VER-O-FATO: PF ESTOURA ESQUEMA DE EXTRAÇÃO ILEGAL DE OURO EM ÁREA CAIAPÓ, NO SUL DO PARÁ

quinta-feira, 7 de julho de 2016

PF ESTOURA ESQUEMA DE EXTRAÇÃO ILEGAL DE OURO EM ÁREA CAIAPÓ, NO SUL DO PARÁ

Nessa área centenas de garimpeiros extraem ouro de forma ilegal

Cerca de 120 índios caiapós vivem na aldeia Turedjan. Ela foi criada em 2006

Uma reserva indígena invadida por estranhos, que estão degradando os rios e a floresta. A razão de tudo, desta vez, é a cobiça pelo ouro na região. Apenas mais um capítulo da saga amazônica com seu cenário de crimes ambientais e de intromissão do "branco" em áreas que sempre foram dominadas por índios. Isto está ocorrendo desde 2013 na terra indígena Turedjan, um dos muitos grupos da etnia caiapó, em Ourilândia do Norte, no sul do Pará. E foi lá que hoje a Polícia Federal deflagrou a "Operação Muiraquitã", combatendo e desarticulando, pelo menos por enquanto, um esquema criminoso de garimpo e comercialização ilegal de ouro.

Cerca de 70 policiais federais estão na área indígena, cumprindo 11 mandados de prisão preventiva, a 14 mandados de busca e apreensão e 3 mandados de condução coercitiva, expedidos pela Justiça Federal de Redenção. Além de Redenção e Ourilândia do Norte, estão sendo executados mandados nas cidades de Porto Nacional (TO) e São José do Rio Preto (SP). Segundo a PF, as investigações começaram no final de 2015.

Em sobrevoo da área, realizado em março deste ano pela Fundação Nacional do Índio (Funai) e Polícia Federal, verificou-se que o coração da atividade garimpeira na região sul do Pará, atualmente, é realizada no garimpo da aldeia Turedjan, em Ourilândia do Norte. Foram identificadas cerca de 40 pás-carregadeiras posicionadas em diversos pontos de garimpos, situados num raio de aproximadamente 10 quilômetros, o que demonstrava o ritmo da atividade extrativista ilegal na região.

Índios no esquema

A reserva indígena se tornou o destino de centenas de garimpeiros clandestinos e pelas estimativas da Funai são extraídos 20 quilos de ouro por semana do local, o que pode representar movimentação mensal de R$ 8 milhões, considerado o valor do grama do ouro no “mercado paralelo”. O fluxo de pessoas nessa região resultou em conflitos entre os garimpeiros, que disputavam uma mesma área, gerando um clima tenso, onde ameaças de morte eram uma constante.

Alguns indígenas participavam diretamente da atividade criminosa, e, em alguns casos, eram responsáveis por decidir os conflitos entre garimpeiros, delimitando a área que cada um poderia explorar. O avanço da atividade garimpeira também gerava graves crises entre tribos diversas que ocupam reservas limítrofes na região.

As investigações apontaram para o envolvimento de indígenas da própria aldeia Turedjan, que compactuavam e lucravam com a atividade garimpeira clandestina, bem como comerciantes de ouro da região. Estes atuavam como receptadores do minério extraído ilegalmente, repassando-o para os estados do Tocantins e São Paulo, de onde era distribuído para o resto do país.


Poluição e desmatamento

Os danos ambientais causados pela atividade clandestina de mineração são muitos. Os mais recorrentes são desvio do curso de rios, desmonte hidráulico (no caso de garimpagem mecânica), aterramento de rios e contaminação do solo, ar e águas por meio de metais pesados, principalmente o mercúrio. A paisagem de locais onde existem ou já existiram garimpo é modificada. Vegetações são extintas e animais fogem ou morrem por causa da contaminação causada.

Até o momento, ficou demonstrada que os investigados incidiram na prática dos crimes de usurpação de bem da União, extração de recursos minerais sem autorização, diversos outros crimes ambientais, receptação qualificada e associação criminosa. Com a busca e apreensão de documentos, em complemento às declarações dos envolvidos, pretende-se aprofundar as investigações, no sentido de identificar outros participantes do esquema criminoso. 

Serão averiguados a extensão dos danos ambientais causados e a prática do crime de lavagem de capitais (art. 1° da Lei 9.613/98) pelos comerciantes de ouro, que auferiam lucros altíssimos com a atividade criminosa. O nome da operação (muiraquitãs) significa objetos utilizados por povos indígenas como amuletos, símbolos de poder ou, ainda, como material para compra e troca de artefatos valiosos.

Briga entre índios

Ano passado, em Ourilândia, ocorreu uma briga entre índios da etnia caiapó que produziu dois feridos no pescoço e rosto. A briga aconteceu no centro da cidade. O clima era tenso, os índios estavam armados com machados e facões. Eles saíram pelas ruas da cidade perseguindo outros indígenas de aldeia rival. A ação assustou a população de Ourilândia.

O motivo para a briga foi a disputa por divisa de territórios de garimpos na região entre as aldeias Kikretum e Turedjam. Os caciques que são contra a exploração de ouro e os que defendem a atividades ilegal tornaram-se inimigos e já há registros de ameaças de morte entre eles.

O blog Ver-o-Fato voltará ao assunto em outra postagem.


Nenhum comentário:

Postar um comentário