VER-O-FATO: RATOS, CAITITUS E A PANELA DO PODER

quinta-feira, 21 de abril de 2016

RATOS, CAITITUS E A PANELA DO PODER

Na floresta, o caititu não sobrevive fora do bando. Na política, há controvérsias

 
Em menos de 15 dias – antes e pós-votação do impeachment de Dilma Rousseff pela Câmara dos Deputados -, o senador paraense Jader Barbalho (PMDB) produziu duas metáforas para demonstrar sua afeição ao poder e a dificuldade de viver sem ele. 

A primeira metáfora saiu da boca de Jáder ao ser indagado se, diante da debandada de integrantes do seu partido da aliança governamental, faria o mesmo. Sua resposta: “só os ratos abandonam o navio”. De fato, embora o navio estivesse indo ao fundo, não havia razão para pular da embarcação, porque o queijo ainda era farto e generoso, apesar da iminente ameaça de naufrágio.

Rato, como se sabe, adora queijo e se arrisca como pode em busca do alimento. A lógica do animal roedor encaixa-se como luva no ambiente político do poder humano. Enquanto há comida, não há motivo para se preocupar. Jader, como político ensaboado,  sabia o que estava dizendo. Entende, como poucos, de sobrevivência em condições adversas. Até sob ondas do mar revolto quando cobrem sua embarcação. 

Vieram os dias de aperto e a debandada do PMDB cresceu como bola de neve. A água começou a entrar por todos os lados do navio e o naufrágio era apenas questão de minutos. Impassível, Jader não se abalou. Tratou de proteger o filho no compartimento do Ministério dos Portos, mesmo quando outros caciques peemedebistas, em pânico, atiravam-se da embarcação quase naufragada, abrindo mão de seus cargos no Titanic governista. Apesar da sedução do estoque de queijo e dos acenos desesperados da comandante Dilma. A oferta parecia a última refeição de um condenado à morte.

Podem acusar o senador de tudo, menos de deslealdade. Ele é firme em suas convicções e apoios, a não ser, é claro, quando sente que há risco de perder posição no poder e, por via de consequência, faltar alimento para mantê-lo. Mas, convenhamos, de que adianta ter queijo se a água começa a chegar ao pescoço e aumenta o risco de afogamento? Aí, nem Jader aguenta, não é mesmo? Ele tem seus limites, que não são exatamente os mesmos de suas ambições. Como amante do poder, Jader também assemelha-se às plantas e padece de heliotropismo: ou seja, não vive sem a luz do sol.

O resultado do impeachment e a derrota fragorosa de Dilma – em meio a gritos alucinados de “golpe” e “traição”, proferidos dentro da embarcação planaltina, foram o alerta definitivo de que o Titanic petista-peemedebista havia ido ao fundo. E o que fez Jader, após constatar que, dentro daquele navio inapelavelmente no fundo, não havia salvação?

Pulou no bote já superlotado de náufragos de Michel Temer, salvando o filho, Helder. E no momento do salto, como um filósofo de banco de praça, soltou a pérola da segunda metáfora: “caititu fora do bando vira comida de onça”.

Realmente, a solidão apavora qualquer caititu, esteja ele na mata, correndo risco de virar comida de onça, esteja ele, para corroborar a metáfora política, comendo na mesma gamela do poder. Melhor, para o caititu, é procurar seu bando e proteger-se de eventual ataque.  A onça ronda o vice, mas agora ele não está sozinho.

Temer tem mais um caititu ao seu lado para alimentar.

Um comentário:

  1. Realmente de gamela o próprio entende muito bem, está acostumado a todo tipo de gamela, desde que tenha ração... aí está. Vamos ver qual é a próxima conspiração.

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