VER-O-FATO: O CONTESTADO AMAZONAS X PARÁ: UM PRATO CHEIO PARA OS ACADÊMICOS

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

O CONTESTADO AMAZONAS X PARÁ: UM PRATO CHEIO PARA OS ACADÊMICOS


Mapa do Amazonas
Mapa do Pará

Octávio Pessoa*


Poucos sabem que já houve uma Zona do Contestado entre o Amazonas e Pará. Isto significa dizer que havia uma zona reclamada por ambos os Estados como parte integrante de seu território. A ignorância, no verdadeiro sentido da palavra, desconhecimento, acerca desse assunto e outros da mesma natureza se acentua especialmente entre pessoas de gerações mais recentes.

Como nativo de Parintins, Amazonas, nascido em 1952, eu tenho na memória as conversas que ouvia na minha infância, entre meus familiares e amigos de meu falecido pai, Octacílio José Pessoa Ferreira, sobre assuntos “lá do contestado”.

Essa Zona Contestada era na região do baixo rio Nhamundá que serve de limite entre Pará e Amazonas. O baixo rio Nhamundá é uma região de muitos paranás, igarapés e muitos lagos, como o lago do Nhamundá, Aduacá, Cutipanã, Uruá, Curiá, Xixiá, Aminaru, Siriberu e tantos outros.

A Zona Contestada centrava-se no lago do Aduacá, com suas particularidades de Aduacá de Cima, Aduacá do Meio e Aduacá de Baixo e ainda o lago do Cutipanã, onde meu pai começou sua vida de comerciante, antes de mudar-se com a família para Parintins, polo de influência da região.

Tomei conhecimento de uma particularidade interessante a respeito da solução do Contestado Amazonense/Paraense. Foi num bate-papo de varar madrugada com meu primo Hermes Pessoa, médico veterinário radicado em Parintins e um estudioso de temáticas amazônicas. A disputa entre Amazonas e Pará teria se resolvido por dois irmãos da família Pessoa.

Oriundos de Sobral, no Ceará, eram eles Sérgio e Inácio Pessoa. O primeiro muito cedo migrou para o Amazonas e se tornou um dos mais influentes políticos naquele Estado. Foi vereador, deputado, prefeito de Manaus, presidente da Junta Comercial, provedor da Santa Casa de Misericórdia e presidente do Banco do Amazonas. Hoje é nome de rua na capital amazonense.

Sobre Inácio Pessoa pouco se sabe. O que é certo é que cumprindo a saga dos nordestinos migrou para o Pará onde também fez carreira política. A informação que se tem, sem comprovação dos fatos, é que na solução do contestado as discussões foram conduzidas por Sérgio Pessoa zelando pelos interesses do Amazonas e Inácio Pessoa defendendo o estado do Pará.

O conhecimento dessa possível realidade histórica envolvendo dois irmãos da família Pessoa de pelo menos três gerações antes da minha, não me fez orgulhoso. Só acentuou minha curiosidade acerca dos meandros das discussões e dos fatores que induziram a solução da questão.

Quando se pesquisa o assunto “Contestado” na Internet, encontram-se diversas matérias sobre o contestado mais famoso do Brasil, o que envolveu o Paraná e Santa Catarina. E uma ou outra menção a contestados do sul e sudeste. Nada existe acerca de contestados de outras regiões, como o que envolveu Amazonas e Pará.

Tomando a atuação desses meus dois parentes distantes apenas como um possível lance pitoresco da História, acho que o Contestado entre Pará e Amazonas é assunto que merece ser estudado em profundidade, constituindo-se num “prato cheio” para produção de tese acadêmica.

Fica a sugestão para pesquisadores da área de História ou Geografia da Amazônia.

*Octávio Pessoa é escritor, jornalista e advogado, e foi procurador autárquico e auditor federal de controle externo do TCU no Pará.

4 comentários:

  1. Interessante e bastante curioso, tomara que os historiadores comprem a idéia de investigar o assunto...

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  2. Excelente abordagem, caro amigo Octávio Pessoa. Tema completamente relegado ao esquecimento, como de hábito, aliás, com assuntos relevantes de nossa história. Com seu resgate, quem sabe os doutos cientistas sociais e historiadores acabem se interessando em pesquisar o assunto.

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  3. Amigo Carlos Mendes, reitero aqui o agradecimento pela percussão que você faz da "lebre que eu levantei.
    Realmente amigo Sidou. Tomara que algum acadêmico se interesse e aprofunde o tema necessário para o resgate da História de nossa Amazônia. Chega de construírem teses sobre abobrinhas que entopem os escaninhos da burocracia e nenhum efeito trazem para a realidade em que as Universidades estão implantadas.

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  4. Eu que agradeço, Octávio. Teu artigo nos remete à reflexão sobre o que deixamos de fazer para resgatar a história dos povos amazônicos. O resto do Brasil nos olha como se não existíssimos. O Contestado Amazonas X Pará é uma boa oportunidade para uma pesquisa profunda sobre o tema que levantaste. A bola está com os acadêmicos.

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