VER-O-FATO: CIENTISTA E NOBEL DA PAZ CONDENA "OPERAÇÃO ANTIECONÔMICA" DA USINA DE BELO MONTE

sexta-feira, 22 de julho de 2016

CIENTISTA E NOBEL DA PAZ CONDENA "OPERAÇÃO ANTIECONÔMICA" DA USINA DE BELO MONTE


O cientista é autor de vários estudos socioambientais sobre impactos causados por hidrelétricas


"O início da operação da usina trará danos irreversíveis às populações vizinhas ao empreendimento e também cobrará uma conta cara do governo e dos contribuintes brasileiros". O alerta, sobre o avanço da instalação da hidrelétrica de Belo Monte, é do renomado cientista Philip Martin Fearnside, vencedor do prêmio Nobel da Paz em 2007. Ele fez essa e outras afirmações, ontem,  durante evento em Santarém promovido pelo Ministério Público do Pará (MPPA). 

“Belo Monte é algo totalmente antieconômico. O Rio Xingu é um dos rios que tem maior variação de volume de água ao longo do ano. São quase três meses do ano sem água suficiente para ligar uma turbina sequer da usina. É muito difícil justificar 11 megawatts de turbinas paradas durante meses e esperar que a coisa seja econômica”, comentou Fearnside em palestra, realizada no Theatro Vitória, durante o I Workshop do Grupo Técnico da Bacia Tapajós (GT Tapajós).

“O governo está subsidiando a obra com juros de 5% ao ano, bem baixos. Uma análise econômica estima que há apenas 28% de chance de a usina ter lucro. Quem vai pagar esta conta é o governo e as pessoas que pagam energia elétrica”, completou o cientista, doutor pelo Departamento de Ecologia e Biologia Evolucionária da Universidade de Michigan (EUA) e pesquisador titular do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em Manaus, onde vive desde 1978.

 Fearnside: "o risco de Belo Monte é motivar a construção de novas barragens rio acima"

O cientista citou ainda os prejuízos que serão causados às populações tradicionais de Altamira, município onde a usina está instalada. “Os impactos de enormes barragens a montante, com alagamento de grandes áreas de floresta tropical em terras indígenas, além de produzir metano, fazem com que Belo Monte não tenham nada de limpo. A maior prejudicada é a população que vive lá, que perde o seu sustento e a sua moradia”, disse Fearnside.

A usina de Belo Monte passou por um polêmico processo de licenciamento ambiental, marcado por indícios de fragilidade dos estudos ambientais apresentados pelo empreendedor e falhas nos processos de avaliação e concessão de licenças. As etapas foram alvo de questionamentos por parte do Ministério Público Federal, MPPA e movimentos sociais.

“Um dos principais riscos (de Belo Monte) é de motivar a construção de outras barragens rio acima, começando com Babaquara, que seria onze quilômetros acima da cidade de Altamira. E há outras cinco barragens originalmente planejadas, que devem alagar áreas indígenas. Além de outras que seriam necessárias para diminuir a perda econômica de Belo Monte”, concluiu Fearnside, autor de vários estudos sobre os impactos socioambientais causados pela implantação de hidrelétricas.

Movimentos sociais

Representantes do Fundo Dema, Greenpeace, Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Santarém, Comissão Pastoral da Terra (cpt), Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Terra de Direitos e Conselho Indigenista Missionário (CIMI) também participaram do workshop e expuseram em uma mesa de diálogos suas percepções sobre a possível chegada de novas barragens à região oeste paraense. Um dos principais receios está relacionado ao possível remanejamento de populações tradicionais de suas áreas originais, já que a construção de barragens implicaria no alagamento de terras hoje habitadas por índios e ribeirinhos.

Promotores de Justiça também expuseram os problemas na região oeste do Estado

A mesa de diálogos contou com a participação da supervisora administrativa dos Centros de Apoio Operacional, Fabia Melo Fournier e os promotores de Justiça Bruno Fernandes Silva Freitas (Rurópolis), Gustavo de Queiroz Zenaide (Novo Progressso), Aline Janusa Teles Martins (Itaituba), Lilian Regina Furtado Braga (Santarém), Ione Missae Nakamura (Santarém) e Lívia Tripac Mileo Câmara (Juruti) e técnicos do Ministério Pùblico do Estado.

Organizações não governamentais e representantes de movimentos sociais que estiveram na mesa de diálogos apresentaram brevemente a sua estratégia de atuação na região Oeste do Pará, que compreende a área de atuação do GT Tapajós. 

O principal objetivo era fazer com que os promotores de Justiça da região e técnicos presentes entendessem a dinâmica desses movimentos na bacia do Tapajós e suas estratégias de atuação, bem como as dificuldades de acesso à justiça na luta pelos direitos humanos das populações tradicionais da região, diretamente atingidas pelos grandes projetos instalados e previstos.

Torres falou sobre desmatamento, grilagem e o processo de regularização fundiária

Durante as apresentações foi reiterada por todos os movimentos a preocupação com os grandes projetos previstos para a região, que vão gerar grandes impactos para as sociedades locais. “O objetivo era que os integrantes do Ministério Público ouvissem esses segmentos da sociedade e se apoderassem dessas informações”, explicou Fabia Melo.

Neste sexta-feira, os participantes do workshop puderam ouvir as considerações do pesquisador Maurício Torres, que palestrou sobre processos de desmatamento, lógica de grilagem e regularização fundiária na região Oeste do Pará.

Texto: Fernando Alves e Edyr Falcão
Fotos: Fernando Alves e Simy Correia

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