domingo, 2 de julho de 2017

13 ANOS DE IMPUNIDADE: A RESPOSTA QUE A JUSTIÇA DO PARÁ DEU PARA A MORTE DE ADILSON PRESTES

Prestes denunciava crimes ambientais e grilagem no Pará: pagou com a vida por sua coragem
Ao centro, Prestes, com amigos do Exército, em Santarém



A Justiça do Pará tem uma imensa dívida até hoje não paga com a família do pequeno produtor rural e ambientalista Adilson Prestes, morto a tiros por dois pistoleiros na porta da casa dele na cidade de Novo Progresso, no oeste do Pará, no dia 3 de julho de 2004. 


Nesta segunda feira, 3, completam-se exatos 13 anos de impunidade sobre o assassinato de Prestes, que era conhecido por "Piá". O crime caiu no esquecimento das autoridades judiciárias e parece que falar nele é reabrir velhas feridas que alguns poderosos deste estado preferem manter fechadas. 


Havia madeireiros, políticos e até policiais militares interessados em matar Adilson Prestes, que chegou a ser considerado em matéria da Rede Globo como o "Chico Mendes do Pará", por sua luta contra a extração ilegal de mogno em áreas indígenas e da União, além da grilagem de terras comandada por grupos de Mato Grosso e do Pará com negócios e fazendas na região entre Itaituba e Novo Progresso.


Em uma entrevista à TV Globo gravada em Belém, em 2003, ele denunciou a ação do grupo e disse que estava sendo ameaçado: “A gente vem denunciando esses trabalhos escusos e temos sofrido várias ameaças”. Prestes chegou a desenhar um mapa indicando os locais da exploração de mogno e apontou a existência de um cemitério clandestino. Na época, ele revelou também que sua mulher havia desaparecido em circunstâncias misteriosas.


Segundo reportagem exibida pelo Jornal Nacional, da TV Globo, no sábado em que ele morreu, o promotor que investigou o caso, Mauro Mendes de Almeida, afirmou ter havido omissão policial. De acordo com a reportagem, a Polícia Civil do Pará teria aberto inquérito para apurar as denúncias do pecuarista, mas o delegado encerrou as investigações sem indiciar ninguém.

O relatório Observatório da Cidadania, do Faor (Fórum da Amazônia Oriental), afirma que, em junho de 2002, Adilson Prestes ficou 39 dias preso e foi torturado pela polícia do Pará. As informações constam do capítulo "Impunidade, Uma Realidade Permanente", da publicação.

Crime organizado

Quando veio a Belém denunciar as ameaças que sofria, Prestes esteve em minha casa e almoçou comigo, entregando documentos com nomes e riqueza de detalhes sobre a atuação do crime organizado no oeste paraense. Ligado à Comissão Pastoral da Terra (CPT) de Santarém, ele usava no peito, por onde andava, um crucifixo com a imagem de Cristo. 

"Está sendo extraído mogno, louro frejó e cedrosa no município de Altamira, Castelo de Sonhos e também em Novo Progresso, na área indígena dos Kaiapós", disse Adilson Prestes, numa entrevista a mim concedida para o jornal "O Liberal", onde eu na ocasião atuava como repórter especial. A morte dele foi notícia na grande mídia nacional e em jornais estrangeiros, assim como no jornal "O Estado de São Paulo", do qual ainda continuo  como correspondente nesta terra. 

A polícia investigou parte das denúncias. "São pessoas que saem do Mato Grosso para explorar o mogno e passam a vender a terra para outras pessoas. E uma terra, por exemplo, é vendida duas, três vezes, e começa a haver conflito porque ninguém sabe quem é o posseiro mais antigo", explicou Roberto Teixeira, delegado. 

A irmã, Ivanilde Prestes, logo após o crime, contou por telefone que foi intimidada até mesmo durante o velório: "Estava sendo velado no pavilhão, tivemos que trazer o corpo dele para casa, porque nós estávamos sendo rondados. Eu pedi proteção para a capitã Raquel e ela disse que não tinha homens para deixar nenhum sequer para deixar lá no velório para proteger a família. A família toda está sendo ameaçada. Aqui tem um grupo de extermínio, quem abrir a boca morre."

Treze anos depois, dona Ivanilde, em conversa comigo, desabafa: " eu nunca mais tive minha liberdade de ir e vir, vivo sempre com medo". O único filho de Prestes, o garoto Natanael, hoje com 13 anos, sempre faz perguntas à Ivanilde sobre o pai: "digo sempre que ele deve ter muito orgulho do pai que não conheceu, porque o "Piá" era um homem como poucos", relatou Ivanilde ao Ver-o-Fato.  

Ela se emociona ao lembrar da luta do irmão e diz que a Justiça do Pará deveria ter se empenhado para condenar e colocar na cadeia os matadores. "Eu entrego nas mãos de Deus", porque a Justiça dos homens fracassou e não puniu esse crime", resume. 

Segundo relato ao jornal "O Estado de São Paulo", Prestes morreu às dez horas da manhã, na rua, com quatro tiros. "Eu estava indo me encontrar com ele para mostrar o exame que confirmava a gravidez", diz Jaqueline, a mãe de Natanael. 

O azar da pistolagem, e dos mandantes, é que Piá, semanas antes, sentindo-se ameaçado, entregou ao Ministério Público Estadual e à Polícia Federal 5 páginas com informações sobre "a máfia que atua na fronteira do Pará com Mato Grosso", ao longo da BR-163, a tormentosa Cuiabá-Santarém.

Carta à ONU

É nome que não acaba mais: pecuaristas, madeireiros, políticos, advogados e policiais de Novo Progresso, Moraes de Almeida e Castelo dos Sonhos. Ivanilde não se cansa de divulgar o dossiê do irmão, cobrando a solução do caso, o que tem lhe rendido, e à família, constantes ameaças de morte. Em dezembro, ela mandou carta à ONU. Pediu ajuda para esclarecer o crime e registrou as ameaças: "É assustador, porque nós não sabemos o que pode acontecer conosco ou com nossos filhos a qualquer momento."

Paranaenses, os Prestes fizeram a vida em Terra Nova (MT), onde moraram por dez anos. Piá foi garimpeiro e formou fazenda de gado ocupando terra e se envolvendo em conflitos com pecuaristas e com a polícia. Em Novo Progresso e região, misturava a simpatia do catequista católico com a batalha do vale-tudo pela conquista da terra. 

Foi preso três vezes por porte ilegal de arma, uma delas por 96 dias, quando acusou policiais de tê-lo torturado. Conhecia a barra pesada - e daí, talvez, a importância de suas informações sobre "a máfia da fronteira Pará-Mato Grosso". Quando o mataram, aos 33 anos, era posseiro, com alguns sócios familiares, de 1.200 alqueires, e tinha, segundo a irmã, 100 novilhas. 

O crime que abalou o país vai continuar impune? A Justiça diz que sim.

Pobre Justiça.

 

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