quarta-feira, 23 de maio de 2018

"A VENEZUELA É UMA DITADURA GOVERNADA POR ASSASSINOS", DIZ PRESO POLÍTICO


Ignacio Porras, com seu cão Zeus. Foto de Rodrigo Cavalheiro
Não há dia em que Zeus, um vira-lata com pinta de buldogue, deixe de passear pelo bairro de Chacao, em Caracas. Nunca com o dono, Ignacio “Nacho” Porras, engenheiro de computação preso em 2014 por participar de protestos contra o governo. Nacho passou um ano em El Rodeo, um dos presídios mais violentos do país. Desde 2015 está em prisão domiciliar. 


A porta de seu apartamento era ontem vigiada por dois policiais, com quem parece ter relação amistosa. A seguir, trechos da entrevista concedida por ele ao Estado, incluindo perguntas enviadas durante transmissão ao vivo pelo Facebook do Estadão. 


Como o sr. foi preso?

Foi em uma das primeiras batidas policiais após os protestos de 2014. A polícia invadiu minha casa e me levou preso com pessoas que eu não conhecia. 

Qual a acusação?

Desobediência às leis, instigação ao crime, forçar as pessoas a saírem a protestar, obstrução de vias públicas e associação para o crime. 

O sr. passou o primeiro ano em regime fechado. Foi torturado?

Sim. Não desejo isso para ninguém, não se sabe se é segunda, sábado ou domingo. A vida não vale nada. Eles me bateram algumas vezes e me colocaram durante três meses na solitária.  

Por quê?

Eu estimulava os outros presos a derrubar Maduro. 

Como obteve prisão domiciliar?

Precisei fazer uma operação no coração e o Estado não podia me manter lá dentro nessas condições. 

Se a oposição tivesse participado da eleição não seria mais fácil denunciar a fraude?

Se todos participassem, os números de Maduro teriam sido ainda mais inflados. 

A que se deve o apoio que Maduro ainda tem?

Maduro compra votos e oferece dinheiro em troca de apoio de quem não tem trabalho. Essa é uma ditadura governada por assassinos. O povo não foi votar porque não acredita mais nessa ditadura. 
As sanções internacionais que afetam o povo valem a pena?

Sim. Estamos sendo castigados há 18 anos. É preciso romper este ciclo. 

Por que Maduro não deixa entrar ajuda externa?

Ele está como eu, só que a Venezuela é a prisão dele. 

Por que não há protestos?

Há muita fome, desemprego. Toda semana falta água e luz, e isso em Caracas, a capital onde tudo tem de funcionar. No interior, há caos. O país não produz mais nada. As pessoas estão esperando para ver se recebem alguma ajuda de fora.  

Que tipo de  ajuda?

Intervenção. 

O sr. não acredita em saída negociada?

Não, esse governo nunca vai sair de outra forma. 

O sr. foi orientado pelo governo a não dar entrevistas. Teme retaliação? 

Assumo a responsabilidade. O que mais podem me fazer? Já estou preso.  (Fonte: Estadão)



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