sábado, 7 de maio de 2016

O FUTEBOL FEMININO PULSA EM BELÉM, APESAR DA DISCRIMINAÇÃO E DE MUITAS DIFICULDADES

Vale a pena reproduzir a bela matéria de Kamilla Santos, do site Outros 400, sobre a realidade do futebol feminino no Pará. O Paysandu retomou a atividade e deve disputar o campeonato deste ano, que começa no próximo dia 15. Está na hora de apoiar a iniciativa e que outros clubes, como o Remo, surjam também, mas com estrutura e apoio às atletas. Veja a matéria do Outros 400.

Kamilla Santos

Sem apoio, sem patrocínio e distantes da realidade masculina: as equipes femininas de paraenses lutam para se manter. Ainda assim, o futebol pulsa entre as mulheres de Belém. 

Tarde de quarta-feira no entorno do estádio do Mangueirão: sobre a grama sintética, o time do Paysandu treina para a temporada 2016. Sem torcida ou imprensa, a atividade, no Centro da Juventude (Ceju), não poderia ser do time masculino, que disputará duas finais nos próximos dias. Sob muita chuva e com o comando da treinadora Aline Costa, as atletas começam a chegar de bicicleta, mototáxi ou a pé. Reativado no ​mês de março, o time feminino do Papão treina há pouco mais de um mês, depois de anos sem realizar nenhum partida. A iniciativa ainda é pequena no cenário do futebol feminino. Embora a prática esportiva tenha sido oficializada em 25 de março de 1983, pelo Conselho Nacional de Desportos, as dificuldades enfrentadas pelas atletas ainda são as mesmas da década de 1980. No Pará, o cenário nacional se repete: discriminação, falta de apoio financeiro, patrocínio, visibilidade e reconhecimento são os principais desafios que as jogadoras enfrentam no cotidiano do futebol feminino paraense. No próximo dia 15, começa o Parazão Feminino.


Sob muita chuva, o time bicolor treinou na tarde da última quarta (4), no Ceju. Na última semana, duas jogadoras foram assaltas na saída do treino. (FOTO: Moisés Sarraf)

Diferentemente do futebol masculino, em que os jogadores são reconhecidos, conseguem patrocínio, apoio e altos salários, as mulheres do futebol paraense ainda estão alocadas na categoria “amadores”. E, para conseguir algum material esportivo ou apoio para disputar algum campeonato em outra cidade e fora do Estado, elas precisam bater de “porta em porta”. Uma falta de apoio, muitas vezes, que vem do próprio clube que estampa o seu brasão no uniforme das jogadoras. Na maioria das vezes, só recebem os créditos pelo esforço das atletas. E mais: no Ceju, onde treinam semanalmente, as atletas reclamam da falta de segurança. Na última semana, duas jogadoras foram assaltadas na saída do treino.

"E se nós quiséssemos uniforme e material pra treinar, a gente tinha que bater de porta em porta pra poder conseguir alguém que nos apoiasse.” 

“Em alguns times que passei, eles só emprestavam o nome pra gente competir e o espaço pra gente treinar", relata Talita, capitã do time feminino de futebol bicolor. "E se nós quiséssemos uniforme e material pra treinar, a gente tinha que bater de porta em porta pra poder conseguir alguém que nos apoiasse.” Talita, jogadora há 15 anos, iniciou sua carreira na cidade de Paragominas, sudeste paraense, aos 11 anos. Hoje, com 27 anos, ela conta que a jogadora paraense, como na maior parte do Brasil, tem que enfrentar uma dupla jornada: as atletas têm que se dividir entre o esporte e alguma outra profissão. “A ajuda de custo que recebemos é boa, mas ainda não é suficiente para que a gente possa se dedicar totalmente ao futebol", lamenta Talita. "Talvez se tivéssemos salários como o masculino tem e mais patrocínios, a gente pudesse viver só do esporte."


