quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

QUASE MINISTRA

Vanity 1890. Pintura de Auguste Toulmouche
O texto da amiga Sonia Zagheto é para ler do começo ao fim. É o resumo - num textão, e daí? - do que simboliza o Brasil de hoje. Está no Facebook, mas pedimos licença para reproduzí-lo: 
"Teatro Brasilis apresenta sua nova produção, “Quase Ministra”, peça em quatro atos, plágio mal feito da obra de Machado de Assis.
Personagens:
Cristiane Brasil, deputada, candidata a ministra do Trabalho, carente de noção, compostura, vergonha e decoro.
Roberto Jefferson. Pai de Cristiane, raposa experimentada na política, negociador matreiro.
Michel Temer. Dublê de presidente da República e ator de filmes da década de 30.
Resumo dos Atos

Ato 1 – Praça dos Três Poderes

Depois de uma conversa secreta, na qual se trocou cargos destacados por apoio às reformas – uma prática bastante comum nos arraiais de Brasília – Roberto Jefferson e Michel Temer bateram o martelo: a filha de Jefferson seria a nova ministra do Trabalho.

Seria mais um episódio do toma-lá-dá-cá que rege as relações na capital federal, não fosse a pesquisa, comoção e revolta que marcaram as primeiras horas após o anúncio. Descobriu-se que a deputada havia “esquecido” de assinar a carteira de trabalho de um motorista e foi processada. 

“Quem nunca?”, provocou a quase-ministra, indiferente à constrangedora situação de que o país, violentado diariamente, teria de engolir mais um escândalo: o de ter uma ministra do Trabalho suspeita de haver desrespeitado a legislação trabalhista. Pior, deputada eleita pelo PTB, aquele partido do qual fez parte Getúlio Vargas. 

A Justiça brasileira cortou-lhe as pretensões. Desprovida de qualquer noção mínima de como portar-se com elegância perante as adversidades, Cristiane bateu o pezinho, manteve a candidatura e encomendou o vestido da posse.
Estava convicta de que não havia problema algum. 
Ajudaram-na a se manter firme uns hábitos consolidados entre as figuras públicas na história recente do Brasil: negar qualquer acusação, atropelar a  realidade e achar bem normal sofrer acusações e permanecer lépido e fagueiro no cargo.
Quanto a Temer, cansado de ter voltado atrás em dezenas de decisões, decidiu bancar a queda de braço justamente no caso de Cristiane. Ou talvez a conversa de bastidores com Jefferson tenha tido nuances que a pátria (mãe tão distraída) sequer sonha. O fato é que o governo também bateu o pezinho na cadência de Cristiane e recorreu para manter a indicação. 

O ato se encerra com um monólogo no qual o presidente da República exibe seus dotes de ator de filmes da antiga Atlântida: dentro de uma bolha transparente, desfia um rosário de lágrimas no qual atribui sua impopularidade ao fato de “as pessoas não gostam não irem com sua cara”. Um primor da auto-ilusão. 

Ato 2 – A Grande Batalha

É o momento mais palpitante da trama, com sucessivas reviravoltas no roteiro: a Grande Batalha do Judiciário. Começa quando um juiz de Niteroi, Leonardo da Costa Couceiro, suspende a posse de Cristiane, considerando que não poderia ser ministra do Trabalho alguém que violou a legislação trabalhista.

Ação daqui, protesto de lá, recursos adiante, surge em cena, para breve, porém decisiva, participação a ministra Cármen Lúcia. A presidente do STF manteve Cristiane no limbo: não pode, filha (do Sr. Jefferson). O governo tentou  reverter a situação em três recursos à Justiça Federal, mas foi derrotado. 

A Advocacia Geral da União obteve vitória curta em 20 de janeiro, quando o vice-presidente do STJ, ministro Humberto Martins, derrubou a liminar que suspendia a posse. Carminha voltou ao palco e pela segunda vez cassou liminarmente o sonho da quase-ministra.

Ato 3 – Perigo al mare

Contrariada, Cristiane foi relaxar num iate. Poderia, antes de sair de casa, ter feito uma gravação sóbria, apresentando argumentos, mas preferiu uma perigosa informalidade. Cercada de depilados quase-donzelos, exibindo bronzeado em dia, dispôs-se a gravar um vídeo e agravar a própria situação. 

Os alegres acompanhantes a instigavam  “Vai, ministra” – Ministra? Ah, aquela que foi sem nunca ter sido, diria Camões, se vivo fosse.

CRISTIANE — Todo mundo tem direito de pedir qualquer coisa na Justiça. Todo mundo pode pedir qualquer coisa abstrata. O negócio é o seguinte: quem é que tem direito? Ainda mais na Justiça do Trabalho. Eu juro para vocês que não achava que tinha nada para dever a essas duas pessoas que entraram contra mim e vou provar isso em breve.

De fato, qualquer um pode ser acusado injustamente perante a Justiça trabalhista, mas faltou explicar algumas coisas um pouco mais complexas, como o fato de o pagamento ao motorista ter saído diretamente da conta de uma servidora pública, lotada no gabinete da quase-ministra na Câmara dos Deputados.  

Uso de verba de gabinete? A quase-ministra nega, mas também esqueceu de apresentar os recibos de reembolso à servidora. Ora, ora, mas não é que isso fere o tal princípio da moralidade?

Nem papai Jefferson aprovou o vídeo. No Twitter – que desde Trump virou palanque – mordeu e soprou:

JEFFERSON – “Sobre o vídeo, a repercussão fala por si. Também teve muita deturpação. Eram famílias no barco, havia crianças passando. Dito isso, penso que uma figura pública deve se portar como uma figura pública, e usar ferramentas como Facebook e Instagram apenas em caráter institucional”.

Humm, pensando bem, não, né Mr. Jefferson? Se havia “famílias no barco e crianças passando”, isso se tornou irrelevante, pois nenhum deles surgiu na tela.  Cristiane também reclamou que o vídeo estava fora de contexto. Que contexto? Aquele em que famílias invisíveis e crianças idem estão no barco?  

Quanto ao restante, concordo: figura pública deve portar-se com o decoro (palavra em desuso no Brasil, pesquise para saber do que se trata) correspondente ao cargo. Mas esse conselho, papai só deu agora. Uma pena.

Ato 4. Gran Finale

O pano vai cair em breve. A torcida da plateia é que não caia nas suas pobres cabeças – de novo. Contra a sua vontade, os espectadores já foram forçados a pagar o ingresso e são obrigados a assistir a interpretações toscas de atores ruins, embora não amadores. 
Tudo o que se deseja agora é que a indesejada peça acabe o mais rápido possível, antes que se inicie a próxima produção da infindável coleção de tragédias greco-brasileiras."
IlustraçãoVanity, 1890 , pintura de Auguste Toulmouche.

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