domingo, 10 de abril de 2016

SINDICALISTA TEM CASA INVADIDA, É ESPANCADO E SOFRE ATENTADO A TIROS EM BARCARENA

Bosco Junior: "ainda estou abalado, me sinto inseguro e não confio na polícia civil de Barcarena"
Depois de ser agredido a chutes e socos, o sindicalista levou 4 tiros. Nenhum o acertou.

O líder da Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar (Fetraf) em Barcarena, Bosco de Oliveira Martins Junior, foi vítima de um atentado no começo desta manhã de domingo em sua residência. Eram por volta de 7:30 quando quatro homens, três deles armados, invadiram a casa do sindicalista e, com armas apontadas para a cabeça de seus filhos menores, o obrigaram a entrar no carro de sua propriedade e dirigi-lo para sair do local na companhia dos pistoleiros, provavelmente para ser assassinado em alguma área distante do bairro. 

"É para matar lá fora", dizia um homem moreno, de arma em punho, temendo executar Bosco diante de testemunhas. Como relutasse em obedecer as ordens dos bandidos, Bosco foi espancado pelos homens diante dos familiares, que se desesperaram e começaram a gritar, principalmente as crianças. 

Nervosos, os pistoleiros determinaram que todos se calassem sob pena de matá-los, a começar pelo próprio Bosco. Levado até seu carro, o sindicalista, num descuido de seus algozes, correu em ziguezague entre as árvores pelo terreno na residência, enquanto os pistoleiros disparavam vários tiros em sua direção.

Com os gritos de familiares e a fuga de Bosco para a mata, os quatro homens fugiram do local. "Eu vi a morte de perto e temo, ainda mais, por minha vida e de meus familiares", contou Bosco, por telefone, ao blog Ver-o-Fato". Ele ainda sente as dores pelo corpo dos chutes e socos que levou dos homens que queriam sequestrá-lo para matar. 

Bosco, desde o ano passado, tem sofrido ameaças de morte e agressões na área da comunidade Fazendinha. Não apenas ele, mas outras lideranças comunitárias e quilombolas da região. Em junho de 2015, o fotógrafo e cinegrafista Herlon Peres de Oliveira, que presta serviço ao Grupo RBA, foi agredido com uma coronhada. 

Por não confiar na polícia local, Herlon  esteve na Delegacia de Repressão aos Crimes Organizados (DRCO), em Belém, onde depôs sobre a ameaça e agressão sofrida. Com ferimento na cabeça, o fotógrafo contou que um dos homens disse que não era para ele se me meter onde não era chamado. E o outro dizia: ‘apaga ele, apaga ele’”, lembrou. Ele trabalha como repórter fotográfico há 8 anos. 

Na profissão, recorda, nunca passou por momentos de tortura e perseguição, como neste episódio. Ele relatou no depoimento que além da agressão que sofreu de dois homens, recebendo ferimentos na cabeça oriundos de coronhadas de revólver, também estava dentro da Kombi contra a qual foram feitos disparos de arma de fogo. 

Herlon narra que foram feitos primeiramente cinco disparos e depois mais oito. O objetivo, na avaliação do fotógrafo, era intimidar os moradores e representantes das comunidades que estavam no veículo. O sindicalista Bosco Oliveira Martins confirmou as declarações de Herlon, acrescentando não ter sido possível anotar a placa devido a escuridão na rua, mas afirma que era uma L-200, de cor verde, toda peliculada.
 
ATENTADO A TIROS CONTRA KOMBI, COMUNITÁRIOS E FOTÓGRAFO

As pessoas que estavam dentro da Kombi, de acordo com Bosco, ficaram desesperadas e gritavam, temendo o pior, que não aconteceu porque a Kombi entrou uma rua onde se realizava uma festa, o que chamou a atenção das pessoas que estavam no local. A L-200, logo em seguida, saiu em disparada, desaparecendo. Além de Herlon, Bosco e Maria do Socorro também foram ouvidos os líderes comunitários Paulo César Barbosa de Castro, Antônio Cristo do Espírito Santo Lima, Antônio José Monteiro Ribeiro, Luiz Augusto Rodrigues, Maria Izete Campinas da Silva, Maria da Conceição da Silva Azevedo, Maria José Rodrigues Pontes e Carlos Alberto de Jesus Monteiro, que também eram passageiros da Kombi. 

Eles falaram dos “momentos de terror” que viveram nos minutos em que os tiros foram disparados em direção ao veículo que ocupavam. Todos foram unânimes em declarar que o atentado seria em razão “das denúncias de crimes ambientais praticados pela Bunge no Furo do Arrozal”. O problema é que as denúncias e registros em Boletins de Ocorrência na Delegacia de Vila dos Cabanos não surtem qualquer efeito. A acusação das lideranças é de que a própria delegada local, Quésia Pereira Cabral Dórea, estaria praticando várias ilegalidades no município, protegendo criminosos e perseguindo quem denuncia os poderosos no município. 

Em dezembro do ano passado, o advogado Ismael Moraes, defensor de várias comunidades da região que tem sofrido agressões ambientais de grandes multinacionais, como a Bunge, fez representação contra a delegada Quésia na Delegacia-Geral, mas nenhuma providência foi tomada para investigar o que foi relatado por Moraes. Pelo contrário, a delegada ficou ainda mais fortalecida para continuar a prática de suas arbitrariedades. Prova de que a  delegada tem as costas quentes na Polícia Civil, protegida por algum figurão. 

Um plano para matar Bosco, agora executado na manhã deste domingo, mas felizmente fracassado, já havia sido denunciado ainda em dezembro por Ismael Moraes, que também apontou um esquema pago para forjar flagrantes de estupro e outros crimes contra o dirigente da Fetraf. 

PM TAMBÉM RECLAMA DO TRABALHO DE DELEGADA

"Nem a Polícia Militar de Barcarena confia no trabalho dessa delegada, pois a PM prende bandidos perigosos e traficantes e a delegada os solta. E ouvi isso hoje de manhã em minha casa, após o atentado que sofri, da boca de um sargento. Ele contou que no próprio comando da PM no município já teria havido uma reunião para pedir a saída da delegada do município", relatou o sindicalista. 

Segundo Bosco, outra liderança da região, dona Socorro, da comunidade quilombola, também foi atacada semana passada em sua residência por criminosos que teriam uma lista de pessoas a serem eliminadas no município por defenderem comunidades ribeirinhas, o meio ambiente e os direitos humanos em Barcarena. "Além de grandes empresas que praticam crimes ambientes em Barcarena, gente da Polícia Civil, como a delegada Quésia e o prefeito Vilaça estariam por detrás dos atentados", desabafou Bosco. 

Ele resumiu que se sente "inseguro de registrar até o BO do atentado que hoje sofri juntamente com minha família, porque não confio na Polícia Civil, principalmente na delegada Quésia". O Ver-o-Fato, apesar de tentativas, não conseguiu falar com a delegada e o prefeito de Barcarena.

As lideranças das entidades da região que se sentem ameaçadas  devem  encaminhar um relatório ao Conselho Nacional dos Direitos Humanos da Presidência da República, à Anistia Internacional, à Organização das Nações Unidas (ONU), além da Ordem dos Advogados do Brasil e à Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos, denunciando os atentados e ameaças de morte  que ocorrem diariamente em Barcarena sob a completa omissão - quem sabe, conivência - de autoridades do governo estadual.

São mortes anunciadas. E carimbadas pelo silêncio dessas autoridades.       

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