terça-feira, 13 de março de 2018

EM JORNAL DA NORUEGA, HYDRO CONFESSA QUE PRATICOU CRIMES AMBIENTAIS NO PARÁ: ISSO DÁ CADEIA






Foto Capa Jornal impresso/Fernando Mathias

Reportagem: Agnete Klevstrand

Fotos: Adrian Øhrn Johansen

Tradução: Fernando Mathias

Matéria publicada originalmente em norueguês: https://www.dn.no/nyheter/2018/03/11/1645/Industri/hydro-innrommer-ulovlige-utslipp-i-brasil

BELEM, BRASIL: A Hydro continua lutando para gerenciar a crise no Brasil, onde a contaminação da água potável de centenas de famílias e críticas severas levaram a empresa a ter que reduzir a produção da planta da Alunorte pela metade.

A Hydro até agora tem sustentado que não há prova de que a descarga de sua enorme fábrica seja a causa da contaminação, mas confessa agora que houve descargas advindas da fábrica.



– Podemos confirmar que houve uma descarga controlada do Canal Velho, que fica ao lado da estação de tratamento dentro da área da refinaria.

É o que escreve o diretor de informação da Hydro, Halvor Molland, em email ao DN domingo à tarde horário norueguês.

– Isso foi feito para aliviar a estação de tratamento, que estava sob grande pressão por causa da chuva. Isso foi feito sem licença, diz Molland.

Ao responder à pergunta do DN, ele esclarece que se trata de uma série de descargas.

As descargas foram feitas após uma forte chuva de mais de 200 mm na madrugada do dia 17 de fevereiro deste ano. A primeira descarga teria sido feita no próprio dia 17 de fevereiro. Desde então, teria havido outras descargas “periodicamente entre 20 e 25 de fevereiro”, de acordo com Molland.
 
«Muitas coisas aconteceram»

A confissão vem depois de uma entrevista feita pelo DN ao pesquisador Marcelo Lima, responsável por uma série de controles feitos na planta. O jornal local Diário do Pará também repercutiu o caso.

O diretor da Hydro Svein Richard Brandtzæg foi ele próprio ao Brasil para gerenciar a crise. O DN recentemente escreveu que a primeira coisa que ele fez foi visitar os vizinhos, a comunidade local que vive no entorno das gigantes instalações da Hydro.

– Estou muito feliz de ter viajado ao Brasil para ver com meus próprios olhos como a situação vem se desenvolvendo e constatar que temos total controle da produção. A primeira coisa que fiz foi viajar para a comunidade local. Há algumas comunidades que vivem próximas às fábricas, diz o chefe da Hydro.

– A população local está sofrendo sob condições difíceis. Estamos falando de crianças e adultos que vivem aqui e estão com medo, e levamos isso a sério, disse ele.

Se por um lado a Hydro alertou as autoridades ambientais locais, os vizinhos não ficaram sabendo de nada.

– A população local não foi alertada, informa Molland.

– Esse é um aspecto que estamos analisando detidamente, como parte de nossas investigações internas e da auditoria externa independente.

A Hydro chegou a contratar quatro médicos, entre outros, para depor.

– As informações que recebi dos médicos é que não é a fábrica que é o problema. Eles informam que a água de beber e o esgoto estão lado a lado, e foram misturados depois da chuva forte. Ademais, há um grande depósito de lixo nas proximidades onde não há qualquer segurança e que é uma ameaça à agua potável, disse Brandtzæg.

Molland informa agora que, embora a Hydro não tenha alertado seus vizinhos sobre os vazamentos, as autoridades ambientais locais foram alertadas pela primeira vez dois dias depois da primeira de uma série de descargas.

A Hydro havia anteriormente anunciado que um grupo de autoridades que fizeram uma inspeção na fábrica da Alunorte e na região do entorno, encontraram uma tubulação de água que não estava adequadamente selada. A tubulação de água foi utilizada durante a construção da fábrica, e de acordo com a Hydro, muito pouca água vazou da referida tubulação durante as chuvas de fevereiro.

Uma análise cuidadosa

A Alunorte é a maior refinaria de alumina do mundo, o principal ingrediente do alumínio. No ano passado, a Hydro produziu ali 6,4 milhões de toneladas de alumina a um valor de 18,5 bilhões de NOK (R$ 7,7 bilhões).

O diretor de informação Molland informa que a emissão pode conter entre outras coisas pó de bauxita da fábrica carregado pela água da chuva. A emissão sofreu tratamento de pH na entrada do canal, o que significa que toda a soda cáustica ali contida foi neutralizada a um pH menor do que 9 antes da descarga, de acordo com a Hydro.

