quinta-feira, 30 de junho de 2016

QUADRILHA DESMATOU 35 MIL CAMPOS DE FUTEBOL NO PARÁ E FATUROU 2 BILHÕES DE REAIS

Os delegados da PF e procuradores da República explicaram como o esquema foi desbaratado 
Nos dois gráficos, o local grilado e desmatado pelos bandidos ambientais

 
Um pecuarista de São Paulo é o principal alvo de uma operação realizada nesta quinta-feira pela Polícia Federal, acusado de comandar a maior organização criminosa responsável por desmatamento e grilagem de terras no Pará, entre 2012 e 2015. Antonio José Junqueira Vilela Filho é considerado foragido e é apontado como o chefe da organização criminosa que falsificava até mesmo o Cadastro Ambiental Rural para conseguir a legalizar terras invadidas.
 
Segundo o delegado Yuri Rodrigo, que comandou a operação, o grupo movimentou R$ 1,9 bilhão entre 2012 e 2015 e o pecuarista criou sete empresas de fachada para lavar o dinheiro ilícito, além, de usar a família. A quadrilha destruiu 300 km quadrados de florestas em Altamira, no Pará, área equivalente ao território de municípios como Fortaleza (CE), Belo Horizonte (MG) ou Recife (PE). O prejuízo ambiental foi de R$ 420 milhões. 
 
Antonio Junqueira Vilela Filho, reverenciado no Pará, Mato Grosso e São Paulo como um dos reis do agronegócio, é figura carimbada no Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama), onde encabeça a lista dos 10 maiores desmatadores da Amazônia. Contra ele já foram lavradas multas de R$ 165  milhões pelo desmatamento ilegal de mais de 30 mil hectares de florestas. 
 
Batizada de Rios Voadores, a operação hoje realizada incluiu 24 mandados de prisão preventiva, nove prisões coercitivas e 19 mandados de busca e apreensão em São Paulo, Santa Catarina, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, e nos municípios de Castelo dos Sonhos e Altamira, no Pará.
 
"Ele tem um avião e sobrevoava a floresta na Amazônia para identificar as áreas onde iria desmatar. Depois que escolhia chamava o "Marabá", que arregimentava trabalhadores da região. Eles derrubavam a floresta com motoserra, para tirar a madeira nobre, e em seguida passavam o corrental, uma corrente com mais de três polegadas que arranca as árvores pela raiz. Depois colocavam fogo e queimavam tudo, para limpar a terra", relata o delegado Rodrigo. 
 
Ação coordenada 

Com a terra limpa, ele mandava semear capim para colocar gado ou, se o terreno era plano, partia direto para o plantio de soja e arroz. Cada uma das áreas era transformada numa fazenda, que começava a produzir e passava a ser tratada como posse, para futura regularização por meio de documentos falsos. O pecuarista montou vários núcleos, cada um deles responsável por uma etapa do crime. 

O núcleo financeiro providenciava o dinheiro para financiar o desmatamento e intermediava o arrendamento de terras e chegava a financiar para terceiros a compra de terras griladas. O de laranjas assinava contratos, assumia a autoria do desmatamento ilegal flagrado e emprestava o nome para que fosse feito Cadastro Ambiental Rural.

Um terceiro grupo era formado por “gatos”, responsáveis por contratar as pessoas que entravam na floresta para desmatar e havia pelo menos dois “gerentes de fazenda”, para cuidar das áreas invadidas. A exploração dos trabalhadores assemelhava-se às condições degradantes do trabalho escravo. Cinco fazendeiros que arrendaram terras ilegais da organização criminosa estão sendo investigados. Segundo a PF, eles sabiam que as terras eram ilegais.

Índios descobriram

De acordo com a PF, um cunhado do pecuarista cedia o nome para negócios ilegais e duas irmãs dele participam da lavagem de dinheiro. O esquema foi descoberto quando índios da região procuraram o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (Ibama) para denunciar exploração madeireira dentro da área indígena. 

Ao prender 40 pessoas que desmatavam a região, elas apontaram Eremilton Lima da Silva, o "Marabá", como o homem responsável pela contratação delas. "Marabá" foi citado pelos trabalhadores como funcionário de “AJ” ou “Jotinha”, como o fazendeiro era conhecido dentro da organização criminosa. 

A investigação durou dois anos. Com ordem judicial, foram feitas escutas telefônicas que registram as negociações do pecuarista e o funcionamento do esquema. Para  a PF, o desmatamento era planejado e áreas eram desmatadas até mesmo sob encomenda de fazendeiros que queriam ter terras na região. 