Pelos gramados paraenses, a treinadora Aline Costa é referência. Ela foi treinadora da Tuna Luso nas campanhas nacionais. (FOTO: Moisés Sarraf)

Mas a esperança para que ocorram mudanças nesse cenário são grandes e sempre presentes. As palavras são de quem tem experiência nos gramados de Belém: a treinadora do time do Paysandu, Aline Costa, que também já dirigiu o time feminino da Tuna Luso. Desde 2003 no comando de equipes femininas, Aline tem três títulos paraenses, além de ​ dois​ quinto​s​ lugar​es​, com o time da Tuna, pela Copa do Brasil. “A dificuldade de todas as equipes é a falta de apoio financeiro para manter a categoria", introduziu a treinadora. "Hoje, temos uma condição bem melhor. Agora as meninas estão recebendo apoio, ajuda de custo. Quem sabe um dia chegamos pelo menos a receber 50% do salário do masculino?”

Das jogadoras do time, diz Aline, pelo menos 90% são remanescentes da equipe da Tuna Luso, que foi encerrada em 2013, depois de disputar a Copa do Brasil Feminina. "Todas as atletas que eram da Tuna estão comigo. Isso acontece porque sempre me esforcei para elas terem o mínimo de apoio da minha parte."

OPORTUNIDADE

Desde o dia 23 de março deste ano, o time feminino de futebol do Paysandu Sport Club foi reativado. O lançamento do Papão feminino é uma novidade comemorada por jogadoras e também por outras mulheres que veem nesse movimento uma chance de adentrar o futebol sem o preconceito do mundo masculino. As atletas paraenses encaram a iniciativa como uma oportunidade valiosa para o futebol feminino conseguir maior visibilidade e reconhecimento. “Ele (Paysandu) está nos abrindo uma porta e dando um apoio melhor", conta a lateral Perotes. "Com isso, a gente espera que outros times sigam o exemplo e se abram para muitas meninas que sonham em se tornar jogadoras profissionais."

ESMAC

As atletas sabem da importância do time feminino do Paysandu, mas também sabem dos problemas do cenário, no Pará e no Brasil. "Precisamos de estrutura. A gente não recebe um salário, a gente recebe uma ajuda de custo", lamenta a volante Lana Santos, 22, que é formada em Administração. "Então, temos que ter outra profissão para poder se manter jogando futebol, fazendo o que a gente gosta." A zagueira Keila Freire, 22, dispara: o futebol feminino está muito abaixo do masculino. "Tanto com relação a salários, quanto no marketing, está abaixo. Não tem divulgação", critica Keila, que é formada em Administração. "Fora do Pará, o futebol feminino é muito divulgado, mas no Pará não dão valor." Ambas concluíram o ensino superior por meio do futebol.

Administradora e zagueira da equipe do Paysandu: Keila se divide para poder atuar nos gramados paraenses. (FOTO: Moisés Sarraf)

É que elas receberam bolsas universitárias para atuar pelo time da Escola Superior Madre Celeste (ESMAC), onde concluíram seus cursos. Foi com esse mecanismo que o time foi criado em 2009, conseguindo o título em 2012. Desde então, vem apostando nessa modalidade desportiva. Para o diretor de esportes e treinador do time feminino da Esmac, Mercy Nunes, o retorno do time do Paysandu trouxe um novo gás ao Campeonato Paraense Feminino deste ano. "O campeonato local é o objetivo número um do nosso planejamento. Este ano, o time a ser batido é o Paysandu, mas estamos com bastante expectativas, porque o nosso plantel está muito forte", conta o treinador, que aposta no retorno, este ano, da atacante Priscila Albuquerque, que foi destaque do Brasileirão pelo time da Ferroviária-SP.

"Tanto no futebol nacional quanto no local a visibilidade é pouca para nós, mulheres. O incentivo é pouco e o reconhecimento, também."
Priscila foi uma das felizardas a ser reconhecida nacionalmente em função do seu talento no futebol. Ela conta que ganhou visibilidade na Copa do Brasil em 2014, quando fez o gol da vitória da Tuna, que à época mantinha uma parceria com a Esmac. Ela está no time da Ferroviária desde maio de 2015 e, este ano, pretende disputar o Paraense no seu time de origem. Ela também criticou o cenário do futebol feminino. No Estado, ainda mais precarizado que nacionalmente. "Tanto no futebol nacional quanto no local a visibilidade é pouca para nós, mulheres. O incentivo é pouco e o reconhecimento, também", afirma Priscila. "Mas quando a gente está em um time grande, a gente pode se dedicar totalmente ao esporte porque eles pagam salário e fornecem melhor estrutura", conta Priscila, ressaltando que "na Esmac, há muito incentivo, principalmente nos estudos".
Para a preparação, a instituição, junto com alguns parceiros, garante o básico para o esporte, como estrutura de treinos, mas vai além. A Esmac incentiva as atletas com bolsa integral no ensino e ajuda de custo de transporte e alimentação, além de fornecer residência para as atletas que vêm de outros municípios paraenses. "Isso tudo é uma forma de compensar o esforço e o talento das nossas jogadoras, já que não podemos pagar um salário pra elas", comenta Nunes.
RETORNO

