quinta-feira, 20 de julho de 2017

EXCLUSIVO - CARLOS XAVIER REFUTA ACUSAÇÕES E DIZ QUE INVESTIU RECURSOS PESSOAIS PARA COMPRAR PRÉDIO DA FAEPA

Xavier: "logicamente, você não consegue agradar a todo mundo"
 
Há mais de vinte anos no comando da Federação da Agricultura do Pará (Faepa), que congrega cerca de 130 sindicatos e entidades de produtores rurais do estado, o pecuarista Carlos Fernandes Xavier enfrenta uma chuva de denúncias que, aparentemente, parecem não abalar sua costumeira tranquilidade.
Entre outras coisas, ele é acusado por opositores de governar a Faepa com mão de ferro, querer eternizar-se no cargo e, o mais grave, não prestar contas do Fundepec - um fundo destinado a incrementar ações em favor do setor pecuário - e também de sua gestão na própria Faepa, além de beneficar empresas de seus familiares com serviços da instituição que comanda.
Em entrevista ao Ver-o-Fato, Xavier respondeu a cada uma das imputações, negando favorecimento a familiares, uso de "laranjas" em suas empresas,  desvio de recursos do Fundepec que atingiriam, por exemplo, cifras superiores a R$ 100 milhões, afirmando que todo ano presta contas de sua gestão. Também diz ter tirado dinheiro do próprio bolso para comprar o prédio onde hoje é a sede da Faepa. E mais: tem o apoio de mais de 120 sindicatos que aprovam sua gestão. Veja a entrevista:

Ver-o-Fato - O sr é produtor rural. Possui propriedades rurais no Pará? Em quais municípios estão localizadas?

Carlos Xavier – Tenho propriedades em Paragominas, as fazendas Santa Alice, Mirabela 1 e Mirabela 2, e a Jacuípe Agropecuária S/A, e tenho uma propriedade, em Santa Bárbara, que ainda não está definida, porque depende da Sudam. Essa propriedade estamos ainda em negociação, não tem documento final. Estou lá ajudando três cooperativas, uma de Santa Bárbara, outra do mel e outra do cacau. Nessa área, perto, existe um assentamento que não tinha energia elétrica. Nós conseguimos, pela Faepa, que fosse levada energia para lá. Isso é parte do meu relacionamento presente em todos os municípios paraenses.

Ver-o-Fato - Em Santa Bárbara existe uma fábrica, a Amazônia Cacau. O sr. é dono dessa fábrica?

CX – Não, não sou dono, não faço parte do contrato social. Aquilo é de meu genro, Alexandre Távora. Ele tem recursos para isso. Aquela fábrica foi fruto de um financiamento junto ao banco do produtor do Estado. Esse financiamento é grande e eu fiz umas interferências para sair o recurso, na ordem de R$ 3 milhões, R$ 3,2 milhões, por aí.

Ver-o-Fato - O sr. participou da negociação da compra dessa empresa?

CX – Olhe bem, minha família é eu, minha esposa, minha filha, esse genro e meu filho com outra nora. Então, estamos sempre juntos. Então, estou à inteira disposição para fazer isso.

Ver-o-Fato - Então, é por isto que em Santa Bárbara dizem, inclusive os empregados, que a fábrica é sua?
CX – Não tenho participação nenhuma. Esse meu genro tinha uma indústria de café ali em Marituba, onde você entra pela Alça Viária. Como aquela área começou a ficar uma zona vermelha e ele começou a ser assaltado lá, eu o orientei que fechasse a indústria e arrumasse outra área. Ele encontrou essa área em Santa Bárbara e fez negócio, isso já deve ter uns cinco anos ou talvez um pouco mais. Era para levar o café para lá. Já está tudo montado, é dele. Nesse sentimento de verticalizar a produção, já que 90% do cacau vai todo para fora do Pará, foi que surgiu a ideia, do financiamento do banco. O Sidney Rosa, que era o secretário na época, disse “Xavier, por que você não faz isso, e tal”, me estimulou e eu chamei o meu genro e ajudei para tirar esse recurso para ele.

Ver-o-Fato - Qual a sua relação com o sr. De Mendes na construção dessa fábrica de chocolate em Santa Bárbara?

