segunda-feira, 19 de março de 2018

PRESIDENTE DA HYDRO PEDE DESCULPAS POR CONTAMINAÇÃO DE COMUNIDADES NO PARÁ; “É HIPOCRISIA”, AFIRMA ADVOGADO DAS VÍTIMAS




Carlos Mendes - Especial para O Estado

Belém – Após negar por diversas vezes, Svein Richard Brandtzæg, presidente da mineradora noruguesa Hydro, admitiu que a empresa despejou no Rio Pará, o maior da região, rejeitos de bauxita de sua refinaria em Barcarena, no norte do estado, a 25 km de Belém. A contaminação atingiu comunidades, ribeirinhos e quilombolas que vivem no entorno das 20 bacias de rejeitos da empresa.


Os poços artesianos que forneciam água para as famílias beber, tomar banho e cozinhar foram condenados por análise do Instituto Evandro Chagas, que identificou substâncias como chumbo, bário, soda cáustica e alumínio, este com valores 32 vezes acima do permitido pela Organização Mundial de Saúde (OMS).

“Peço desculpas às comunidades, às autoridades e à sociedade. Isso é completamente inaceitável e contraria o que a Hydro acredita”, disse Brandtzæg em nota. Ele também anunciou que a empresa fará uma auditoria interna e revisão completa de todas as licenças da operação no município de Barcarena. O custo desse investimento é de 500 milhões de coroas norueguesas, cerca de US$ 64 milhões.

Os Ministérios Públicos do Estado e Federal uniram forças para investigar os crimes ambientais da Hydro e propor ações criminais e civis de reparação de danos ao meio ambiente e às pessoas. A Hydro, que despejou rejeitos minerais por três dutos e canais clandestinos, já recebeu duas multas individuais de R$ 20 milhões por atividades “potencialmente contaminantes sem licença ambiental válida”, e também por “operar tubulação de drenagem sem licença”.

TJ rejeita recurso - Além disso, o juiz de Barcarena, Iran Sampaio, no último dia 6, obrigou a empresa a reduzir em 50% a produção de sua fábrica de alumínio, a maior do mundo. A Hydro recorreu com medida cautelar, mas o desembargador Leonam Cruz, do TJ paraense, negou o pedido da empresa e depois um agravo. Ela recorreu e na manhã desta segunda-feira,19, por unanimidade, os 12 desembargadores da Câmara de Direito Penal do Tribunal mantiveram a decisão de Leonam, que nos próximos dias deve julgar o mérito do caso.

Em represália, pelo corte à metade de sua sua produção, a Hydro já havia anunciado na semana passada “férias coletivas” para 400 trabalhadores e no último sábado divulgou que dará férias para mais 600 empregados, do total de 1.700 lotados nos polos industriais de Barcarena e Paragominas.

O advogado socioambiental Ismael Moraes, defensor de 105 comunidades de Barcarena que desde o ano passado move ações contra a empresa na Justiça Estadual e Federal, foi taxativo sobre o pedido de desculpas do presidente da Hydro: “é pura hipocrisia”. Segundo Moraes, as comunidades do entorno do projeto Hydro Alunorte estão privadas de água potável, doentes de câncer, problemas estomacais, respiratórios e de pele por terem ingerido água de poço. A Hydro distribuiu garrafões de água mineral, mas para apenas três comunidades.

350 mil exames - “Nem plantar suas roças as famílias podem, porque a floresta e o solo também estão contaminados”, resumiu Moraes, que na última sexta-feira ingressou com nova ação judicial contra a Hydro, agora para que ela pague cerca de 350 mil exames laboratoriais em 20 mil moradores. O juiz da 5a Vara Cível de Belém, Raimundo Santana, já está analisando a ação para verificar seu cabimento.

Essas medidas, diz o advogado, deveriam ser de iniciativa da Hydro e não de pedido judicial: “o presidente da Hydro fala uma coisa na imprensa, mas nada faz para cuidar dos moradores doentes”.

2 comentários:

  1. Shared here: https://m.facebook.com/Ending-Sweat-Ship-Exploitation-in-the-Cruise-Industry-116098248406848/

    ResponderExcluir
  2. Desculpa esfarrapada. Vai ter que pagar cada pessoa que foi contaminada por essa fábrica. Cadê a ONU, o Direitos dos Manos? Se fosse um presidio pegando fogo... Chega de impunidade e hipocrisia nesse país!

    ResponderExcluir