quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

OS RISCOS DO YOUTUBE PARA CRIANÇAS E ADOLESCENTES


A ampliação do acesso de crianças e adolescentes a celulares, tablets e outras telas portáteis criou uma nova modalidade de trabalho infantil: os youtubers mirins. Nesta atividade, crianças e adolescentes gravam vídeos periodicamente em seus canais no YouTube e são remunerados por fabricantes de produtos para os quais fazem propagandas ou pela própria rede social, devido a anúncios inseridos ao longo do vídeo. 

A atividade é prejudicial tanto para a criança ou adolescente que mantém o canal quanto para o público infanto-juvenil que assiste. “Nos vídeos de ‘unboxing’ de brinquedos, jogos, roupas e outros produtos, nos quais o youtuber mirim desempacota o item recebido do fabricante e relata porque é tão divertido ter um deles, ocorre claramente trabalho infantil, pois a marca divulga seu produto por meio do depoimento ‘espontâneo’ da celebridade mirim possuidora de canal com milhares de inscritos e curtidas”, explica a especialista em trabalho infantil artístico, Sandra Cavalcante. 

Segundo a pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP), há casos em que o youtuber fornece um código especial de desconto para quem quiser adquirir um item igual no site do fabricante. 

É comum ainda que meninas e meninos sejam remunerados pelo Google, em decorrência da audiência e inserção de anúncios publicitários antes da exibição dos vídeos. “Neste caso, dicas de brincadeiras, ideias de desafios ou a rotina da criança ou adolescente são apresentadas no vídeo, que não contem merchandising, e a monetização é calculada pelo YouTube considerando o número de visualizações da publicidade pelo público daquele canal’, explica Sandra. 
 
Prejuízos 

A advogada do Programa Criança e Consumo do Alana, Livia Cattaruzzi, lista o consumismo e o materialismo, a diminuição de brincadeiras criativas, a obesidade infantil, a erotização precoce, violência e segregação de gênero como algumas consequências da exposição à publicidade infantil. 

Quando se trata desse tipo de conteúdo no YouTube, a criança confunde publicidade com conteúdo espontâneo. Muitas vezes, o expectador estabelece uma relação de proximidade com os influenciadores digitais, como se fossem amigos dela. “Isso é facilmente identificado nos comentários das crianças nos vídeos publicados nesses canais, em que informam até dados de telefone e endereço de suas casas”, alerta Livia.
É trabalho infantil! 

As crianças e adolescentes que trabalham em canais do YouTube costumam gastar bastante tempo nessa tarefa, o que pode diminuir o período dedicado a outras atividades essenciais nessas faixas etárias, como convivência com familiares e outros de sua idade, atenção aos estudos e atividades extracurriculares como esportes e artes, alerta Sandra Cavalcante. 

A superexposição, em alguns casos, com milhares de seguidores e inscritos, pode resultar em casos de assédio, ameaças e bullying. Além disso, a cobrança por perfeição pode ter um efeito devastador na autoestima de uma criança ou adolescente, assim como o fim da fama ou ter que lidar com a perda do anonimato. 

“Em meu estudo com artistas mirins ficou evidente que a inserção precoce no mundo do trabalho pode distorcer toda a formação do indivíduo, porque até o brincar se torna contextualizado, imerso naquele ambiente profissional no qual o artista mirim convive”, adverte Sandra. 

“Um irreal cotidiano glamoroso, divertido e exibicionista é apresentado, com frequência com a aprovação e acompanhamento dos próprios responsáveis legais, que muitas vezes aparecem em alguns desses vídeos e dão suporte técnico às gravações”. Muitas vezes, os adultos próximos ao youtuber mirim conhecem os riscos de tal exposição, que pode ser repleta de stress, cobranças, consumismo e relações humanas superficiais. Fonte:
Fórum Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil.

Nenhum comentário:

Postar um comentário