domingo, 23 de outubro de 2016

DANE-SE A MEMÓRIA DE BELÉM: PARTE DELA FOI PARAR EM SÃO PAULO

 
O que era para estar em Belém, por descaso dos governantes, está em São Paulo


Osvaldo Coimbra é um homem incomum, um amigo incomum - embora não pareça em sua vivência simples no dia-a-dia -, pois faz o que os governantes não fazem, por incompetência ou descaso: abrigar em seus apertados aposentos na cidade de São Paulo a memória deste Estado e desta Belém tão maltratados pela incúria de quem deveria zelar por ela. 

Um ser humano digno, honesto e preocupado com o nosso destino. Ele quer que, no futuro, quando não estivermos mais aqui, alguém tenha informações e documentos para contar como, por quem e porque Belém é uma cidade tão atraente e de riquíssima história arquitetônica, humana, paisagística e cultural. 

Infelizmente, os que conspiram para que se perca todo este acervo, que um dia poderia estar à disposição de qualquer pessoa, publicamente, abrigado em local livre de insetos e refrigerado, são os mesmos que de maneira cínica vão para a TV e para o rádio dizer que zelam pelo nosso patrimônio público.

Essa parte da memória de Belém está guardada a mais de 3 mil quilômetros de distância. Parece piada, mas não é. Deveria estar aqui. Serve de consolo dizer - embora lamentemos - que essa memória está a salvo dos verdadeiros predadores, os encastelados no poder. Nos podres poderes. 

Em tempo: antes de ir morar em São Paulo, Coimbra presenteou-me com parte de seu acervo de livros pessoais, centenas de antigos LPs, CDs e DVDs de obras da MPB e da música internacional. Incorporei a doação de Coimbra ao acervo da Rádio Sintonia Web e da Fundação Metrópole - que mantenho também com extrema dificuldade, mas sempre com incontida alegria.

Não pude, infelizmente, ficar com mais coisas que Coimbra ofereceu-me por absoluta falta de espaço em minha casa. Meu próprio arquivo pessoal, que inclui  parte de minha vida na imprensa do Pará nos últimos 45 anos, 21 deles ainda em atividade no jornal "O Estado de São Paulo", já é vasto e necessita de permanente atenção para não ser devorado pela ação implacável do tempo, com seu exército de traças e cupins.

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A propósito, veja o que Oswaldo Coimbra - professor aposentado da UFPA, do Curso de Letras, jornalista e escritor escreveu em sua página no Facebook, já com milhares de acessos:


UM TUCANO DE VOO BAIXO

Tudo o que aparece nestas imagens tem um pedaço de Belém. Trata-se apenas da metade (a que coube nas fotos) de um grande conjunto de livros, cds, fotos e vídeos. Com raridades, como relatórios do prefeito de Belém, Antônio Lemos, publicados há mais de 100 anos, e obras que pertenceram ao antigo governador Moura Carvalho. 

Hoje este material está abrigado num apartamento 3 mil quilômetros distante da capital do Pará, em São Paulo. Quando devia estar espalhado pelas salas do Palacete Pinho, no primeiro bairro de Belém, o Cidade Velha. Nos seus textos e figuras se alimentou o ensino de História dos Construtores daquela cidade, ministrado por mim, durante mais de dez anos aos alunos de Engenharia Civil, da UFPA, a partir de 1993. 

Ensino no qual, desde 1999, foram desenvolvidas atividades práticas de monitoramento visual do Centro Histórico, através de fotografias dos seus dois mil imóveis. As fotografias passaram a integrar o material, mas eram, originalmente, destinadas a um site - centrohistoricodebelem.com.br - cujo domínio chegou a ser pago, numa das iniciativas feitas para estender a toda a comunidade paraense o alcance daquele trabalho acadêmico. 

Também com objetivo extensionista, o mesmo material embasou a elaboração das quatro obras que escrevi com a reconstituição das diferentes fases das histórias de nossos construtores. Todas estas obras foram premiadas pela Academia Paraense de Letras, com votos favoráveis de personalidades como Maria Annunciada Chaves. Três delas, por imposição legal, decorrente daquelas premiações, publicadas pela Imprensa Oficial do Pará. Uma, a mais bonita, com papel couchê e em quatro cores, sobre Landi, editada por iniciativa da Prefeitura de Belém, na gestão petista de Edmilson Rodrigues, durante as comemorações dos 250 anos de chegada do arquiteto italiano ao Pará. 

