VER-O-FATO: RECADO DAS COMUNIDADES À HYDRO: PEDIDOS DE DESCULPAS NÃO MATAM FOME, NEM SEDE

sexta-feira, 23 de março de 2018

RECADO DAS COMUNIDADES À HYDRO: PEDIDOS DE DESCULPAS NÃO MATAM FOME, NEM SEDE

A indignação da moradora com o caos social e ambiental em Barcarena. Foto MPF


Ficou bem claro, durante a audiência pública de ontem em Barcarena, que as comunidades contaminadas intencionalmente pela mineradora norueguesa Norks Hydro - e isto já está claro pela própria confissão do presidente da empresa, sr. Svein Richard Brandtzæg, de que ela despejou rejeitos de bauxita no rio Pará - não aceitam pedidos hipócritas de desculpas, tentando atenuar a gravidade dos crimes ambientais e sociais praticados contra uma população indefesa.

O recado das cerca de 1.000 pessoas que compareceram à audiência, realizada na igreja da Assembleia de Deus, também foi endereçado aos fiscais da lei e do interesse público, no caso os Ministérios Públicos Federal e Estadual, que priorizavam um vergonhoso acordo com a Hydro - para ela ficar boazinha e consertar seus malfeitos - quando a urgência que está em jogo é proteger a vida de milhares de pessoas, que, doentes e desamparadas, exigem cuidados médicos, água para beber e reparação de seus direitos criminosamente violados por quem só pensa no lucro e na balança comercial de seus negócios produzidos pela exploração desenfreada das riquezas do Pará.


A posição do Ver-o-Fato é esta: a de estar ao lado das comunidades impactadas pela Hydro, como sempre esteve nestes seus 2 anos e 8 meses de existência. Lógico que acreditamos no trabalho do MPF e MPPA, porque se deixarmos de acreditar em quem, por dever de ofício, tem a obrigação de investigar, fundamentar e ajuizar ações contra eventuais criminosos, sejam poderosos ou não, seria melhor não acreditar mais em nada e em ninguém. Os dois órgãos públicos são fundamentais na busca de uma sociedade mais desenvolvida e feliz.

Só não podemos aceitar vacilo ou covardia diante dos golias do capitalismo empenhados em tentar esmagar os davis que lutam pelo direito de pescar, plantar, criar seus filhos, cuidar de seus idosos. Enfim, de viver em paz e existir.  

Estamos de olhos abertos.
 
Desculpas matam sede?

A propósito, a respeito da audiência pública, o Ver-o-Fato recebeu e publica abaixo, na íntegra, um relato do ocorrido, segundo matéria distribuída pelas assessorias de imprensa do MPF e MPPA: 


"O pedido de desculpas da refinaria de alumina Hydro Alunorte pelo descarte de água não tratada em rio de Barcarena, no Pará, não é o bastante para resolver os impactos socioambientais provocados. É preciso a adoção de medidas concretas para reduzir os efeitos desses impactos na saúde da população e nos meios de subsistência e geração de renda, como a agricultura e a pesca.

Essa é a conclusão de vários dos moradores de Barcarena ouvidos nesta quinta-feira (22) pelo Ministério Público Federal (MPF) e pelo Ministério Público do Estado do Pará (MPPA) em audiência pública no município.

As doenças estão por toda parte nas comunidades abandonadas. Foto MPF

"Pedidos de desculpas matam sede? Pedidos de desculpas matam fome? Queremos dignidade, queremos um sistema de abastecimento de água, e não alguns potes d'água entregues uma vez e pronto", reivindicou o agricultor familiar Eduardo do Espírito Santo, da comunidade quilombola de Burajuba.

Moradores relatam que, depois do vazamento de lama com resíduos tóxicos ocorrido em fevereiro deste ano em uma das bacias de rejeitos da refinaria, a água dos poços das comunidades está com gosto amargo, coloração esbranquiçada e viscosidade.

São comuns os relatos de ocorrência de diarreia, náuseas, vômitos, dores de cabeça e estômago, dores nas articulações, cólicas, coceiras por todo o corpo, irritação e lacrimejamento excessivo nos olhos, aparecimento de feridas e manchas na pele.

Também há denúncias de redução drástica da produtividade de roças e no extrativismo, e prejuízos a quem vive da pesca.

Transparência - Outra demanda da população é por mais participação e transparência nos processos de licenciamento das empresas do distrito industrial de Barcarena e na fiscalização do cumprimento das obrigações estabelecidas nesses processos.

No polo petroquímico de Camaçari, na Bahia, há muito mais indústrias que em Barcarena e, no entanto, lá não há acidentes nem poluição como há em Barcarena porque em Barcarena não há um sistema de fiscalização constante por conselhos comunitários, disse o representante da organização Fórum de Diálogo Intersetorial de Barcarena, Petronilo Alves.

Também foi sugerida a revisão de todos os licenciamentos ambientais do distrito industrial, com a participação de pesquisadores, universidades e das comunidades de Barcarena.

Moradores de Barcarena sugeriram, ainda, que a empresa seja obrigada a pagar indenização de dois salários mínimos mensais às famílias atingidas, e que o governo norueguês, acionista da Hydro Alunorte, seja cobrado a se pronunciar publicamente sobre o vazamento e sobre o tratamento que será dado às comunidades atingidas.

