VER-O-FATO: MARGA ROTHE: A JARDINEIRA QUE PLANTOU BOAS SEMENTES E DEIXOU VALOROSAS LIÇÕES

sábado, 4 de junho de 2016

MARGA ROTHE: A JARDINEIRA QUE PLANTOU BOAS SEMENTES E DEIXOU VALOROSAS LIÇÕES



 
O Pará que não lê, não se informa sobre fatos de seu interesse e nem valoriza pessoas que se dedicam de corpo e alma às causas sociais nas quais acredita,  talvez nem saiba quem foi ela e o que fez por este Estado e sua gente. 
 
Quem ao lado dela, porém, nunca deixou de combater as injustiças, a tortura policial, as ameaças contra testemunhas  e  as violações de direitos de pessoas pobres jamais deixará de lembrar da pastora luterana Rosa Marga Rothe, que hoje, aos 76 anos, partiu para o plano superior. 
 
Tive a honra de estar ao lado de Marga Rothe quando ela ajudou a fundar a Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos (SPDDH) num tempo em que muita gente tinha medo de abrir a boca, expor-se  e dizer o que pensava, temendo sofrer represálias dos poderosos de plantão a serviço do regime militar.  
 
Fui um dos assinantes daquela ata de fundação da SPDDH, que anos atrás vim a saber foi roubada da sede da entidade. Soube, por diversas fontes, que o documento fôra roubado de dentro da SPDDH por um araponga do antigo Serviço Nacional de Informações (SNI). 
 
Um episódio no mínimo estranho, mas sintomático daqueles tempos sombrios de vigorosa censura à imprensa que vivi, também na condição de repórter. Marga, com seu jeito calmo, mas firme, sempre semeou apoios e alianças em favor do retorno da democracia.
 
Mulher admirável e que jamais virou as costas aos que a procuravam, principalmente pessoas que sequer tinham dinheiro para pagar um advogado e numa época em que a Defensoria Pública ainda não existia, ela encarou batalhas quase perdidas e venceu muitas. Em 2004, quase 30 anos depois de fundar a SPDDH, sua luta foi reconhecida com o premio Direitos Humanos, na categoria segurança pública, que lhe foi outorgado pela presidência da República. 
 
A alemã de nascimento, que migrou para o Brasil, passou 20 anos em Minas Gerais, mas nos deu a satisfação de adotar o Pará como a terra onde viveu até seus últimos dias, ainda exerceu, dentre outras atividades, a ouvidoria da Secretaria de Segurança Pública, em 2004, criando iniciativas pioneiras, como o Programa de Proteção de Vítimas e Testemunhas e de Proteção para Defensores de Direitos Humanos.  
 
Por tudo que fez pelo Pará e pelo Brasil, Marga Rothe é daquelas pessoas especiais que passou pela vida plantando sementes e deixando importantes lições para todos nós.
 
Descanse em paz, Marga Rothe. 

  

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