CX – É uma relação muito antiga com o De Mendes. Mandei Mendes fazer a escola de gastronomia em Gramado. Ele foi patrocinado pelo Funcacau e pela Faepa. Essa industriazinha que ele tem, pequena, é dessa indústria que nós copiamos para fazer as 250 indústrias para todo o estado do Pará. Do lado oeste, que pega a Transamazônica, até o nome da Amazônia Cacau, que era dele, ele depois cedeu para o Alexandre.

Ver-o-Fato - O sr. é o orientador comercial do seu genro, por isso que o sr. aparece como dono, lá na fábrica. O sr. participou diretamente com o De Mendes para a compra do nome Amazônia Cacau?

CX – O Mendes sempre anda comigo e lógico que se eu puder fazer alguma coisa pelos amigos eu faço, imagine para parente meu. Não vejo nada de errado no que eu fiz.

Ver-o-Fato - O sr. tem alguma dívida com o De Mendes não paga, não resgatada?

CX – Com o Mendes? Não, não tenho.

Ver-o-Fato - Ele (De Mendes) disse para nós em entrevista que negociou a parte dele por R$ 500 mil, mas o sr. não pagou nem R$ 100 mil e deve mais de R$ 400 mil.

CX – Não existe isso, não existe isso.

Ver-o-Fato - Inicialmente, segundo disse o De Mendes, foi proposto que ele fosse um membro da sociedade empresarial, que ele tivesse uma cota, mas isso não deu certo e ele acabou não entrando na sociedade. Aí, disse ele, “arranjaram” outra pessoa, que foi o Antônio Carlos Figueiredo.

CX – O Antonio Carlos é meu cunhado. Ele aparece na sociedade como aparece na minha fazenda em Paragominas. É um projeto S/A, e ele está lá, no controle. É meu cunhado, eu que crio o Antônio Carlos, tenho o maior carinho por ele. Você sabe, ele é negro, e nossa sociedade tem restrição.

Ver-o-Fato - A questão racial não tem nada a ver nisso.

CX – Eu digo do carinho que tenho por ele em função disso.

Ver-o-Fato - Ele não quis falar conosco e disse que tudo era do sr.

CX – Na realidade, se você conhecer o Antônio Carlos, o jeito dele, calado. Se você chegar e fizer esse tipo de pergunta, quem vai querer responder? Eu estou respondendo a você pela amizade de muitos anos. Se não fosse por você e quisesse fazer investigação, faça a investigação que quiser. Sobre o De Mendes, ele é meu amigo, meu companheiro, não devo nada a ele, não existe essa conversa.

Ver-o-Fato - A Faepa aluga salas para algumas empresas?

CX – A Federação da Agricultura, o maior prédio do Brasil, é o do Pará. Isso aqui quem comprou fui eu, hipotequei meu patrimônio para comprar isso fiado, em 60 meses, mas paguei tudo adiantado. Isso aqui tem escritura, em nome da Federação. Aí, nós começamos a alugar salas para ter renda. Mas hoje, o que tem aqui é escritório de projetos florestais, que é do João Vicente, que é antigo e ele não quis sair ainda, mas os que estão saindo nós estamos utilizando todo o prédio. Eu tenho dois grandes inquilinos aqui: um é o Senar e o outro, o Fundepec. Dessas três entidades, a única que não tem dinheiro é a Faepa. Desses aluguéis, o Senar paga mais de R$ 20 mil por mês, enquanto o Fundepec, R$ 15 mil ou R$ 17 mil. Eu só estou dizendo isso porque nem São Paulo tem um prédio desses, são 11 andares.

Ver-o-Fato - Aliás, a Faesp, de São Paulo, tem sérios problemas, com as mesmas acusações daqui. O presidente, Fábio Meireles, é acusado de ter 40 anos no cargo, praticar nepotismo e desviar mais de R$ 200 milhões.

CX – Aquilo é inimizade e a gente tem inimigos em tudo que é canto. Então, é o seguinte, eu estou hoje numa situação na CNA (Confederação Nacional da Agricultura) extremamente difícil, porque eu sou o segundo mais antigo. Eu era o terceiro, aí o Euripedes Ferreira, do Amazonas, morreu e eu passei a ser o segundo. Então, o primeiro é Fábio (Meireles) e eu, o segundo.

Ver-o-Fato - O senhor aluga salas aqui na Faepa. O sr. aluga para as empresas do seu filho, também?

CX - Alugo, sim. Desde o início, aqui, ele tem no segundo andar uma sala.

