quinta-feira, 27 de abril de 2017

FAMÍLIAS DE BARCARENA DENUNCIAM EMPRESA HYDRO À EMBAIXADA DA NORUEGA

Da esquerda para direita, Everton Fernandes, do gabinete do senador Vicentinho Alves, o líder comunitário José Araújo, a embaixadora Aud Marit Wiig, o advogado Walmir Santos, e Priscilla Santos, oficial da embaixada.


Na sequência da série de matérias sobre o assunto - envolvendo seis comunidades de Barcarena que perderam as terras onde residiam, vendidas pelo Estado para a Vale, que depois as repassou à multinacional norueguesa Norsk Hydro -, o caso foi parar onde menos a Hydro imaginava: na embaixada da Noruega, em Brasília, onde representantes das famílias denunciaram a gigante do alumínio, cobrando providências. 


Além de farta documentação entregue, os representantes das comunidades, acompanhados do advogado Walmir Santos, participaram de uma audiência com a embaixadora Aud Marit Wiig, daquele país no Brasil. Ela confessou estar surpresa com as revelações sobre a atuação da Hydro em Barcarena, mas de prático não tomou nenhuma providência, prometendo apenas "dar um conselho" à empresa. 

Na entrevista a seguir, José Araújo, um dos líderes das comunidades, falar sobre a reunião na embaixada da Noruega, prometendo que a luta por justiça dos prejudicados pela Hydro irá até à Organização das Nações (ONU), onde a Noruega será denunciada por violação de direitos humanos e do meio ambiente das comunidades prejudicadas.

Ver-o-Fato - O governo da Noruega detém mais de um terço do capital da Hydro, sendo acionista majoritário, com 34,3% das ações da empresa. Ao ir à embaixada daquele país no Brasil, vocês pretendiam o quê? 

José Araújo - De fato, o governo da Noruega tem muito capital investido dentro da Hydro. De acordo com o código norueguês de prática de governança, ele é acionista majoritário da empresa. Protocolamos na embaixada, no dia 7 de fevereiro passado um documento que trata de todo o nosso problema. Mandamos para a embaixadora uma cópia dos 6 volumes dos processos que aguardam decisão na justiça da Vara Agrária de Castanhal. Levamos também o caso ao conhecimento do Congresso Nacional, através de um senador da República e de um deputado federal, para tratarmos do assunto a nível federal; se possível, com pedido de audiência especial naquelas casas ou comissões. A embaixadora Aud Marit Wiig nos recebeu no último dia 10 de abril.

Ver-o-Fato - E o que de prático foi feito pela embaixada quando vocês expuseram o drama das famílias retiradas das terras sem receber as indenizações a quem têm direito? 



José Araújo - Após 2 horas de reunião, a embaixadora disse que “daria um conselho a Hydro a cerca desse assunto”. Uma declaração totalmente vaga. Ela não explicou que tipo de "conselho" seria esse e nem que tipo de providência isso iria implicar na solução dos problemas das famílias. Dissemos a ela que levaremos os assuntos adiante, às maiores cortes internacionais.  Ela deixou claro que a embaixada não possui um papel formal no processo de litígio entre o grupo de famílias do Pará e a empresa Hydro. Nesse sentido, disse não possuir mandato para negociar em nome da empresa ou para exercer um papel mediador. Mas, diante do que foi a ela relatado, prometeu que iria informar a empresa sobre os contatos estabelecidos entre nós, bem como do conteúdo da reunião que tivemos. 

Ver-o-Fato - Aonde, por exemplo, vocês pretendem ir nas cortes internacionais? O que vocês pretendem fazer, já que o governo da Noruega diz preocupar-se com as questões que envolvem direitos humanos, meio ambiente e problemas dos países onde suas empresas atuam?


