VER-O-FATO: O MORTO QUE ASSOMBRA PODEROSOS

sábado, 2 de abril de 2016

O MORTO QUE ASSOMBRA PODEROSOS

 
Oswaldo Coimbra - Jornalista e escritor
 
Não poderia mesmo ter sido diferente. O corpo de Edson Luís de Lima Souto, o jovem morto, exposto sobre uma mesa, monopolizou, nas últimas quatro décadas, a atenção das pessoas que viram aquela fotografia em branco e preto, inicialmente mantida no arquivo da Folhapress, depois postada na internet. Como não notar no rosto de Edson, a serenidade de quem dorme relaxado? Com lábios grossos entreabertos, narinas e sobrancelhas bem delineadas, cabelos intensamente negros, espalhados por seu corpo. O peito nu como um Guevara, na época de sua juventude. Aquele guerrilheiro argentino mostrado, seis meses antes, numa lavanderia de Vallegrande, interior da Bolívia. E, como Edson, morto desarmado, por tiros de armas de policiais, dados à queima roupa.
 
No dia 9 de outubro de 1967, o cadáver de Guevara foi mostrado como um troféu. Grande conquista dos órgãos de repressão política da América Latina. O guerrilheiro era um mito cultivado pelas organizações revolucionárias do continente. E a exposição do cadáver de um líder inimigo como ele servia para intimidar e a inibir movimentos de oposição aos regimes autoritários vigentes, àquela altura, nos países da região. Quando, porém, eliminavam pessoas comuns, as forças de repressão política adotavam um comportamento oposto. Sumiam com os corpos delas. E sustentavam que não tinham ligação alguma com seus desaparecimentos.
 
O corpo de Edson Luís se manteve visível, despertando continuamente a atenção de quem vê a foto, não porque ele se distinguisse dos brasileiros comuns. Imigrante paraense, de 18 anos de idade, chegado ao Rio havia poucos meses, Edson fora uma criatura como tantas outras do país, nascidas em famílias grandes e sem recursos. Forçado a parar de estudar em Belém, no Rio, ele quis recuperar o tempo perdido. Matriculou-se no curso supletivo da União Metropolitana dos Estudantes. E, para se manter, fazia pequenos serviços. Quando sentia fome, ia para o Calabouço, restaurante estudantil, onde estudantes sem dinheiro podiam se alimentar. 

No dia 28 de março de 1968, ele e mais cerca de 600 estudantes estavam ali. Enquanto as refeições eram servidas uma passeata estava sendo preparada. Iriam reivindicar a construção de um restaurante com instalações melhores. Além de mais verbas para que ele pudesse atender adequadamente sua clientela, sobretudo nas exigências de higiene. Pois, não era raro acontecer que, no Calabouço, alguma barata surgisse no meio da comida de um prato já posto numa mesa. 

Foi quando, de repente, o restaurante sofreu uma invasão de policiais que tinham ordens para quebrar tudo ali e fechar aquele local considerado pelas autoridades como antro de subversão estudantil no Rio de Janeiro. A invasão descrita pelo Diário de Notícias no dia 29 de março: “Surgiram os carros da PM e o cerco foi feito: dois na frente do prédio, quatro atrás. Às 18h30m, os policiais avançaram, em direção à entrada do restaurante. Os estudantes procuraram defender-se, usando pedras e sacos de areia. Começaram os disparos: os soldados da PM atiravam para o alto, de início, mas logo passaram a acionar suas armas em todas as direções” . 

As pedras jogadas pelos estudantes lembravam as intifadas dos atuais adolescentes da Palestina ao se defenderem das tropas invasoras de Israel. O comandante do Batalhão Motorizado da PM, tenente Alcindo Costa, irritado, sacou sua pistola calibre 45 e alvejou Edson no peito. Ele caiu ensanguentado, mas a violência policial não parou. Mais seis jovens ficaram feridos por estilhaços de granadas e lançamento de bombas de gás lacrimogêneo. Catorze outros foram presos. Tem, vê-se, assim, antecedentes históricos a agressividade com que a Polícia de São Paulo, há poucos meses. tratou estudantes da rede pública de ensino que queriam somente participar das decisões sobre o destino de suas escolas. 

Daqueles feridos no Calabouço não restou nenhuma imagem. Apenas seus nomes. Preservados porque permaneceram nos registros do Hospital Souza Aguiar, para onde els foram levados: Benedito Frazão Dutra, Telmo Matos Henriques, Antônio Inácio de Paulo, Walmir Gilberto Bittencourt, Olavo de Souza Nascimento e Francisco Dias Pinto. Benedito recebeu os primeiros socorros, mas não resistiu. Morreu, pouco depois. Sua morte sumiu dos jornais e livros de História. O mesmo não iria acontecer com Edson, decidiram os companheiros deles, sobreviventes. Estavam cansados, assustados e chocados mas iriam cuidar do corpo do companheiro, mantendo uma vigilância solidária e inteligente. 

