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Linha de Tiro - 19/04/2018

terça-feira, 21 de março de 2017

REFLEXÕES SOBRE O ESCÂNDALO DA CARNE PODRE ( 2): E O PARÁ, COMO É QUE FICA?


O Pará tem um dos maiores rebanhos de gado do país: e agora?

Paulo Sílber - jornalista 

Também me deixa encucado o comportamento passivo dos empresários paraenses do setor. O Pará corre sério o risco de ser bastante prejudicado por causa desse escândalo, mesmo que se comprove, no decorrer da investigação, que a promiscuidade entre fiscais e indústria não contaminou a carne paraense. Ainda assim, a desconfiança sobre o produto brasileiro está consolidada. O país importador não quer saber se a carne é do Pará, de Goiás ou de Passa-Quatro. A desconfiança recai sobre o Brasil inteiro.

Hoje mesmo, apesar do circo armado pelo Brasil na reunião que terminou com churrasco, Europa, China, Chile e Coreia anunciaram restrições à carne brasileira. Só o caso do Chile já é devastador: metade da carne consumida naquele país sai do Brasil. As compras da União Europeia e da Coreia rendem 1,5 bilhão de dólares em divisas. No bolo da restrição se inclui a carne produzida pelo Pará. Em 2016, o quinto maior volume de carne exportada pelo Brasil saiu do Porto de Barcarena, o correspondente a 4% das exportações brasileiras, em torno de 200 milhões de dólares, segundo a Associação Brasileira das Indústrias de Exportação de Carnes.

Os pecuaristas paraenses conhecem bem os efeitos da desconfiança, mesmo quando não é responsabilidade deles. Em 2005, o rebanho brasileiro foi acometido de um surto de febre aftosa. O mercado internacional se retraiu imediatamente. Quase 50 países que estavam na planilha das nossas exportações deixaram de comprar a carne brasileira, qualquer que fosse a origem. Mesmo depois de obter há quatro anos a certificação de Estado livre da aftosa, dada pela Organização Mundial de Saúde Animal, a carne do Pará ainda encontra dificuldades para ser aceita em mercados mais exigentes.

As barreiras estão em alguns países que não aceitam a certificação regional e exigem que o Brasil todo erradique a doença. Amazonas, Roraima e Amapá não estão livres da febre aftosa. Assim será com o caso da carne profanada. Mesmo que no Pará a fiscalização funcione, dificilmente o produto brasileiro será aceito depois das fraudes flagradas no Paraná, em Goiás e em Minas. E o Pará, que vem ganhando espaço no mercado internacional, vai andar para trás.

O setor de exportação de carne fatura por ano mais de 8 bilhões de dólares, com expectativa de crescimento de 20% a cada doze meses. É um ambiente promissor para a pecuária paraense, um dos poucos setores não maltratados pela recessão e que mantém um crescimento de 10% ao ano. Este mercado é vital porque o Pará é dono do 5º maior rebanho do País, mas consome apenas 35% do que produz. Com 22 milhões de cabeças de gado, o Estado tem no campo, hoje, um ativo calculado em quase R$ 30 bilhões. É preciso se preocupar com isso, sim. 

Os pregos da corrupção e da irresponsabilidade, que furaram nossos pés, estavam enferrujados. Não adianta esconder o maldito prego numa cebola, como ensinava minha avó. É preciso curar o mal e vacinar o mercado contra as consequências.

     Ou até o Pará, que nada teve com isso, também perderá o chão onde demorou muito para por os pés.

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