Vocês mantiveram isso escondido?

– Não, nós informamos as autoridades ambientais. Isso não é algo que nós deliberadamente tentamos esconder.

– Por quê vocês não mencionaram isso para a população local ou quando questionados pela imprensa?

– A alegação era de que havia sido uma descarga descontrolada. O que houve foi uma descarga controlada.

A direção sabia disso?

– Esta é uma fábrica grande, muitas coisas aconteceram. Por isso agora nós vamos fazer uma análise cuidadosa dos acontecimentos e o uso do canal é uma das coisas que estamos investigando. Estamos numa fase em que temos investigações internas e externas.

Brandtzæg estabeleceu um grupo de trabalho de urgência que reporta diretamente a ele. Eles viajaram ao Brasil já antes do fim de semana. Mais tarde a Hydro também contratou uma empresa de consultoria do Brasil para fazer uma análise independente.

– Isso pode ser a causa da contaminação da água potável da população?

– Pó de bauxita na água não é algo em si perigoso. Não temos qualquer indicação de que isso tenha causado danos ao meio ambiente, mas vamos analisar isso agora, diz Molland.

Em respostta à questão sobre o tamanho das emissões, Molland responde que ele não tem acesso à estimativa de volume.

«Mais grave do que as descobertas até agora»

– Eles não podiam mais negar, diz o pesquisador Marcelo Lima ao ouvir que a Hydro agora confirma os vazamentos.

Ele é pesquisador em meio ambiente e saúde pública no Instituto Evandro Chagas (IEC) em Belém, Brasil, e realizou uma série de testes na região do entorno da planta da Hydro.

No domingo, o Diário do Pará escreveu sobre o canal que a Hydro agora confirma a descarga. De acordo com as fontes do jornal, o canal teria sido usado para descarga de poluentes até três vezes por semana — também antes das chuvas de 17 de fevereiro.

O pesquisador Marcelo Lima confirma ao DN que ele obteve resultados similares.

– Isso é ainda mais grave do que mostram os nossos resultados até agora. É claramente ilegal, e é algo diferente de um evento isolado que pode acontecer quando o nível da água sobe repentinamente. O que ainda não medimos é o qual o tamanho do risco, e que consequências isso tem para os rios e a população. Sobre isso ainda não é possível se manifestar, diz ele.

Halvor Molland da Hydro esclarece ao DN que ele não tem conhecimento de que o canal tenha sido usado para qualquer descarga antes de 17 de fevereiro deste ano.

Marcelo Lima diz que empresas estrangeiras que ganham bilhões explorando recursos naturais no Brasil devem fazer mais pela população local de seus entornos.

– Se por exemplo se trata de um problema de fornecimento de água para a população local, uma parceria públic-privada para fornecimento de água poderia ser uma possibilidade.

– Vale a pena ter esses recordes de produção se você não tem controle sobre o que sai da fábrica? Vale a pena ter recorde de produção se você não tem uma boa relação com a população? A Hydro precisa mudar e fazer mudanças reais na produção da Alunorte, diz ele.

«Não cooperou»

Após a chuva violenta da noite de 17 de fevereiro, o nível de resíduos tóxicos ultrapassou os limites de qualidade da água na fábrica. As autoridades locais solicitaram ao grupo de pesquisa de Marcelo Lima que fizesse testes para controle de emissões tóxicas. O grupo de pesquisa encontrou uma Hydro pouco disposta a cooperar.

– Nós fomos à Hydro para fazer as inspeções logo depois da chuva. Eles não cooperaram. Negaram-se a mostrar para nós os locais que solicitamos inspecionar. Quando perguntamos onde se encontrava uma tubulação, eles não queriam responder, diz Lima.

A Hydro agora quer analisar cuidadosamente o caso por inteiro.

– Podemos concordar com muitos dos comentários de Lima, e também queremos ser um ator de longo prazo na região, e desenvolver as comunidades locais em nosso entorno. Vamos portanto analisar cuidadosamente toda a situação em nossas avaliações interna e externa independente para ver o que podemos melhorar, diz Molland da Hydro.

Um comentário:

  1. ESSE ESQUEMA DE CORRUPÇÃO E DEGRADAÇÃO AMBIENTAL TAMBÉM OCORRE AQUI NO ASSENTAMENTO JURUTI VELHO COM O INCRA E A ALCOA E A JUSTIÇA FAZ VISTAS GROSSAS. SE FOSSE EMPRESA BRASILEIRA A JUSTIÇA JÁ TINHA FECHADO.

    http://www.ver-o-fato.com.br/2015/12/os-riscos-da-barragem-da-alcoa-em-juruti.html

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