José Araújo - Na ONU, principalmente. Por meio de sua primeira ministra, Erna Solberg, a Noruega ocupa um papel importante na ONU. Ao lado do presidente de Gana, na África, encabeçam o comitê de desenvolvimento sustentável, que são 17 personalidades de diversos países, que lutam contra a injustiça social. Nesse particular, a Noruega, numa total incoerência, se envolve em lutas sociais para acabar com a injustiça pelo mundo, mais apóia e se associa ao que foi cometido pela Vale em toda essa questão contra os povos tradicionais nessa parte Norte do Brasil, agindo como se nada tivesse com o assunto, em total desrespeito com o povo brasileiro. Vem, e se associa a maior predadora das riquezas do Pará em detrimento do homem e do meio ambiente aqui no Brasil. Isso depõe, inclusive, contra tudo que diz defender a Noruega na ONU. Dizer, como disse a embaixadora, que não tem ingerência direta na empresa Hydro, mas lucra e se beneficia com seus negócios aqui com 34,3% das ações dessa empresa. Não aceitamos essa desculpa. Vamos denunciar o governo norueguês à ONU. Em seu site é dito que a marca Noruega impõe respeito, só que até agora ele não chegou aos moradores dessa parte norte do Brasil.

Ver-o-Fato - A Hydro ou o governo norueguês têm algum conhecimento de tudo que aconteceu com vocês pra que eles pudessem adquirir essa área da Vale? 


José Araújo - Sim. Tanto a empresa Hydro quanto o governo norueguês através da embaixadora Aud Marit Wiig, pelo documento que encaminhamos e pela audiência do dia 10. Inclusive lemos para ela o que consta no site da Hydro, a cerca de todo o histórico processo de negociação do terreno, e que a área era ocupada por povos tradicionais, a saber: Santa Rosa, trevo do Peteca, São Sebastião, Tauá. Que o plano de desocupação da área estava sob responsabilidade da CDI/Iterpa, sendo o Iterpa o responsável pelo levantamento do diagnóstico do perfil das famílias e de emissão de laudos. Um ponto importante se destaca: o valor da indenização a ser paga a cada família afetada deve ser composto, de duas parcelas – uma relativa à somatória do laudo de avaliação, e a outra referente a uma compensação social pelas perdas não mensuráveis, a fim de que isso contribua para a restauração da qualidade de vida dessas famílias em outro lugar onde se instalem. Isso nunca ocorreu. Mas a Vale passou essa mentira quando venderam a área para Hydro, como se a Vale tivesse obedecido todas as condicionantes.


Ver- o Fato - A Hydro obedece esse código norueguês de pratica de governança?


José Araújo - The Hydro way, ou seja, o jeito Hydro. A maneira como a Hydro opera, é dito em seu site, que é baseada em princípios e valores, como coragem, respeito, cooperação, determinação, e visão. Que tem como missão, criar uma sociedade mais viável, mais justa. A Hydro ainda declara em seu site: tivemos coragem para assegurar o nosso futuro, o futuro da Hydro e de todos os acionistas. (mesmo que isso tenha custado o preço da injustiça cometida à parte do povo brasileiro). Quanto à cadeia produtiva do alumínio, o futuro da Hydro e de seus acionistas está assegurado. Ainda sobre o jeito Hydro, eles falam sobre respeito. E dizem: “agimos com integridade e reconhecemos o valor de cada indivíduo, da terra e dos recursos que ela nos oferece”. Respeito pelos seres humanos e pela terra. Exemplos de como nossos valores norteiam nosso desempenho. Mas agem diferente do que falam.


Ver-o-Fato - E a Hydro, após comprar essa área, por preço bilionário, se apresentou de que maneira no processo judicial? Continuou agindo como a Vale? 


José Araújo - Sim, talvez, até pior. Parece que entre o que a Hydro diz e o que ela faz tem um abismo. Veja, em seu site, a Hydro, diz: a sociedade é importante, e o indivíduo tem valor. Usamos a expressão "práticas empresariais socialmente conscientes". "Isso significa que fazemos negócios, mas não sem o respeito pela comunidade onde estamos inseridos. Pelo contrário, acreditamos que um diálogo bom e aberto é necessário para que possamos nos dar bem com nossa vizinhança – e para que ela se possa dar bem conosco". Ou seja, a Hydro age com total incongruência!

