VER-O-FATO: ESTUDO DA UFPA ATESTA A CONTAMINAÇÃO

terça-feira, 22 de maio de 2018

ESTUDO DA UFPA ATESTA A CONTAMINAÇÃO


A lama vermelha armazenada nas bacias: fonte de contaminação
Carlos Mendes
 
O pesquisador Marcelo Lima, do Instituto Evandro Chagas, disse que o estudo do Centro de Geociências da Universidade Federal do Pará (UFPA) que constatou a existência de elementos radioativos como urânio e tório na bauxita de Paragominas que é processada em Barcarena pela mineradora norueguesa Hydro Alunorte, “é muito importante”, porque corrobora tudo aquilo que já estudei sobre outros agentes químicos e divulguei nos laudos sobre a contaminação de rios, igarapés e nas comunidades do município”.


Esse estudo sobre a bauxita é um dos argumentos que sustenta a ação civil pública impetrada em Paragominas na última terça-feira, 15, pelo advogado Ismael Moraes, defensor da Cainquiama, entidade de moradores contaminados, que pede à Justiça Federal a paralisação da mina de bauxita da Hydro e a retirada pela empresa dos rejeitos das duas bacias de Barcarena. A matéria foi a manchete da edição de anteontem de O Liberal.

“Havia um discurso e até críticas da Hydro, dizendo que no processo dela de processamento da bauxita em seus fornos e no armazenamento dos rejeitos nas bacias e que foram descartados no meio ambiente não havia chumbo. Nós detectamos que havia e agora, na CPI, ela diz que sim, mas que são apenas traços. Quer dizer, ela admite o que antes negava”, comenta Lima.

No caso das rochas, em estado intacto na natureza, como retrata o Centro de Geociências da UFPA, para Lima existe uma diferença. “Quando você tira essa rocha e a processa de qualquer forma, os elementos que estavam imobilizados passam a ter mobilidade e isso demanda em risco à saúde humana, porque estão nas águas jogadas nos rios ou que são consumidas pelos moradores”, explica o pesquisador. Ele espera que um estudo mais aprofundado, especificamente sobre os elementos radiotivos, seja feito para tirar qualquer dúvida.

Em resumo, o estudo das rochas de Paragominas traz mais luz sobre o que está ocorrendo em Barcarena porque também discute os elementos traços de radioatividade e se soma ao estudo das cinzas em Barcarena. Nesse último caso, afirma Lima, o estudo da lama vermelha, mais as cinzas que ele observou em suas pesquisas, revelou duas fontes de chumbo.

Para outra pesquisadora, a do Departamento de Química da UFPA, Simone Pereira, o estudo também ajuda o trabalho que ela já vinha realizando sobre as contaminações em Barcarena. Fica evidente, no estudo do Centro de Geociências, que é muito completo, com mais de 700 páginas, diz ela, que a bauxita que sai de Paragominas possui uma composição onde esses elementos químicos estão presentes.

“Isso eu já vinha falando, porque tenho trabalhado com elementos como o chumbo e o cromo, mas principalmente os radioativos. Aliás, são radioativos que eu encontrei na água, em análises passadas, mas que não podia divulgar por conta da falta de um padrão de referência de urânio e tório”, revela Simone Pereira.

Proibida - Em vista disso, ela se diz “muito tranquila” por ter encontrado agentes radioativos nas águas do rio Murucupi, mas observa que ainda não possui o padrão de referência de urânio e tório para ter cem por cento de certeza de que aqueles resultados eram exatos. A pesquisadora defende que uma análise nos filtros da Hydro Alunorte, após a saída lama vermelha, deveria ser permitida pela empresa para que fosse verificado o grau de contaminação. Essa lama, depois que deixa os filtros, é levada em caminhões até a bacia DRS1, como antes a empresa fazia com a DRS2, hoje embargada pela justiça.

Simone contou que foi proibida pela Hydro de fazer essa análise. “É estranho que isso tenha ocorrido, porque se a empresa nada tem a temer e se diz em busca da verdade, deveria facilitar o trabalho e não dificultá-lo”, resume. E acrescenta que fica a imaginar que depois de anos e anos de exploração, Barcarena “vai virar um grande depósito de lama vermelha”.

Estudo do estudo - O advogado Ismael Moraes informou a O Liberal que já solicitou por meio de ofício ao Instituto Evandro Chagas uma análise técnica sobre o estudo do Centro de Geociências, sobretudo quando ao teor de radioatividade dos elementos contidos na bauxita de Paragominas e sua lesividade depois que eles, liberados no processo de ionização em Barcarena, deixam o estado de repouso e passam a fazer parte da lama vermelha depositada nas bacias de rejeitos.

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