VER-O-FATO: NO INTERIOR É ASSIM

quarta-feira, 3 de maio de 2017

NO INTERIOR É ASSIM


Euclides Farias - jornalista

Na Amazônia, prefeitos do interior sempre despertam desconfiança no caboclo. Pode ser até o mais bem-intencionado dos prefeitos, mas o caboclo tem sempre um pé atrás. Pouco vai a inaugurações e quando vai já vai pensando que na construção da obra o prefeito meteu o pé pelas mãos. 

A comício, então, vai com pouco ou nenhum apetite cívico: “Vamos lá ver qual a mentira desse um”, costuma dizer. Não se fia nem quando o candidato é parente. “Esse aí eu conheço de outros carimbós”.

A desconfiança vem de longa data, numa região secularmente esquecida, mas que já teve épocas áureas, como a da borracha, que legou a cidades como Belém e Manaus arquitetura e monumentos de primeiro mundo, com formas e ares parisienses e italianos enfeitando os rios. Mas no interior brabo, onde se extraía o látex, pouco ficou, a não ser a sensação do caboclo de que foi passado pra trás.

Municípios paupérrimos, vilas e lugarejos só enxergam políticos graúdos de quatro em quatro anos. Mesmo o prefeito local pouco está por ali. Tem casa na capital ou numa cidade maiorzinha que a dele e justifica a ausência dizendo que está buscando verba pro município. O caboclo, claro, não acredita.

A desconfiança é histórica. Não começou aí, mas, por obra da revolução getulista de 30, ao Pará foi nomeado interventor o general Magalhães Barata, considerado por seguidores o maior líder político que o estado já conheceu. Senador em 46, voltaria a governar em 55. Populista como o chefe, Barata entrou para a história por páginas de amor e ódio. Entrou também na desconfiança do caboclo, em estórias que se multiplicam e não acabam mais.

Numa delas, conta-se que, querendo que a agricultura contagiasse a vida nacional e ribeirinha, foi a uma vila de pescadores e levou ao palanque carradas de botas e enxadas para, naquele lugar ermo, em meio a tarrafas e linhas de mão, conquistar novos lavradores.

Para espanto dos amigos, um caboclo subiu ao palanque e de lá desceu com cara de contentamento, botas e enxada, não sem antes ser louvado em discurso de Barata como exemplo à Amazônia e ao Brasil. Barata não ouviu a conversa matreira que o caboclo travou com o compadre, ao voltar a seu lugar na platéia:

- Então, compadre, vai virar agricultor, é?

- Que nada, cumpadi. Vou tirar é muita minhoca.

Depois que inventaram a reeleição de prefeitos, o caboclo pôde exercitar melhor o que mais sabe e gosta de fazer em época de campanha: desconfiar de candidato. Pode até votar nele, mas confiar nunca.

Maior ilha fluvial do planeta, com seus 42 mil quilômetros quadrados que se estendem pela foz do rio Amazonas, o Marajó tem 16 municípios com populações muito pobres, mas ricas em desconfiança política.

Do outro lado da ilha, na contracosta, para quem olha de Belém, Afuá é um desses municípios. Fica de frente, embora muito distante de Macapá, no Amapá, com o colossal Amazonas separando.

Afuá não tem ruas, mas somente pontes de madeira, umas maiores, outras menores. Pois foi lá que um prefeito em campanha à reeleição reuniu os moradores em comício e começou a fazer bravata com seus feitos.

- Vocês, mais do que ninguém, sabem. Aquela ponte ligando a segunda ponta com a quinta ponte fui eu que fiz!

Os caboclos aplaudiram. Era verdade.

- E aquela outra ponte ligando a primeira ponte com a sexta ponte, obra de grande porte, também fui eu que fiz!

Os caboclos aplaudiram de novo.

Aí, coitado, o prefeito pegou corda, transformando a largura do oceânico rio num igarapé que pudesse ser vencido com simples ponte de madeira:

- Pois se vocês me reelegerem e Deus me ajudar, eu faço é uma ponte ligando Afuá a Macapá!

Um caboclo gritou lá do meio do povo:

- Assoalha toda esta merda logo!

Não houve mais comício, não teve reeleição.

Um comentário:

  1. Haha boa história, pior do que qualquer desastre natural é o político, poder de destruição sem igual,se o Brasil quisesse derrotar qualquer outro país em uma guerra bastava enviar alguns políticos, nem precisaria de bomba atômica.

    Sds

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