Mas o futebol feminino tem de voltar: está na lei. A formação da equipe de mulheres é uma das obrigações que devedores do Ministério do Esporte têm que cumprir. Tudo em obediência à Lei Nº 13.155/2015, que institui parcelamentos especiais para recuperação de dívidas pela União e estabelece princípios e práticas de responsabilidade fiscal e financeira, além de gestão transparente e democrática para entidades desportivas profissionais de futebol, entre outras ações.  Práticas e diretrizes também conhecidas como Programa de Modernização da Gestão e de Responsabilidade Fiscal do Futebol Brasileiro (Profut). A lei de agosto de 2015 estabelece o seguinte: para que as entidades desportivas profissionais de futebol mantenham-se no Profut é exigido a manutenção de “investimento mínimo na formação de atletas e no futebol feminino e oferta de ingressos a preços populares”.

FORMAÇÃO


Na ausência de divisões de base, as arenas da Região Metropolitana de Belém são o palco onde se formam as futuras jogadoras profissionais. (FOTO: Kleyton Silva)

Se faltam recursos para o futebol profissional, a formação das atletas é ainda mais precária. Mas, se faltam escolinhas femininas, sobram campos e arenas onde o futebol também encontra o seu caráter de lazer. E, embora o primeiro time feminino brasileiro de futebol tenha sido “O bloco das Palmeiras”, formado em 1924, na capital paraense, ainda, hoje, pouco se ouve falar dessa categoria desportiva. Mas, assim como no futebol amador feminino dos grandes clubes, desistir do esporte não está na perspectiva das meninas que ocupam as arenas da Região Metropolitana de Belém. Com a falta de incentivo e patrocínio, porém, o sonho de se tornarem profissionais quase não exista mais.

Jogadora há 20 anos, Maria Costa atualmente disputa o Campeonato de Arenas do Distrito Industrial, em Ananindeua, pela equipe "As Apimentadas". Ela conta que o objetivo de sua prática no esporte é brincar e se divertir, e não pensa mais em jogar profissionalmente, como sonhava quando era adolescente. “O time em que eu jogo quase todo mora na mesma rua. Agora a gente se reúne pra brincar, apenas", relata Maria Costa. "Não tem mais aquele sonho de jogar em time grande. Nós, basicamente, crescemos juntas e hoje nossas filhas também jogam com a gente.”

Maria Costa tem 20 anos de futebol nas costas: faz parte da equipe "As apimentadas" e treina nas noites de Ananindeua. (FOTO: Kleyton Silva)

Para Roseane Dias, jogadora há dois anos do time “As panteras”, também do Distrito Industrial, a situação do futebol feminino nas periferias é bem crítico. “Somos completamente invisíveis pra muita gente, mas o nosso futebol existe e precisa de apoio e patrocínio." A jovem destaca, ainda, que em períodos eleitorais surge a figura do vereador ou deputado prometendo patrocínio. Na prática, as promessas não se cumprem. “Não podemos continuar sendo esquecidas e recebendo promessas vazias de patrocínio eleitoreiro. Isso acaba com o nosso sonho de nos tornarmos jogadoras profissionais."

CLUBE DO REMO

No início deste ano, a Esmac e o Clube do Remo dialogaram sobre uma possível parceria e reativação do futebol feminino do Leão. Contudo, de acordo com o vice-presidente do Remo, Fábio Bentes, o clube passa por um processo de reestruturação e ainda não foi possível implementar o projeto. Ele afirma que até o final do ano o time estará instituído. "Hoje o clube passa por um processo de reestruturação e não dá pra abrir muitas frentes em vários esportes, em várias modalidades. Mas pretendemos apoiar, sim, e retomar o time até o fim do ano, em cumprimento à exigência do Profut", esclarece.

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