Ver-o-Fato - A Noruega tem um discurso articulado e politicamente correto lá na ONU, mas parece que no Brasil sua prática é o oposto do que prega. 


José Araújo - Realmente, na ONU ela é promotora de 17 objetivos de desenvolvimento sustentável. A Noruega tem um papel importante de apoiar o secretário-geral da ONU ao lado de outros líderes e personalidades mundiais nos seus esforços, e empenho, pra alcançar os 17 pontos, e definem uma meta ambiciosa para o desenvolvimento global nos próximos 15 anos, até 2030. Visam acabar com a pobreza, a fome, combater as desigualdades e enfrentar as alterações climáticas, não deixando ninguém para trás. Conforme afirmou o secretário-geral das nações unidas. “é uma lista das coisas a fazer pelos povos e pelo planeta e um plano para o sucesso”. Outra meta importante para a Noruega é garantir que a proteção e promoção dos direitos humanos tenham prioridade em todas as atividades das nações unidas, e promover o desenvolvimento de uma ONU mais moderna para possibilitar resultados concretos. 

Ver-o-Fato - Qual a atitude que você espera da Hydro e em especial do governo norueguês nesse assunto?

José Araújo - Em primeiro lugar, Carlos, quero agradecer, pelo espaço que você abriu aqui no seu blog, pra trazermos esse assunto de interesse não só dos povos tradicionais vítimas em Barcarena, que foram afetados com esse estelionato perpetrado pelo governo do Pará, que se prestou através Iterpa e da CDI para enganarem os moradores tradicionais das comunidades do Tauá, Japiim, São Sebastião e Santa Rosa, no município de Barcarena. Eles agiram juntamente com a justiça injusta na pessoa do juiz Sérgio Ricardo Lima da Costa, o que nos dá extrema vergonha. Sinceramente, espero que tanto a empresa Hydro quanto principalmente, o governo da Noruega, que dizem ser um parceiro responsável que contempla a sustentabilidade, o meio ambiente e os direitos humanos em suas atividades e negócios no Brasil e no mundo, não compactue com tais atos praticados pela Vale para se apossar das terras para ampliar seus negócios. E nos pague os danos sofridos moralmente e financeiramente. Eles dizem que a marca Noruega deve inspirar respeito, e as empresas norueguesas no Brasil devem estar associadas à qualidade, competência, consciência ambiental e responsabilidade social. Então, devem deixar de teoria e discurso vazio e praticarem o que dizem.


Ver-o-Fato - Vocês não estão pedindo nenhum favor, apenas que seus direitos sejam respeitados. 

José Araújo - É verdade, Carlos. Não temos compromissos com a Noruega, temos compromissos com nossa gente, gente que foi expulsa de sua terra, vilipendiada em seus mais tenros direitos, que pensou que um decreto governamental e seu governo, fosse o suficiente para assegurar seus direitos, embora, saibamos que corruptos não têm palavra. Principalmente no Brasil, que tem como modo de prática de governança e em seu cerne e DNA a corrupção. No entanto, esse modelo de gestão em nosso país contrasta com o caráter do povo brasileiro, que batalha e busca dia-a-dia seu sustento e justiça. Disse a embaixadora da Noruega: acredito em um ser supremo – Deus. Ele não dorme nem cochila, e fará justiça nesse negócio. 

Um comentário:

  1. A MINERADORA AMERICANA ALCOA ESTÁ CONLUNHADA COM SERVIDORES PUBLICOS DO INCRA DE SANTARÉM...

    https://www.youtube.com/watch?v=le-gHeznlqg

    http://www.jesocarneiro.com.br/cidade/juruti/emprestimo-de-600-mil-reais-associados-cobram-prestacao-de-contas-da-acorjuve.html

    https://portaljuruti-velho.blogspot.com.br/2017/04/pergunta-que-nao-quer-calar.html?showComment=1493470457933#c4429401148089454383

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