VER-O-FATO: INCOMPETÊNCIA, CRUELDADE, LIXÃO E CAOS: EM BELÉM, MARITUBA E ANANINDEUA

sábado, 4 de março de 2017

INCOMPETÊNCIA, CRUELDADE, LIXÃO E CAOS: EM BELÉM, MARITUBA E ANANINDEUA

Piada de mau gosto ou castigo imposto à população? Eis o retrato da "gestão" de Zenaldo
O Lixão da Revita nem era para existir, mas as autoridades o impuseram
O chorume já contaminou tudo em Marituba. Igarapés mortos


Tudo que começa mal, termina mal. A chamada lei de Murphy se encaixa como luva no caso do lixão da Revita, em Marituba, onde é despejado todo o lixo das mais de 600 mil casas da região metropolitana de Belém, um universo populacional que abriga 2,5 milhões de moradores.

Belém e Ananindeua, as duas maiores cidades, há três dias não têm coleta de lixo. Os caminhões das empresas contratadas pelas duas prefeituras governadas pelo PSDB deixaram de ir às ruas por dois motivos: pela própria interdição do lixão por moradores de Marituba sufocados pela fedentina que exala do local onde os resíduos são depositados a céu aberto, e também porque os prefeitos Zenaldo Coutinho e Manoel Pioneiro não pagam desde o final do ano passado as empresas coletoras de lixo, segundo informações obtidas pelo Ver-o-Fato

E o que faz a prefeitura de Zenaldo Coutinho? Pede para os moradores de Belém "armazenarem o lixo doméstico em recipientes fechados e somente depositarem na via pública quando a coleta for normalizada". Ou seja, teremos de guardar o lixo dentro de casa. Uma sugestão tão perversa quanto impor aos habitantes da capital os mesmos tormentos pelos quais passam os moradores de Marituba, obrigados a se envenar com o mau cheiro da Revita. Nem eles, nem nós, merecemos isso. 

Indignados, os moradores das duas cidades, principalmente nas redes sociais, falam em depositar na frente da prefeitura de Belém e de Ananindeua o lixo acumulado na porta de suas residências, como forma de protesto. O risco de doenças já incomoda e assusta as famílias e não se vê, por parte das autoridades, nenhum projeto sério para resolver o problema. Querem apenas remediar o irremediável.

Misto de omissão e conivência com a empresa Revita - que, fala-se por toda a região metropolitana, teria financiado por baixo dos panos campanhas políticas de tucanos, peemedebistas e de outras legendas partidárias - a situação já demandaria, faz tempo, a instauração de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), mas isso parece fora de cogitação. 

Seria o mesmo que a raposa abrir sindicância para apurar o descalabro que ela mesma produziu dentro do galinheiro que comanda. 

Benevides virou lixão

O Ver-o-Fato tomou conhecimento de que vários caminhões de Belém e Ananindeua, e da própria Marituba, já estariam despejando lixo em terrenos baldios do município de Benevides, o foco da solução temporária para aliviar a consciência das autoridades que contribuíram para o desastre ambiental que estamos a presenciar. 

O Ver-o-Fato já escreveu várias matérias sobre o Lixão da Revita, cobrou providências, apontou os responsáveis pelos crimes ambientais e sociais em andamento, até convidou o governador do Estado, os prefeitos da região, os dirigentes da Semas, do Ibama e os representantes do Ministério Público para irem morar, pelo menos por algumas horas num raio de 3 quilômetros próximo do lixão para sentir a podridão que sentem a cada minuto do dia os moradores que vivem no local. 

Ninguém topou. Até porque seria reconhecer seus erros na aprovação desse projeto assassino da Revita, que nasceu de forma errada, numa área de proteção ambiental, viola as próprias leis ambientais e não tem nenhuma razão de lá permanecer. 

Ambientalista, o advogado e ex-deputado Zé Carlos, em sua página no Facebook, aponta, com razão, os erros que levaram ao estado de coisas que agora todos sentimos e presenciamos. Leiam o que ele diz:

Quem errou deve pagar

O Lixão da Revita em Marituba tem que fechar. A população está correta. Aquilo não obedeceu as regras legais. Quem errou deve pagar pelo erro ou erros cometidos. Vou apontar alguns dos problemas que constam do relatório que encaminhei a OAB Pará. Como também fazem parte da Ação que assino como advogado dos Quilombolas do Abacatal.