Ver-o-Fato - São cinco empresas dele que funcionam na Faepa?

CX – Ah, não sei, porque ele não tem só aqui, ele tem fora, tem em outros estados, tem no Amazonas, no Maranhão. Ele faz parte de uma operadora de turismo, a Fraitur, uma das maiores operadoras do Brasil.

Ver-o-Fato - As empresas dele prestam serviços para a Faepa?

CX – Não, nenhuma delas. Eu compro passagens pela Fraitur, porque a Fraitur tem um mecanismo de comércio, todo mês apresenta os menores valores de passagens e mostra quanto nós economizamos. Em função disso, eu procuro comprar onde me vendem pelo melhor preço. Agora, quem compra lá é Fundepec, e a Faepa. O Senar não compra lá. Como o recurso do Senar é privado, mas ele passa pela Previdência Social eu tenho que prestar contas ao Tribunal de Contas da União. Fico sujeito ao processo licitatório, mas no Fundepec e na Federação não tenho necessidade disso.

Ver-o-Fato - O maquinário da fábrica de cacau de Santa Bárbara já estava comprado antes do financiamento bancário. Isso não seria lavagem de dinheiro?

CX - Ah, ah, ah, aqueles equipamentos são equipamentos que não têm para pronta entrega, você tem que encomendar. Então, a encomenda demorou mais de 6 meses para poder preparar. Isso aí é normal.

Ver-o-Fato - Há uma denúncia de que o sr. não prestou contas dos anos de 2014, 2015 e 2016 do Fundepec e também dos últimos 20 anos. O que tem a dizer? Fala-se também que supostas prestações dessas contas não passariam de armações, maquiagens, sem apresentar documentos, notas fiscais, etc.

CX – Todo ano as contas são prestadas. A contabilidade da Federação quem faz é um contador, do Senar é outro e do Fundepec, outro. Quando surgiu a denúncia, o que é que eu fiz? Eu contratei um instituto (IAGE) para examinar as contas que o contador do Fundepec apresentar. Eu contratei esse instituto porque esse pessoal tem experiência com o Tribunal de Contas da União. Depois que eu trouxe esse pessoal, não vou mandar contabilidade minha para eles lá onde funcionam. Então, eles têm um escritório aqui dentro (Faepa).

Ver-o-Fato - O IAGE é da sra. Helena Taddei, que segundo o ex-presidente do Fundepec, Luciano Guedes, é sua funcionária aqui na Faepa.

CX – O Luciano é um rapaz de curso superior, um veterinário, e começa a falar tanta idiotice. Se ele está querendo ser presidente da Federação é só sair candidato e vir para a disputa. No dia 23 de março, quando começou a aparecer essas coisas aí, eu fiz uma correspondência para os companheiros, dizendo que o término da atual gestão está previsto para abril de 2019, portanto, daqui há mais de 2 anos. Sempre fiz isso, detalhando todo o processo eleitoral. Me admira o Luciano, que está querendo ser presidente, deve saber que a última eleição que houve aqui teve 132 sindicatos, seis desses sindicatos não tinham formalizado a comissão provisória, então ficaram 126 sindicatos, tinha oito com diretoria vencida, sem condições de votar. Vieram votar 112 sindicatos do Pará inteiro. Eu tive 110 votos na minha chapa, um voto em branco e outro nulo. O nulo foi a delegada do sindicato de São Geraldo do Araguaia, que queria falar comigo na hora da eleição e eu estava em reunião com dois ministros, ela foi e anulou o voto. Então, nessa eleição houve a maior representação política que eu tive nesses 20 e tantos anos.

Ver-o-Fato - Voltando à pergunta: o sr. não vê nenhuma incompatibilidade ética e moral ter a sra. Helena atuando dentro da Faepa e ao mesmo tempo assumindo a auditagem das contas da entidade?

CX – Não, não vejo isso. Inclusive no dia 6 (junho, passado) eu apresentei as contas porque na semana que antecedeu o dia 6 eu recebi o parecer da auditoria externa do Senar nacional, para onde mandamos minhas contas, sem nenhuma restrição. Estou dizendo isso porque depois que eu trouxe esse instituto (IAGE) para cá para fazer isso, nunca mais eu tive nenhum problema com as minhas contas junto ao Tribunal de Contas da União. Então, tenho de trabalhar com quem me dá essa garantia.