 O desmatamento seguia critérios científicos. As árvores com copas mais altas eram preservadas para que as demais espécies fossem derrubadas sem que o crime pudesse ser identificado pelos satélites de detecção de desmatamento. Com o objetivo de evitar futuras fiscalizações do Ibama, Antônio José Junqueira Vilela Filho monitorava, via satélite, as queimadas feitas pelo grupo criminoso.

Diálogo sujo

Os fazendeiros ligavam e pediam uma área. Tinha clientes certos. Numa das gravações, o pecuarista fala com um dos integrantes da organização criminosa, identificado pela Polícia Federal como Clésio Carvalho, um dos laranjas.

AJ: Como tá as coisas?

Clésio: Rapaz, eu tive um problema lá, que “cê” nem imagina!

AJ: O que Clésio?

Clésio: O Ibama foi lá (inintelegível)

AJ: Agora?

Clésio: Não, faz uns 90 dias, prendeu meu gado, eu tive que provar que não era laranja seu… rapaz, 60 dias, tive que roubar meu gado, que ele falou que ia
mandar pro fome zero

AJ: Então eu tomei uma multa por causa disso de um milhão e cem. O que eu preciso? Eu preciso ….Você recebeu uma notificação deles (Ibama) para tirar o gado?

Clésio: Mas tirei ô, minha parte já fiz todinha.

AJ: Então… eu preciso, cê puder me mandar a notificação

Clésio: Como assim?

AJ: Eles te entregaram uma notificação pra cê tirar o gado?

Clésio: Entregaram…

AJ: Então, essa notificação que eu preciso dela, porque eles mandaram para mim uma multa de um milhão e cem! Por estar descumprindo o embargo. E outro, a área não é minha lá, tem CAR (Cadastro Ambiental Rural), tem CAR, tem laudo que é de vocês entendeu?

A operação da Polícia Federal foi feita em conjunto com o Ministério Público Federal, o Ibama e a Receita Federal. A PF explica que rios voadores são “cursos de água atmosféricos”, formados por massas de ar carregadas de vapor. São essas massas de ar que chegam ao Sudeste e Sul do Brasil, provocando chuvas. O desmatamento afeta a formação dos “rios voadores” e provocam seca no Sudeste.
 
Desmatamento científico

Foram cumpridos 24 mandados de prisão preventiva, nove mandados de condução coercitiva e 19 mandados de busca e apreensão em municípios do Pará (Altamira, Anapu e Novo Progresso), de São Paulo (Araçatuba, Itápolis, Presidente Prudente, Sandovalina e São Paulo), de Mato Grosso (Alta Floresta, Barra do Garças, Cuiabá, Guarantã do Norte, Peixoto de Azevedo, Porto Alegre do Norte, Rondonópolis, Sinop e Sorriso), de Mato Grosso do Sul (Ponta Porã) e de Santa Catarina (São José).

O desmatamento seguia critérios científicos. As árvores com copas mais altas eram preservadas para que as demais espécies fossem derrubadas sem que o crime pudesse ser identificado pelos satélites de detecção de desmatamento.

Com o objetivo de evitar futuras fiscalizações do Ibama, Antônio José Junqueira Vilela Filho monitorava, via satélite, as queimadas feitas pelo grupo criminoso.

Índios denunciaram 

A denúncia sobre a atuação da quadrilha foi feita pelos indígenas Kayapó da Terra Indígena Menkragnoti, de Altamira. Por meio de radiocomunicação amadora os índios verificaram que os acampamentos organizados pelos desmatadores eram muitos e estavam estrategicamente distribuídos pelo território.

Uma comissão de lideranças indígenas foi a Brasília e relatou o caso ao Ibama, que em abril de 2014 promoveu operação Kayapó, de combate ao desmatamento no interior e no entorno da TI.

Guiados pelos índios, servidores do Ibama encontraram e desmontaram os acampamentos. Os trabalhadores escravizados foram entrevistados, o que possibilitou a identificação das lideranças da quadrilha.

Em seguida, o Ibama, aliado aos Kayapó, aumentou a vigilância em terra. Essa maior presença de fiscais na área pode ter mudado as estratégias de atuação da quadrilha. O Ibama suspeita que a organização criminosa passou a utilizar aviões agrícolas para sobrevoar as áreas invadidas e lançar coquetéis molotov e o herbicida conhecido como agente laranja. O plantio de capim também passou a ser feito por meio de pulverização aérea, segundo o Ibama.