Quando representantes do governo quiseram levar o cadáver de Edson para o IML, eles impediram. A ajuda oficial que as mesmas pessoas lhes ofereceram para as despesas com o enterro também foi rechaçada. Em substituição ao dinheiro ofertado pelo Governo do Estado, alguns estudantes levaram a camisa de Edson, manchada de sangue, até uma rua próxima. E, ali, instalaram um posto de coleta de contribuições dos transeuntes e motoristas. Contudo, os jovens aceitaram o oferecimento feito por parlamentares da oposição do prédio da Assembleia Legislativa. Lá eles poderiam realizar um velório público.
Logo, aquelas decisões se mostraram acertadas. 

Quando foi carregado o caixão com o corpo de Edson até a Assembleia Legislativa se formou um cortejo. No dia seguinte o Jornal do Brasil noticiou: “O corpo foi erguido nos braços da multidão que entoava o brado: ‘Polícia assassina’". Montado o ambiente do velório - prossegue o jornal - “ali, houve, durante a noite, vários comícios estudantis, de protesto violento contra o Governo. E uma multidão postou-se, até à madrugada, na expectativa dos acontecimentos”.  No prédio da Assembleia Legislativa, os estudantes exigiram que fosse preparado o laudo oficial da causa mortis. Um documento foi emitido pelo legista Nilo Ramos. Confirmou o “tiro único no peito esquerdo que transfixou o coração e o pulmão direito”. Nilo acrescentou: “não foi um tiro a esmo”. 

No dia seguinte - informou O Dia -: "Milhares de pessoas desfilaram, das 6 às 15 horas, diante do corpo do estudante. Cinco mil pessoas, aproximadamente, se aglomeravam em frente à Assembleia”. O Dia cobriu mais tarde o enterro: “Com a presença de milhares de pessoas, na grande maioria estudantes, realizou-se, às 19h30, no Cemitério de São João Batista, o sepultamento do jovem. O enorme número de acompanhantes atrasou sensivelmente o enterro, já que o caixão teve de permanecer por mais de uma hora à porta do Cemitério, aguardando que a massa humana fosse retirada da frente. 

Com colegas do morto revessando-se na condução da urna mortuária, o cortejo fúnebre tomou a Avenida Beira-Mar. Dezenas de coroas, a maioria ofertada por Diretórios Estudantis, foram depositadas na quadra 14, em frente à gaveta 602, última morada do jovem Luís. Os gritos de "Vingança!" e de "Assassinos!" se sucediam. Ao mesmo tempo em que faixas eram desfraldadas. Entre elas registramos uma dirigida às mulheres: "Senhoras, Edson poderia ser seu filho!".

Exemplares dos periódicos em circulação no Rio de Janeiro, continuaram exibindo manchetes como estas nos dias posteriores: Correio da Manhã: “PM mata estudantes durante invasão”, “Assassinato”. Última Hora: “Polícia mata estudante - Morte no Calabouço”, “PM mata estudante à bala na rua”; “Morreu nos braços dos companheiros”. Diário de Notícias: “Polícia mata Estudante”; “A ordem era quebrar tudo: PM acabou massacrando estudante”. Jornal do Brasil: “Assassinato leva estudantes à greve nacional. O Jornal: “PM fuzila estudante no Cabouço. O Dia: “Milhares de pessoas no funeral do estudante”. A estrondosa repercussão daquele assassinato terminou abalando o País. 

Resumiu-a assim o Diário de Notícias, no dia 29 de março: luto oficial decretado pela Assembléia Legislativa da Guanabara; criação de comissão pedida no Congresso Nacional para investigação dos fatos ocorridos no Calabouço; luto decretado pelo próprio Congresso; demissão do Superintendente da Polícia, no Rio de Janeiro; suspensão das aulas em todos os estabelecimentos de ensino da Guanabara no dia do enterro de Edson; interrupção dos espetáculos nos teatros do Estado. Conclusão do Diário de Notícias: “O massacre virou crise”. Decorridos apenas dez meses, a Ditadura Militar assumiu sua feição mais dura, com a decretação do Ato Institucional número 5. 

O Congresso Nacional foi fechado, a censura à imprensa, à música, ao teatro e ao cinema se tornou esmagadora, todas as atividades e manifestações públicas políticas foram proibidas, foi instituída a liberdade vigiada dos cidadãos, cancelou-se o direito de votar e ser votado nas eleições sindicais, os militares passaram a ter poder para intervir nos Estados e nos Municípios, para caçar, por dez anos, os direitos políticos de qualquer cidadão; e para decretar o confisco de bens considerados ilícitos.