Ver-o-Fato - O sr. Luciano Guedes alega, com documentos apresentados, que solicitou por diversas vezes a apresentação dessas contas aos produtores rurais, mas o sr. as negou. Qual o motivo?

CX – Eu lamento que o Luciano, que é vice-presidente desta casa, que deveria estar aqui no dia 6 de junho (data do encontro ruralista) para atender a convocação feita a todos os sindicatos, não tenha se feito presente, para questionar. Ele diz que está falando em nome de produtor, mas não sei se ele tem competência para falar em nome dos produtores. Quem tem essa competência é a Federação da Agricultura ou o sindicato no seu município. Existe uma hierarquia. No município, quem fala e representa o produtor é o sindicato. No estado, é a Federação, e na união é a Confederação. Quem paga as contas do Fundepec é o produtor. Mandei chamar, convidei, mas ele não veio. O mandato dele expira em abril de 2019. Venha para cá.

Ver-o-Fato - Outra acusação é de que o sr. gerencia a Faepa como se fosse um feudo, usando a entidade para favorecer sua família.

CX – Eu tenho que achar graça do Luciano, porque, felizmente, minha família está toda bem encaminhada. Hoje, em casa, é só eu e minha esposa. Eu tenho 13 mil hectares em Paragominas, tenho minha agropecuária, meu genro é quem toma conta, eu já não viajo. Sou um homem de hábitos simples. Você não me vê com roupa nem sapato de marca. Não tenho ostentação. A única ostentação, a alegria que tenho, é ser associado da Assembleia Paraense, um dos melhores clubes sociais do Brasil.

Ver-o-Fato - A Faepa apóia candidatos políticos, inclusive com recursos financeiros?

CX – Apóia, inclusive com a orientação da CNA ( Confederação Nacional da Agricultura ). A CNA constitui um fundo para isso. Nessas últimas eleições aqui nós tivemos candidatos, como o Giovanni Queiroz, o Hildegardo Nunes, o Wandenkolk, o Flexa Ribeiro, que para o Senado a CNA determinou valores para que fizéssemos isso. Nesse tipo de lobby nós apoiamos aqueles que têm compromisso com o setor. Todo mundo faz isso e a gente não fica fora, não.

Ver-o-Fato - A Faepa se paga? Qual o valor desse patrimônio?

CX – Da Faepa, Senar e Fundepec, a Faepa é a que tem a menor receita. Eu te diria que a receita da Faepa não chega a R$ 2 milhões por ano, algo em torno de cento e tantos mil reais por mês, considerando o aluguel que nós recebemos do Fundepec e do Senar.

Ver-o-Fato - O sr. considera que hoje existe uma divisão na Faepa?

CX – Logicamente, você não consegue agradar a todo mundo, mas nessa última eleição, por exemplo, foi quando obtive a maior representação. Dos 132 sindicatos é possível que haja algum que não goste. Eu lhe garanto que aqui temos feito um trabalho diuturno em defesa do produtor. Eu – e nesse ponto não abro mão – como presidente cumpro meu papel e lógico que tenho uma representação maior dentro dos sindicatos.

Ver-o-Fato - A criação da Acripará não seria um sintoma dessa divisão?

CX – A Acripará quem ajudou a criar fui eu, assim como criei a Adepalma, e mais de 100 sindicatos. A Acripará ajudei a fazer os estatutos e dei algumas orientações que não estão sendo seguidas. Pecuária, por exemplo, você tem nos 144 municípios e eu disse a eles que não fizessem uma associação para ficar só numa região do Estado, como Marabá, porque senão não terá representatividade. Isso está sendo desvirtuado. A Acripará é uma associação civil e representa apenas quem é associado dela. Diferente da Federação, que representa a a categoria econômica.

Ver-o-Fato - O sr. considera o governador Simão Jatene um inimigo do agronegócio?
CX – Ao contrário, o Estado do Pará tem um dos mais belos projetos, que é o Instituto Alerta Pará, que fez um projeto, em 2008, e nesse instituto existe um conselho de ex-governadores. Nessa época, Simão Jatene era ex-governador e foi mais quem nos ajudou a fazer esse projeto. É um homem preparado, inteligentíssimo, meu amigo particular, gosto demais dele.

Ver-o-Fato - Para encerrar: o sr. quebraria o seu sigilo bancário e fiscal, das suas empresas e de seus familiares?

CX – Na hora em que me solicitarem, não haverá problema nenhum.

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