VER-O-FATO: A BARBÁRIE À ESPREITA

sexta-feira, 13 de abril de 2018

A BARBÁRIE À ESPREITA




Euclides Farias - jornalista

"Fui repórter de polícia, como a maioria dos jornalistas iniciantes, brigando pela notícia no dia a dia das ruas de Belém com as feras do jornalismo policial da época. Meu parceiro de O Liberal era o lendário Ítalo Gouvêa. Nossos principais concorrentes eram os radialistas Adamor Filho e Amauri Silveira e o jornalista Tampa de Bilha, d'A Província do Pará. Uma escola da pesada.


Belém era menor, menos povoada e infinitamente menos violenta do que agora. A polícia conhecia os bandidos pelos nomes. Se houvesse um roubo, analisava as características do delito e ia buscar o acusado em casa. Os indícios inconfundíveis do crime e os testemunhos terminavam quase sempre em justa prisão.

Os policiais chamados de linha de frente, escalados às missões mais perigosas, também eram muito conhecidos. Lili Cartucheira, Machado, Farias e Café eram os mais famosos. A Divisão de Vigilância Geral (DVG), na Quintino Bocaiúva, e o Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), criado no Estado Novo de Getúlio Vargas e um dos braços mais fortes da ditadura de 1964, eram as mais temíveis células da Polícia Civil.

A conjuntura do Estado policial, ajudada por um ensino público de qualidade incomparável ao hoje oferecido à juventude, desestimulava o crime. Nem em sonho estou a louvar o controle do cidadão e a repressão inerente à falta de democracia. Sou um democrata de nascença, de origem operária. É apenas uma constatação para situar o leitor no ambiente político de então, contemporâneo ao exercício da reportagem policial por aquela geração de velhos repórteres.

A imprensa não cansava de publicar roubo de bicicleta e briga de vizinhos, sem bolir nos temas graúdos que a falta de liberdade impunha. Um "presunto" no IML reunia todos os repórteres e fotógrafos de polícia da cidade. Às vezes, a edição do caderno saía tão "fraquinha" de "boas notícias" que os baderneiros (revendedores de jornais) reclamavam que as vendas seriam um fracasso.

O ponto é este. Nunca, como repórter policial e depois como editor de polícia e ao longo de 40 anos de profissão, vi a situação da segurança pública tão grave quanto agora. A sensação, numa cidade em que poucas pessoas podem se gabar de ainda não ter sido assaltadas, é de absoluta encruzilhada. Façamos todas as relativizaçôes que quisermos e a equação sempre parecerá insolúvel.

A cidade explodiu, o poder paralelo se instalou e a sociedade está refém. O Estado perdeu a guerra para o crime e está desafiado a se reinventar para poder virar o jogo.

Arrisco um palpite: a fórmula não sairá de gabinetes, senão de um grande pacto social que envolva as comunidades de bairros onde vivem as pessoas aprisionadas. Elas têm contribuição indispensável a oferecer para que o Estado, renovado, oxigenado e livre de seus vícios e demônios, possa pensar num novo tempo.

Até lá, é a barbárie".

Nota do blogue: O Ver-o-Fato pede permissão ao amigo-irmão Euclides Farias para dizer que assina embaixo desse brilhante artigo. E acrescenta que os moradores de Belém e, por extensão, de todo o Pará, somente terão de volta a paz que tanto anseiam se os governantes continuarem a insistir em buscar resultados diferentes utilizando as mesmas fórmulas que têm dado errado.

Reconhecer o fracasso desse modelo seria um passo adiante para começar a mudar o cenário de medo cotidiano que experimentamos todos os dias ao botar a cara na rua. A vaidade, entremeada de corrosiva arrogância, porém, não permite o "mea culpa".

Inclusive de que as políticas sociais - sempre ausentes nos últimos 20 anos de nosso Estado - nunca figuraram entre as prioridades dos governos que se revezam no poder.

E nós, pagamos o preço. Até quando? 
 

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