1. O local não é apropriado: O terreno não suporta as 1,8 mil toneladas/dia de lixo da Região Metropolitana. Está dentro de uma área ambientalmente protegida. Fica perto das comunidades. Fica na Bacia do Rio Uriboca, o que é uma grave ameaça.

2. A licença ambiental é precária e já deveria ter sido revogada, por que a empresa não cumpriu as condicionantes.

3. O Lixão produz mais chorume que o previsto e este chorume não vem sendo tratado adequadamente.

4. Os resíduos recicláveis estão sendo enterrados quando a Lei da PNRS proíbe que isto seja feito.

5. O contrato da Prefeitura de Belém com a Revita foi irregular, feito por artificio de dispensa de licitação.

6. Os animais da REVIS - Reserva de Vida Silvestre estão sendo impactados pelo lixo, barulho e odor.

7. Marituba não suporta cemitérios e lixo.

Quem autorizou e contratou este lixão? Estes crimes tem autor ou autores. Inclusive autoridades coniventes.

Chorume contamina tudo

A proteção impermeabilizante para o chorume não contaminar o solo, no Lixão da Revita simplesmente não existe. O que é chorume? Formalmente conhecido como líquido percolado de aterro, o Chorume de Lixo ou Chorume de Aterro Classe 2 é o líquido proveniente da matéria orgânica em decomposição nos aterros sanitários. 

Por ser altamente poluente não pode ser disposto diretamente no meio ambiente, pois pode provocar a contaminação do solo, do lençol freático e de corpos d’água. É um resíduo escuro, viscoso e fétido e também atrai vetores de doenças, como moscas e roedores. 

O projeto inicial da Revita previa três bacias de chorume, que seria tratado através de uma técnica chamada osmose reversa. O projeto estava errado, conforme havíamos comprovado antes da instalação e funcionamento. 

As precipitações pluviométricas não foram dimensionadas corretamente e hoje já estão falando em sete bacias para receber a enorme quantidade de chorume produzida no Aterro. 

A máquina de osmose demorou a chegar e quando chegou mostrou insuficiente para tratar todo o chorume produzido no Aterro Sanitário. Os moradores e conhecedores do problema falam em caminhões de chorume do Aterro descarregando este líquido fétido em igarapés da região. 

Tudo isso poderia ter sido evitado não fosse as atitudes equivocadas do Prefeito de Belém e do órgão licenciador.

4 comentários:

  1. Suas reportagens são verdadeiras, sérias e tenho orgulho de ser seu leitor. Faz meses que deixei de ler os jornais Diário do Pará e O Liberal, mormente porque tais publicações não publicam as matérias que leio aqui em seu blog. Seu blog e o do Lúcio Flávio são minhas leituras prediletas, continue assim. Beijos. Marielza Gonçalves Ferreira, professora.

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  2. Muito obrigado, Marielza. Procuro fazer minha parte para que o Pará e o nosso país sejam melhores para todos, sobretudo os que mais necessitam de obras e serviços dos governantes. O problema é que minha cota de indignação diante de tantas iniquidades e perversidades administrativas por parte desses mesmos governantes - independentemente de partidos políticos ou ideologias -, já superou todas as medidas. Mesmo assim, vale a pena perseverar na indignação, mas sem perder a magnanimidade. Grande abraço.

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  3. Peço encarecidamente aos leitores do blogue, como seu redator e editor, que evitem mandar comentários que atinjam a honra, a intimidade, a dignidade pessoal e as famílias de pessoas criticadas. Já tive, infelizmente, de bloquear alguns comentários, por trazerem conteúdo que nada têm a ver sobre o Lixão da Revita, a omissão de algumas autoridades públicas, atingindo apenas o lado pessoal. Minhas responsabilidades como jornalista impõem tal moderação aqui no blogue. Críticas, por mais contundente que sejam, mas sem agressões pessoais, serão benvindas. Grato.

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  4. Isso é a mais pura verdade concordo com você

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