VER-O-FATO: SOMOS PATOS DO CÍRIO, SOMOS TODOS SALUSTIANO

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

SOMOS PATOS DO CÍRIO, SOMOS TODOS SALUSTIANO

 
Era um pato diferente. Além de bonito e grande, um autêntico patarrão. Tinha inteligência acima da média, no reino dos patos. Dei-lhe o nome de Salustiano. E ele atendia pelo nome.

Toma, Salustiano! Vem cá, Salustiano! Ele corria para pegar o alimento na mão. Era o rei do pedaço. Ou melhor, do quintal. Na rua Domingos Marreiros, nº 989, Salustiano tinha outros amigos: Espirro, o gato; Zira e Cacique, o casal de cachorros. Uma convivência democrática, apesar de algumas divergências de espécie.

As visitas chegavam em casa e iam logo pedindo para ver o Salustiano, o pato inteligente. "Esse é bom pra comer no Círio", dizia um candidato a assassino de patos. "No tucupi, então, deve ser uma delícia", emendava outro cínico visitante. Parecia haver uma perversa unanimidade sobre o destino de Salustiano.

A unanimidade burra, de que tanto falava Nelson Rodrigues. Aliás, uma unanimidade criminosa. No caso, era uma unanimidade com cheiro de conspiração. Arquitetada por um bando de psicopatas. Ou psicopatos.

Gente sem alma, que se dizia devoto fervoroso de Nossa Senhora de Nazaré, mas queria almoçar, na ceia do Círio, o pobre do Salustiano. Aquilo enchia o saco. "Tá no ponto, esse pato".  "Olha, o Círio tá chegando". 

Tinha um coronel do Exército, espírita, que morava na nossa rua, bem pertinho de casa. Preocupado com as pressões insistentes no sentido levar o Salustiano à panela, fui à casa do coronel. 

- Coronel, o senhor que fala com os espíritos, pelo amor de todas as almas penadas, me diga uma coisa: pato tem alma? A resposta veio na lata: "claro que tem". O sábio que ouvia vozes e dialogava com o outro mundo, resumiu minha dúvida existencial: "todos nós, humanos e animais não humanos, temos alma". 

Pronto. Aquilo nunca mais saiu da minha cabeça. O Salustiano tinha alma. Todos os patos, galinhas, papagaios, gatos, peixes, tartarugas, jabotis, bois, vacas, cabras, veados, etc, tinham alma. O Afonso, o jabuti lá de casa que também atendia pelo nome, tinha alma.

Passados alguns meses e na véspera do Círio de Nazaré, constatei, pesaroso, que na floresta amazônica inteira todos os bichos tinham alma. Menos, é claro, os humanos que viviam em Belém. Bando de hipócritas !

Como é que eles sacrificaram o coitado do Salustiano, levando-o à panela para servir de pantagruélico repasto no almoço do Círio? Todos, menos a Luciana, minha filha, comeram o Salustiano. Até eu, o mais desalmado entre os desalmados.

Se eu pudesse, para purgar meu pecado - não o da gula, por ter saboreado o Salustiano com a avidez de um condenado à morte devorando a última refeição - pedir alguma coisa à Nossa Senhora de Nazaré, eu pediria o seguinte:

Ô Nazica, me perdoa a intimidade. Faz um milagre neste Círio que está chegando, faz. Por favor, pelo amor do teu pai e do teu filho, liberta todos os patos que estão nas feiras e nos quintais prontos para ser abatidos e devorados no almoço deste domingo. Faz isso, faz.

Como vais fazer isso? Não sei. Tu, que és santa, é quem sabe melhor do que eu. Os patos podem sair voando, ganhar altura e sumir da vista desses infiéis que querem devorá-los. Milagre é milagre. 

Vai, Nazica. Liberta a alma do Salustiano. Liberta a alma de todos os patos. Aliás, aproveita, Nazica, e também liberta as nossas almas.

Afinal, somos todos patos. 


3 comentários:

  1. Pois é, o Salustiano também deve ter gostado. Só não sei se ele, para se vingar, gostaria de comer carne humano ao molho do tucupi, no Círio.

    ResponderExcluir
  2. Quis dizer carne humana. De qualquer maneira, não podemos subestimar a inteligência dos patos. Sob pena de pagarmos o pato por essa atitude. rsrsrsrsrrs

    ResponderExcluir