VER-O-FATO: O CÍRIO DE NAZARÉ QUE NÃO PASSA NA TV

terça-feira, 11 de outubro de 2016

O CÍRIO DE NAZARÉ QUE NÃO PASSA NA TV

 
 
 
 
 


Relato e fotos de Geysele Santa Brígida das Mercês

09 de outubro de 2016, 03:20 da madrugada

Feira do Ver-o-Peso, em Belém do Pará 

É o dia do círio de Nossa Senhora de Nazaré. É o tão esperado momento da celebração e maior manifestação de fé. 

Nesse horário, há poucos metros dalí um número crescente de pessoas guarda seu lugar na corda, para pagar as promessas pelas graças alcançadas. A sinergia é sem igual.

Tudo parece perfeito, mas há pelo menos duas horas, que um corpo franzino e esfaqueado nas pernas, agoniza no chão, muito mal. Ele está à espera de um socorro que não dá nem sinal. 

Sua companheira, segue o lastro de sangue, e ao passo que tenta cuidar do pouco de vida que resta naquele corpo esquálido, clama pelo socorro, que teimam em negar-lhes.

Noutro ponto da mesma feira, um homem desesperado pede ajuda para sua esposa, há muitas horas desacordada. 

O 192 é o número mais discado. E a ambulância está logo ali do outro lado, depois do bloqueio dos homens verde-rajado. Mas as ligações e os pedidos de ajuda são em vão. O socorro não chegará.

A pretexto de “isso não é com a gente”, a guarda do círio não ajudou, a cruz vermelha também não, a guarda municipal tampouco, as forças armadas reunidas também não ajudaram, e me arrisco a dizer que, mesmo se a força nacional ali esteve, de nada adiantaria. A ambulância não viria.

“Aconselho a pegarem um taxi e levar ele daqui”, “Ponha a sua esposa num carro e vá atrás de ajuda por conta própria”, “Isso não é nossa responsabilidade”, “A ambulância não tem como passar no bloqueio”, “isso foi bem briga de bêbado” “A mulher dele tá é embriagada”... 

O show de horrores, de moralismo e desumanidade estava acontecendo ali, à nossa frente, mas nem todo mundo vai saber, não é mesmo? Afinal, o bloqueio verde-rajado cumpria seu objetivo. 

Tudo pela ordem !

Foi então que vi uma face desesperada a me chamar “tira foto aqui, moça, pra mostrar como eles tratam a gente”. Era uma feirante que ajudava o homem franzino. 

“Querem tratar a gente como animais”, dizia outro feirante, com razão, revoltado. 

“O cara é trabalhador, é feirante aqui, trabalha todo dia”, outros feirantes tentavam explicar.

Confesso que hesitei em apertar o botão da câmera, mas não por covardia. Estava em choque com aquela total ausência de dignidade humana. A boca estava seca e muda, os olhos arregalados, maiores do que de costume, e a náusea causada pela indignação, tomava conta do meu estômago.

A voz que berrava dentro de mim, não conseguia sair. Me perguntava como aquilo poderia ser normal? Como permitir que seja aceitável? Não senhores, não dá. Nada deve passar por normal, e o Brecht já nos alertava sobre isso, no século passado.

Não é possível aceitar a naturalização da barbárie! 

O aparato do Estado estava todo alí, mas não para aquele feirante, o homem franzino esfaqueado. Não para a feirante desmaiada em outro ponto da feira.

Conversa aqui, pede ali, liga pra lá, grita pra cá, anda, vai atrás alguém, mas ninguém vem. E aqueles trabalhadores feirantes já conhecem essa história, e já sabem qual é o desfecho. 

Quantas vezes não já deve ter se repetido? Eles e elas sabem, que se não fizerem algo rápido e potente, com as armas que têm, não serão ouvidos.  Suas armas? São seus instrumentos de trabalho, e sua coragem. 

E assim que o fogo começa a subir, logo chegam dezenas de homenzinhos verde-rajado, junto com outros fardados. Nesse momento, como em um milagre, eis que surge a ambulância. O bloqueio de homens verde-rajado, enfim se rompeu. O homem franzino logo é atendido. 

[hastag] É círio outra vez!!!

Então, me pergunto: como não ter fé na força do povo? 

Ai, ai, ai, esse povo danado, que armado de caixotes e fogo, ousa enfrentar e romper barricadas de homens fardados. Impossível não lembrar de Leminski, quando diz que “na luta de classes, todas as armas são boas: pedras, noite e poemas”.

O fogo que acenderam alí, também me remeteu ao que vem lá de dentro. O fogo que se converte em coragem e ousadia, de tomar as rédeas de suas vidas, e fazer o enfrentamento necessário.

Eu sonho mesmo é com o dia em que essa chama será acesa em todos os corações da classe trabalhadora, para acabar de vez com a barbárie instaurada.

Sou romântica? Utópica? Sim, sou sim. Mas minha utopia vem é dessa força popular, que é marginalizada, oprimida, mas também destemida. É força que vira ação! E para isso, não precisa de discurso bonito, não!

O homem franzino logo foi atendido, e levado dali. 

O carro de bombeiros também chegou. 

O fogo, apagou. 

A brasa, limpou. 

E o sangue no chão, lavou. 

A “limpeza” foi feita. 

[hastag] É círio outra vez!

O homem franzino logo foi atendido, mas a mulher não. E enquanto a ambulância ainda ali estava, o marido, em vão, suplicava. 

Mas o motorista-socorrista logo exclamava 

“Meu senhor, estamos cuidando de um homem esfaqueado”.

De repente, o homem franzino virou prioridade. 

“Só temos uma ambulância”. 

O marido continua sua súplica, conversa com um e com outro fardado, mas ali mesmo é julgado: está embriagado. E mesmo com todas as intervenções, tem seu pedido silenciado. 

Resignado, segue seu destino, humilhado, afinal tá quase tudo naturalizado.

Por sorte, ou milagre, a esposa volta a si, mas poderia ter sido diferente, poderia ter sido outro o seu fim.

Em pouco tempo parece até que nada aconteceu. Mas ali, no Ver-o-Peso, no dia do círio, um homem quase morreu.

 
Geysele Santa Brígida https://www.facebook.com/geysesbm

3 comentários:

  1. O relato é um grande drama pela qual vive a cidade.Não é especifico por ser cirio outra vez. è especifico por serem os mesmos prefeitos outra vez.Governantes indiferentes ao seu povo, autoridades sem conhecimento de causa e efeito da cidade.Menosprezam a tudo e a todos.O evento foi no dia de Cirio outra vez, mas poderia ser no Natal, no dia da Patria, Adesão do Pará, e não passaria na TV da mesma forma.

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  2. Este texto-reportagem é ao mesmo tempo belo e cruel. Merece ser lido e relido. Nem tudo é CÍRIO ou tudo é. Excelente! Realidade social cruel!

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  3. A indiferença com que os pobres são tratados pelo Poder Público é um fato que se insere no contexto da violência que grassa em todos os bairros. A saúde pública é um caos, mas os governantes mentem e se utilizam do marketing para dizer que tudo está bem e que vai ficar ainda melhor. Um ultraje e um escárnio aos que pagam impostos e recebem - ou não recebem - péssimos serviços.

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