Por fim, igualmente com o propósito de levar à população do Estado os resultados obtidos na pesquisa, diretamente ligada à identidade cultural do amazônida, foram produzidas, com o material, as colunas de meia página, sobre a saga dos construtores da região, publicadas, semanalmente, pelo jornal de maior circulação no Pará, o Diário do Pará, durante três anos. Dentro da UFPA, as atividades apoiadas neste material me permitiram, ainda, criar o Grupo de Memória da Engenharia e de Atividades Interdisciplinares do Instituto de Tecnologia. 

Se estivesse, como deveria estar, numa sala do Palacete Pinho, parte deste material poderia exibir, hoje, a impressionante história da ordem que construiu, a partir de 1670, o primeiro conjunto monumental religioso de Belém - a dos jesuítas. A ordem que foi extinta pelo Papa e teve seus membros presos pelo Marques de Pombal, como punições ao acúmulo de bens materiais no Pará. 

Em outra sala, outra parte do material, poderia mostrar a maravilhosa produção arquitetônica de Landi, em Belém, após 1753. Num terceiro espaço, mais uma parte do material, tornariam públicas as trajetórias dos "engenheiros da borracha", aqueles que levantaram o Teatro da Paz, o Palácio Antônio Lemos, o Palacete Bolonha.

Por fim, numa quarta sala, haveria peças do material para reconstituir a comovente contribuição a Belém dos formandos da Escola de Engenharia do Pará, que desde 1937, se prepararam para construir, em 1960, um dos prédios mais altos do País e do mundo, o Manuel Pinto da Silva. 

A distribuição deste material pelas salas do Palacete Pinho visava preparar o imóvel para, em parceria com o Grupo de Memória da Engenharia da UFPA, sediar duas atividades, uma permanente, outra, sazonal. A permanente: cursos com as histórias humanas dos construtores do maravilhoso acervo arquietônico do Centro Histórico, dirigido ao público das escolas de Belém. A sazonal: um grande festival anual da juventude universitária chamado CHIBÉ - abreviação de Centro Histórico de Belém - no qual a Prefeitura e a UFPA premiassem trabalhos escritos, audiovisuais, musicais, e, de dramaturgia, que mostrassem as ligações deste espaço antigo com diversas áreas de produção artística.

Com esta intenção - a de promover aproveitamentos múltiplos -, há três anos, quando concluí a pesquisa sobre os construtores - o material foi formalmente oferecido à presidência da Fumbel, o órgão correspondente a uma Secretaria Municipal de Cultura, responsável pelo Centro Histórico, por isto, administrador do Palacete Pinho. 

Na presidência da Fumbel, escolhida pelo prefeito tucano Zenaldo Coutinho, estava e continua lá, dona Heliana da Silva Jatene, ex-mulher do governador também tucano Simão Jatene. O oferecimento se deu através de documento entregue aos técnicos do órgão que a assessoram. Isto pôde ser feito por mim, porque cada uma das peças daquele material havia sido adquirido com recursos extraídos dos meus salários, ao longo das duas décadas pelas quais se prolongaram minhas atividades na UFPA. 

Os assessores colocaram o documento sobre a mesa daquela senhora. E, ali, permaneceu intocado, por muitas semanas. Até os mesmos técnicos o devolverem, constrangidos, com a informação de que ela não tinha tido interesse de lê-lo. 

Daquela situação, em seguida, tomou conhecimento Edmilson Rodrigues, já no exercício de seu mandato de deputado federal pelo PSOL. Ele conhecera o material, quando prefeito de Belém. Solícito, Edmilson tentou encontrar uma solução junto ao Secretário Estadual de Ciência e Tecnologia, Alex Bolonha Fiuza de Mello, descendente do construtor da Belle Époque, Francisco Bolonha. E que, por coincidência, exercia o cargo de reitor da UFPA, quando aquele material começou a ser juntado. 

Em ocasiões de visitas dele a universidades de Lisboa, Aveiro e Évora, em Portugal, dados levantados na pesquisa apoiada no material, relativos à atuação dos construtores portugueses nos dois primeiros séculos de Belém tinham sido apresentados por mim, à convite da Casa de Estudos Luso-amazônicos da UFPA. Nada, no entanto, foi obtido na audiência com o ex-reitor. 

Assim, "al fin y al cabo", me restou apenas a alternativa extravagante de transportar em caixas e mais caixas comigo o material para São Paulo, onde, naturalmente, não tem pôde ter utilidade porque não foi possível ativar o site centrohistoricodebelem.com.br. 

Quanto às salas do Palacete Pinho, jamais foram utilizadas. Embora a recuperação do imóvel tenha sido cara e demorada, ele está, novamente, se deteriorando, por abandono. 

Um nota final: no domingo da próxima semana, Edmilson vai disputar o comando da prefeitura de Belém com o recandidato Zenaldo, todo atrapalhado diante do Tribunal Eleitoral. Advinhem por quem estou torcendo?

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