientes para paralisar, não o foram  para desmobilizar, o que mostra o domínio dos interesses particulares e de grupos sobre os coletivos, assim como a lerdeza do Estado brasileiro.

Os transportadores foram além de suas reivindicações específicas, associando-se à motivações políticas desde os extremos do espectro político, quando nos bloqueios apareciam em faixas, cartazes e no asfalto, palavras de ordem como "Fora Temer", "Fora Rede Globo", "ocupação popular já", "nova Constituição", "intervenção militar já", "forças armadas ajudem", "não eleição, sim intervenção, fora comunistas".

Houve infiltrados, sim, mas os transportadores estão mais politizados do que parecem. O fato é que a crise que passamos hoje é tão grande que parcelas do povo vêem no enfrentamento dos caminhoneiros a possibilidade de mudanças ou de vitória dos seus projetos políticos, seja da esquerda, centro e direita.

Porque ficamos reféns deste rodoviarismo, com tal poder, capaz de estrangular a ordem social, econômica e humana que com todas as deficiências construímos neste país? Talvez possamos recuar ao presidente Juscelino e o seu rodoviarismo, que logo estrangulou o transporte ferroviário e o fluvial e marítimo, apesar do nosso imenso litoral e malha de rios. Os militares decretaram o fim das ferrovias e dos navios com gigantescas estradas como a Transamazônica e a Brasília-Acre, tudo para "integrar".

A Nova República de Sarney iniciou a ferrovia Norte-Sul, que em 30 anos dos sucessivos governos naufragou em corrupção e erro técnico. Na sequência dos governos, o rodoviarismo se aprofundou e irresponsavelmente não cuidamos nem das estradas, tornando o modal insatisfatório, seja para o país e para os caminhoneiros.

Assim, tudo estava preparado para essa hecatombe, pois o Brasil ficou escravo de um modal caro, com péssimas vias, inviável, e que favoreceu a concentração da produção e o fim da atividade local. 75% do consumo do Pará é suprido pelo sudeste, a 3.000 km, com caminhões, o Maranhão 90% e mais ainda o Amazonas. Este era o panorama a quando da medida de Pedro Parente.

Será que o Estado e o governo brasileiro não tinham qualquer avaliação de que nosso "planejamento" nos tornara reféns do modal rodoviário? É triste, mas podemos afirmar que o Estado brasileiro não age tendo em vista o bem coletivo, mas interesses particulares e de grupos.

A forma como o Estado tentou resolver este locaute parece só levar em consideração os interesses das transportadoras, e logo do aparelho de estado, polícia, militares, aviões que usam. As necessidades de alimentação, saúde, produção e transporte da população que deveriam ser o objetivo da negociação, inverteram-se, pois priorizava-se as reivindicações até justas de um grupo diante dos direitos de toda população.

Isto mostra a extrema inabilidade do Estado. Temer, Pezão e França diziam "atendemos todas as suas reivindicações, não cumprem suas promessas e trazem outras reivindicações". Para a população diziam que estavam "otimistas de acordo", apesar da dificuldade por "lideranças dispersas", segundo Marum.

A percepção da realidade social e política do Estado brasileiro, existe  atraso de uns 50 anos. Em 2001, oito terroristas deixaram o poderoso Estados Unidos  extremamente vulneráveis. Hoje, o bater de asas de uma borboleta no México provoca tempestade nos Estados Unidos.

Um mínimo grupo pode provocar uma catástrofe na história. Será que estes fatos tirarão do berço "esplêndido" o Estado, os poderes da República e mesmo o povo brasileiro? Talvez não, remendaremos com bilhões o velho sistema e não nos modenizaremos. O último gabinete do Império era mais moderno que a retrógrada República implantada.

Nas crises retrocedemos com "intervenções" já batizadas à esquerda ou direita. O que faz a ABIN, PF e outros órgãos que não informaram o governo? Será que Parente não tinha capacidade para saber que dólar e petróleo são voláteis e que deveria dar uma margem mais ampla para reajustes. É elementar, mas queria o prestígio pessoal de "salvar" a Petrobrás.

Rodrigo Maia adiantou-se para magicamente solucionar, reunindo deputados que ganham mais de 200 mil e não votavam mais nada, pois estão em campanha, e aprovaram um erro de soma de 10 bilhões. Eunício, do Senado, foi mais honesto, viajou para um forró no Ceará com Bezerra Potiguar. Se apreendermos esta amarga lição, primeiro o Estado deve colocar os interesses coletivos da nação como prioridade.

Assim, deveria buscar alternativas como prioridade. Assim, deveria buscar alternativas logísticas e modais por todos os meios legais e políticos do Estado, independente de atender as justas reivindicações, para se contrapor a esse sequestro momentâneo da nossa cidadania e até humanidade. Imediatamente deve começar investimentos para mudar o modal de transporte para ferroviário, marítimo e fluvial com nosso imenso litoral e rios.

Na realidade, o modal rodoviário, junto com os caminhoneiros, são vítimas do modelo que o Estado e a sociedade brasileira impuseram nestes mais de 60 anos. Esse modelo está esgotado, com altos custos, de 15 vezes mais caros que o ferroviário. Só 15% são autônomos e mesmo se concentrar em grandes empresas, estará em crises periódicas e permanentes que estrangularão nosso futuro e civilização.

Será que este cataclisma não nos ensinará que o Estado deve atender o bem público com agilidade, otimizar litoral, rios e ferrovias e desconcertar a produção da nação, aumentando a produção regional e local? Assim, "caminhonheiros" jogam o papel ambíguo de algozes e vítimas até deles mesmos e desta República retrógrada e personalista.
* Manoel Alexandre Cunha é antropólogo e professor da Universidade Federal do Pará (UFPA)

2 comentários:

  1. Apenas um reparo. O Porto de Suape não se localiza no Rio de Janeiro, mas em Pernambuco.

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  2. Verdade. Farei a correção, com licença do articulista que assina a matéria. Obrigado.

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