VER-O-FATO: JUÍZA USA INFORMAÇÃO CONTRA VIOLÊNCIA

quarta-feira, 15 de março de 2017

JUÍZA USA INFORMAÇÃO CONTRA VIOLÊNCIA

               A juíza Célia Bedin usa métodos pedagógicos em suas palestras

“Doutora, eu posso trabalhar?”. Quando a juíza Célia Gadotti Bedin, da Vara da Violência Doméstica, da Comarca de Santarém, ouviu a pergunta de uma vítima de agressão, cujo marido não permitia que ela tivesse um emprego, percebeu o quanto a desinformação ainda castiga mulheres em relacionamentos onde predominam o preconceito e a truculência do companheiro.

“É claro que pode, estamos no século XXI!”, reagiu a magistrada, confirmando para si mesma a certeza de que o trabalho da Vara deve ir além das regras jurídicas. Para tentar alcançar a origem do problema, ela decidiu investir na prevenção. Valendo-se da experiência de 15 anos como professora, atividade que exercia antes de assumir a magistratura, Célia Bedin procurou as escolas da rede pública de Santarém e iniciou uma série de palestras dirigidas a pais, professores, diretores e alunos.

O primeiro encontro do projeto Maria da Penha: Paz em Casa ocorreu na Escola Estadual Frei Othmar, no bairro do Santíssimo, em fevereiro passado, onde a magistrada reuniu cerca de 150 pessoas, a maioria mulheres. A metodologia dos encontros envolve homens e mulheres, e analisa os ciclos de relacionamento do casal, identificando o início da tensão que, posteriormente, gera a violência. 

“Sabemos que os relacionamentos entre casais não são fáceis. A ideia é prevenir ainda no primeiro ciclo. Geralmente, depois da agressão, o homem se arrepende, retoma o relacionamento e volta a praticar a violência. Por isso é importante trabalhar homem e mulher”.

A rotina da Vara de Violência Doméstica demonstra que a maioria dos casos de agressão ocorre nos finais de semana, quando o homem não está trabalhando e, geralmente, se encontra sob o efeito do álcool. Os agressores vêm de todas as classes sociais, observa a juíza. “Pessoas instruídas e sem instrução cometem violência contra a mulher e, na maioria dos casos, por não aceitarem o fim do relacionamento, que geralmente é provocado pelo avanço dos ciclos de tensão”.  

Mulher e homem 

Segundo a juíza, é necessário aplicar a Lei Maria da Penha, como forma de correção, quando o agressor ultrapassa os limites. “O problema é que a maioria ainda tem a ideia de que a violência contra a mulher é só física”. Paralelamente ao trabalho jurídico, a Vara de Violência Doméstica mantém dois grupos interdisciplinares, um para atender apenas homens e outro exclusivo para mulheres.

Cada um dos grupos (o intitulado “Reflexivo”, para homens, e o “Vitória Régia”, para mulheres) é formado por um psiquiatra, uma psicóloga e uma assistente social. Nesses ambientes, para onde são encaminhados após a audiência, como parte das medidas protetivas, tratam das causas da violência. Os participantes são alertados para a necessidade de acionar a luz amarela assim que a tensão do relacionamento pender para a violência, seja física ou não. Cerca de 20 pessoas por grupo, atualmente, participam do projeto. 
   
Escolas - Nas palestras em escolas, a juíza Célia Bedin utiliza material didático e pedagógico, baseado em gravuras que retratam o ciclo da violência doméstica. “Chamamos a atenção dos pais para o fato de que os filhos vão imitá-los quando adultos, por isso eles têm que ter atenção redobrada com relação às agressões domésticas”, frisa a juíza.

O objetivo do projeto é manter um ciclo permanente de palestras nas escolas, a partir do agendamento da própria comunidade. “É uma forma de nos aproximarmos das pessoas e levar informações básicas sem gerar ônus algum, nem para a escola, nem para o judiciário”, enfatiza. 

“Não quero ter que decidir judicialmente pelo afastamento de pais de suas casas após atos violentos, por isso tento esclarecer sobre a Lei Maria da Penha e reforço a importância do diálogo entre homem e mulher, evitando que o relacionamento chegue à agressão”, analisa.

Diretores e professores de 100 escolas da 5ª Unidade Regional de Educação (URE), em Santarém, devem participar da próxima palestras, prevista para o dia 30 de março, na Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA). Fonte: TJ Pará, texto de João Vital e Jota Ninos. Foto, divulgação.

Um comentário:

  1. A Juíza Celia não está acomodada em fazer somente as tarefas burocráticas do seu ofício, mas tenta construir uma sociedade mais justa.

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