terça-feira, 7 de novembro de 2017

PARA PROFESSOR DE PSICOLOGIA, "O MAIS DIFÍCIL É SABER O QUE É BULLYING"





 Perosa: " calar e submeter-se é bullying"
A grande dificuldade em casos de bullying é justamente caracterizar o bullying. Porque ele só existe por causa da consequência que é provocada. “A mesma brincadeira com outro colega pode resultar em nada”, explica o professor de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e especialista em adolescência, Miguel Perosa. Segundo o professor, é preciso observar a reação do adolescente. “Se ele (o adolescente) se cala e se submete, aí é bullying.”  

Ao comentar o caso do menino de 14 anos que matou dois colegas semana passada em uma escola em Goiânia, no entanto, ele diz que o bullying não pode ser olhado separadamente. “Se o adolescente não consegue retrucar, ele tem ideias de que precisa se defender e tem a possibilidade de pegar uma arma dentro de casa... são circunstâncias muito específicas. O que se aplica a ele não se aplica a todos.” 

Como pais podem ter certeza de que o filho está sofrendo ou praticando bullying, quando o adolescente não conta?
 
Sempre que me perguntam isso em relação aos pais, e não só a bullying, de ter a dimensão do que está acontecendo, a resposta é você ter a abertura de diálogo com o filho. Porque você não tem outro jeito de saber. A não ser que, de repente, ele comece a ficar muito retraído, diferente do que ele normalmente era, aí despertam a atenção e a preocupação. No geral, é diálogo. Já o agressor pode manifestar arrogância, necessidade de ser superior.  

Mas, às vezes, ele pode não ser agressivo em casa. 
 
Não vamos colocar de imediato uma intenção de bullying nos adolescentes. Pode ser apenas uma brincadeira. 

Mas como as escolas conseguem perceber o que é e o que não é bullying?
 
O bullying é permitido na escola em geral. Mas é difícil também caracterizar o bullying. Porque a gente só caracteriza como bullying dependendo da consequência que é provocada. A mesma brincadeira com outro colega pode resultar em nada. E ele não dar nenhuma bola. Também tem a questão da identidade pessoal, quando qualquer referência externa fica muito importante. Se uma outra pessoa tiver já uma identidade mais assegurada, o mesmo comportamento do colega, que com um era bullying, com outro pode não ser. Então é preciso perceber pela reação do outro, se ele se cala e se submete, aí é bullying. Se ele não consegue rebater, retrucar, ele só se fecha em si mesmo, ai é ruim, não faz bem. 

Essa questão da formação da identidade é mais presente na adolescência, por isso bullying é mais difícil nessa etapa?
 
O bullying é vivido com mais intensidade na adolescência, quando a gente ainda está com a identidade pessoal em formação. O adolescente ainda não tem a clareza de que aquilo que falam de você não representa aquilo que você é e que você não é uma esponja da opinião dos outros. Você é alguém. Mesmo que você não saiba direito quem. Isso pode ser vivido com injustiça, indignação, ou você pode se submeter, ficar quieto e duvidar de si.  

No caso do adolescente de Goiânia, é possível dizer que o fato de ter pais policiais militares influenciou em algo?
 
O que eu acho do que eu li a respeito é que ele vive em um ambiente que visa a autoproteção. Os militares precisam se cuidar porque eles estão sempre em contato com perigo de morte. A ideia de se proteger é alguma coisa muito importante naquela família. Se proteger quando atacado. Mas não acho que seja uma causa única. 

O que diferencia um adolescente que sofre bullying e reage cometendo um crime daquele que não reage assim?
 
São circunstâncias. Se o adolescente não consegue reagir, retrucar, ele tem ideias de que precisa se defender e ele tem a possibilidade de pegar uma arma dentro de casa... São circunstâncias muito específicas. O que se aplica a ele não se aplica a todos adolescentes

A violência em filmes e games influencia casos como esse?
 
Para mim, a cultura da impunidade influencia mais. Nós não vivemos numa cultura de paz. O Estado brasileiro há muito tempo abandonou a periferia das cidades, a educação, a saúde. O interesses são particulares, não há um interesse público. Então, nós não damos exemplos para os nossos filhos. Filmes, games, isso é menor. Porque é de mentirinha. O que ele vive é de verdade.

Como os pais devem falar desse episódio com os filhos?
 
Primeiro, comentar a notícia, o horror que foi. E perguntar como é na escola do filho, se isso existe, e é claro que existe em toda escola. Aproveitar pra ver se tem algum caso na escola do filho e tomar providência para denunciar.  

Discutir conflitos na escolas, desde cedo, ajuda a prevenir casos de bullying? 
 
Muito. É preciso legitimar a possibilidade do bullying, do sofrimento e da superação disso. Por meio do diálogo. O importante é ter o diálogo permanente para que isso seja dito, seja resolvido por meio da palavra. Aristóteles disse que o homem é um animal que fala, é o nosso diferencial. É o que gente tem de mais humano. Fonte: Estadão.

Um comentário:

  1. A propósito do termo "bullying", por que o usamos para identificar práticas de xingamento abusivo e repetitivo entre crianças, adolescentes e adultos? Por que os brasileiros não adotam os vocábulos existentes nos nossos dicionários?

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