Após estudar a dinâmica de atuação do grupo, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) lançou satélites com melhor resolução de imagem, que detectam o desmatamento ocorrido abaixo das copas de árvores mais altas, informa o Ibama.

Rios Voadores - O título da operação é emprestado do nome dado ao fenômeno natural responsável por transportar um imenso volume de umidade e de vapor de água da Amazônia até outras regiões do Brasil, como o centro-oeste, o sudeste e o sul.

Segundo ambientalistas, a quantidade de água da bacia amazônica carregada por essas massas de ar chega a ser superior à escoada pela foz do Amazonas, o maior rio do mundo.

Quando eles passam sobre São Paulo, podem conter 27 vezes o volume do rio Tietê, o que equivale a 115 dias da média de consumo de água da cidade, informou  durante a conferência Rio +20 o ambientalista Gérard Moss, um dos pesquisadores do tema. 

Prisão preventiva e condução coercitiva
 

A prisão preventiva é uma modalidade de prisão determinada pela Justiça para impedir que o acusado (réu) atrapalhe a investigação, a ordem pública ou econômica e a aplicação da lei.

O réu pode ser mantido preso preventivamente até o seu julgamento ou pelo período necessário para não atrapalhar as investigações.

A condução coercitiva é o meio pelo qual determinada pessoa é levada à presença de autoridade policial ou judiciária.

Mandados de prisão preventiva expedidos contra:
 
Adilce Eleotério Garcia, o Panquinha
Adriano Campos de Almeida
Antônio José Junqueira Vilela Filho
Arnildo Rogério Gauer
Bruno Garcia Almeida
Cláudio Roberto Bratz
Clesio Antonio Sousa Carvalho
Douglas Dalerto Naves
Edson Mariano da Silva
Eremilton Lima da Silva
Evaldo Mulinari
Francisco Antônio Junqueira Franco
Jerônimo Braz Garcia
Jhonatham Brito Medeiros
Laura Rosa Rodrigues de Sousa
Leilson Gomes Maciel
Luciano Bello Lorenzoni
Márcio Kleib Cominho
Nélio  ngelo Santiago
Nilce Maia Nogueira Gauer
Thiago Bello Lorenzoni
Ramão Benites Gimenes
Ricardo Caldeira Viacava
Rodrigo Siqueira Pereto

Mandados de condução coercitiva expedidos contra:
Alisson Fernando Klimek
Ana Luiza Junqueira Vilela Viacava
Ana Paula Junqueira Vilela Carneiro Vianna
Cleber Rodrigo de Oliveira
Clemar José Fais
Dione Regina de Lucca
Eduardo Góes da Silva
Fábio Brustolin Giaretta
Heládio Cezar Menezes Machado

Proibição de comunicação com arrendatários citados na investigação, proibição de deslocamento de município e controle por monitoramento eletrônico contra:
Antônio José Rossi Junqueira Vilela

Mandados de busca e apreensão expedidos para os endereços das seguintes pessoas físicas e jurídicas:
 
A. E. Garcia Comércio e Trasnporte ME - Panquinha Compra de Gado (Altamira/PA)
Adilce Eleotério Garcia, o Panquinha (Altamira/PA)
Adriano Campos de Almeida (Novo Progresso/PA)
Antônio José Junqueira Vilela Filho (São Paulo/SP)
Bruno Garcia Almeida (Sinop/MT)
Ecritório Campos Organização Contábil (Presidente Prudente/SP)
Edson Mariano da Silva (Novo Progresso/PA)
Empresa Adepará de Castelo dos Sonhos (Altamira/PA)
Fertimig Fertilizantes Ltda (unidades de Rondonópolis/MT e Sorriso/MT)
Jeronimo Máquinas Ltda – ME (Sinop/MT)
Jerônimo Braz Garcia (Sinop/MT)
Jhonatham Brito Medeiros (Sinop/MT)
Nilce Maia Nogueira Gauer (Guarantã do Norte/MT)
Ricardo Caldeira Viacava (São Paulo/SP)
Sociedade Comercial AJJ S.A (São Paulo/SP)
Sociedade Comercial do Rochedo (Cuiabá/MT)
Sociedade Empresária Terra Engenharia-PA (unidades de Altamira/PA e Novo Progresso/PA)

Do blog Ver-o-Fato, com PF e MPF.


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