Representantes de entidades sindicais dos empregados da Hydro Alunorte reivindicaram a adoção de medidas para evitar demissões na empresa, e pediram para participar de reuniões. O procurador da República Felipe de Moura Palha destacou que o Ministério Público está aberto para reunir-se com todos os interessados.

Respostas - A promotora de Justiça Eliane Moreira destacou que uma solução rápida para todas as questões emergenciais apresentadas pela população só depende da Hydro Alunorte, tendo em vista que as demandas apresentadas pelos moradores são as mesmas já apontadas pelos membros do Ministério Público, e que podem compor um Termo de Ajuste de Conduta (TAC).

No início de março a Hydro Alunorte indicou que pode aceitar a realização de acordo emergencial que trate da avaliação e efetividade do plano de emergências da empresa, da avaliação da segurança das barragens e de todo o processo produtivo da refinaria - incluindo o tratamento de efluentes -, e de medidas de garantia de fornecimento de água potável, informações e tratamento de saúde às famílias atingidas.

A manifestação dos dirigentes internacionais da empresa foi feita em reuniões com membros do MPF, MPPA e Ministério Público do Trabalho iniciadas após o Ministério Público e a Defensoria Pública do Estado terem adotado, em fevereiro, medidas judiciais e extrajudiciais logo após o acidente.

Com base em investigações que confirmaram o vazamento, inclusive por meio de perícia do Instituto Evandro Chagas (IEC), a Hydro Alunorte foi recomendada pelo Ministério Público e pela Defensoria Pública do Estado a tomar medidas urgentes e apresentar uma série de informações relativas à minimização dos impactos e à prevenção contra novos vazamentos.

Na Justiça Estadual o MPPA conseguiu que a Hydro Alunorte fosse obrigada a reduzir pela metade sua produção, decisão confirmada em segunda instância. A Justiça do Estado também proibiu o uso da bacia de rejeitos nº 2 da Hydro até que empresa obtenha licença de operação e demonstre a capacidade operacional e de segurança de sua estrutura, reavaliados todos os requisitos técnicos construtivos adequados a um padrão de chuva e também de operação.

No MPF e MPPA atuam no caso os procuradores da República Ricardo Negrini, Felipe de Moura Palha e Ubiratan Cazetta e os promotores de Justiça Eliane Moreira, Laércio Abreu e Daniel Barros. A audiência pública contou com a participação da promotora de Justiça Myrna Gouveia.

Diálogo público - Além de ouvir a população, a audiência pública realizada pelo MPPA e MPF nesta quinta-feira teve como objetivo prestar contas aos moradores sobre a atuação do Ministério Público em relação ao vazamento e ouvir quais seriam suas principais demandas emergenciais.

Iniciando a apresentação dos trabalhos realizados pelo Ministério Público, o promotor de Justiça Laércio Abreu destacou que não há nenhum acordo feito entre o Ministério Público e a Hydro, porque antes de fechar qualquer negociação o Ministério Público quer ouvir a sociedade por meio de eventos como a audiência pública realizada nesta quinta-feira.

“Graças ao apoio da sociedade de Barcarena é que o Ministério Público foi alertado sobre o vazamento logo após o fato ter ocorrido”, lembrou o procurador da República Ricardo Negrini, que também agradeceu o apoio do Ministério Público do Trabalho e da Defensoria Pública do Estado nas investigações e conversações com a Hydro.

O procurador da República Felipe de Moura Palha ressaltou que é preciso que a sociedade seja consultada, para que o Ministério Público considere tais fatos nos próximos passos a serem tomados na conversação com a empresa. "Vamos visitar cada uma das comunidades para saber quais foram os impactos a cada uma das famílias, para podermos chegar a uma solução que leve em consideração as necessidades reais de cada um de vocês", anunciou.

Atuação detalhada - O promotor de Justiça Laércio Abreu detalhou o passo-a-passo das investigações - dois inquéritos no MPPA e um inquérito no MPF apuram os fatos - e providências tomadas no caso, destacando a descoberta, durante as investigações, de mais um canal irregular de descarte de rejeitos.

A descoberta foi narrada pela promotora de Justiça Eliane Moreira, que registrou que esse canal é consideravelmente maior que a tubulação ilegal identificada nas primeiras vistorias.

"Estamos quase todos os dias vistoriando a empresa em busca de verificar a ocorrência de novos problemas como esses, e para conferir se estão sendo tomadas todas as medidas emergenciais que apontamos", informou.

A promotora de Justiça informou que denúncias sobre eventuais novos vazamentos e outras informações que possam auxiliar a atuação do Ministério Público devem ser encaminhadas por e-mail para ftbarcarena@gmail.com".

Um comentário:

  1. Enquanto a grande mídia no dia da água, ontem 22, fez várias matérias para a população não deixar a torneirinha aberta quando escovar os dentes, como se fosse só esse o problema, chega a ser patético, ignorando qualquer matança de rios por mineradoras, fábricas, indústrias. Cadê o governador? Que não diz nada. E o Direitos dos Humanos não vi eles ainda. E a ONU?

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