A resistência armada, então, se expandiu. E em novembro de 1969, o cadáver de Carlos Marighella líder guerrilheiro foi exibido através de jornais e emissoras de televisão. Neste caso, como troféu particular do delegado Sérgio Fleury, o maior torturador de presos políticos. Outro espetáculo semelhante em setembro de 1971, com a apresentação do cadáver do também líder da oposição armada Carlos Lamarca.
 
Simultaneamente prosseguiram ao longo dos vinte anos de duração da Ditadura Militar os desaparecimentos de brasileiros comuns que não aceitavam o regime vigente no País. Até hoje mais de 200 continuam na lista de desaparecidos políticos, sem que suas famílias tenha tido direito de velá-los e enterrá-los. E, o que é pior, a prática escandalosa jamais desapareceu completamente da vida nacional. Mortes de pessoas comuns que contrariam interesses de gente poderosa, por mais suspeitas que sejam as situações nas quais ocorreram, raramente merecem investigação policial isenta. Ao contrário, são logo afastadas da atenção da opinião pública. 

Dois casos de suicídios suspeitos acabam de acontecer. O de Lucas Arcanjo, que denunciou corrupção na cúpula do poder em Minas Gerais. Seu suposto suicídio ocorreu depois que ele sofreu três atentados, o último dos quais o levou à UTI de hospital. E o de Amilton Alexandre, que denunciou um caso de estupro em Florianópolis, envolvendo o filho de um diretor da poderosa RBS, afiliada da TV Globo.

Atualmente, sem dúvida, o corpo juvenil de Édson naquela foto continua a merecer seu lugar central. Mas os cinco jovens que o cercam – parte dos sobreviventes do massacre do Calabouço -, se tornaram hoje ícones nacionais. Encarnam a capacidade da parcela simples da população brasileira de surpreender os poderosos que descreem, com soberba e desprezo, da possibilidade de reação dela diante de seus abusos. Eles transformaram Edson no modelo do morto que não serve para intimidar opositores, embora ele tenha sido vítima dos esbirros dos mandachuvas, nem fica escondido da opinião pública, por não ter sido um líder oposicionista destacado.

Um morto que – eles dizem – é usado politicamente. Como se não tivessem sido políticos os objetivos com que trataram os cadáveres de Marighella e Lamarca, assim como os dos desaparecidos, no passado, e, com os de Lucas Arcanjo e Amilton Alexandre. Por isto, o cadáver de Edson é o modelo daquele que assombra atualmente grandes meios de comunicação e gente proeminente como Delfim Netto, ex-ministro da Ditadura Militar. E os cinco jovens estão homenageados aqui com a pintura digital de suas imagens pela fotógrafa Rafaela Coimbra.
 
Firmes na disposição de preservar à vista da Nação a tragédia de Edson, estes rapazes, no entanto, mostraram na foto que os combatentes do Calabouço eram pessoas afetuosas e profundamente interligadas entre si. Uma tépida intimidade criada pela proximidade física se estabelece na foto entre eles. Com toques corporais, inclusive no colega sem vida. Estão tensos e atentos como combatentes em serviço numa guarita de um forte. 

Suas expressões faciais retratam o trauma psicológico por que passaram, sublinhado pelas pontas dos lábios abaixadas. Nos cinco pares de olhos, quatro direções diferentes alcançadas. Dois deles olham, com gravidade, para o alto, como se acompanhassem as instruções dadas por alguém instalado num nível mais elevado, talvez, sobre uma cadeira. À frente dos dois, o colega observa o fotógrafo, com desconfiança e aparente amargura. No meio da dupla, o parceiro atento ao lado lateral daquele espaço. E, atrás, com as mãos sobrepostas, fortemente concentrado, o último rapaz, fita, pensativo, o colega morto.
 
Há também na foto um gesto espontaneamente amoroso quase despercebido. Sem um travesseiro à mão, aqueles rapazes quiseram que a cabeça de Edson ficasse dignamente levantada. Acomodaram-na então sobre o fichário escolar onde Edson fazia anotações durante suas aulas. Mais um afetuoso cuidado dispensado ao colega morto está em outra foto postada na internet. Nela, transportados na tampa do caixão que eles compraram, são transportados os sapatos de couro, pretos, enrugados pelo uso, mas caprichosamente engraxados, utilizados até horas antes por Edson. Vão calçá-lo para tornar ainda mais digna a aparência do seu corpo durante o velório.

Há por fim um gesto registrado somente nos noticiários dos jornais: depois que o corpo de Edson foi deitado no caixão, sobre seu peito já coberto, ao lado de cravos, os colegas puseram seu livro de Geometria. Quiseram eternizá-lo como estudante.

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