VER-O-FATO: A MANCHETE POLICIAL E O VÍCIO DO LEITOR

terça-feira, 5 de abril de 2016

A MANCHETE POLICIAL E O VÍCIO DO LEITOR

Entre 1990 e 1993, fui chamado pelo jornalista Walmir Botelho, falecido ano passado, para chefiar a reportagem do jornal “Folha do Norte”, de Belém. Na primeira reunião com ele, o Botelho me perguntou se eu tinha alguma ideia para fazer da “Folha” não um mero jornal, mas um jornal quente e polêmico.

Fui claro: “só temos uma saída, é carregar no noticiário policial, inovar na linguagem e caprichar nos títulos da página, puxando sempre para algo que venha a ser a manchete da capa da “Folha”. Eu tinha bons repórteres de polícia para botar em prática o projeto. Sem isso, nada acontece.

Era gente de peso, de larga experiência, como o Antônio Gouveia, o “Gouveião”, irmão do Ítalo Gouveia – que trabalhava em “O Liberal” - e o Francisco de Assis, que durante muitos anos fez a coluna “Peso da Lei” no próprio jornal das hoje ORM. Os três já são falecidos. De quebra, o Raimundo Oliveira, e que também, na falta do fotógrafo, quebrava o galho.

O José Ribamar dos Prazeres, que ganhou prêmio Esso de Jornalismo nacional por cobrir um linchamento de dois presos retirados da cadeia pela população de Tomé-Açu, também era da equipe; além do repórter Biamir Siqueira e do fotógrafo Jorge Nascimento, sempre nas rondas policiais, feitas durante a madrugada.

Com esse time - de fácil acesso aos boletins policiais diários, os conhecidos BOs e às fontes de poder na Secretaria de Segurança Pública – não foi difícil montar a central de manchetes que elevaram a tiragem da “Folha do Norte” a números capazes de bater em vendagem até o carro-chefe do grupo, o jornal “O Liberal”.

Naqueles tempos, a tiragem de 30 mil exemplares diária da “Folha” era quase toda vendida. A sobra, devolvida ao departamento de circulação do jornal, não chegava a 3 por cento.

Eram manchetes e mais manchetes bombásticas, com os distribuidores de jornal, “baderneiros “, no jargão das oficinas, e os jornaleiros, todos em festa. Uma dessas manchetes, sobre um grupo de extermínio liderado por policiais militares do então Patam (similar à Rotam de hoje), vendeu jornal feito água.

Cadáveres apareciam boiando no rio Guamá e Baía de Guajará, mas os jornais “A Província do Pará”, “Diário do Pará” e “O Liberal” davam os títulos convencionais, do tipo “corpo é em encontrado no rio”. Nada de fotos. Não se mexia com policiais criminosos e nem se levantava suspeitas sobre quem comandava o extermínio de pretos e pobres em Belém.

Chamei a equipe e disse que queria uma investigação a fundo, com nomes dos envolvidos, “modus operandi” e uma relação de todas as vítimas, com fotos e tudo. Íamos mexer nos intestinos da PM, mas nosso compromisso era com os leitores, que cobravam esclarecimentos sobre as matanças.

A cidade estava assustada. Nosso trabalho foi perfeito. Descobrimos tudo. E fizemos uma série de reportagens, contando como agentes públicos, na condição de braço armado do Estado, faziam justiça com as próprias mãos.

A “Folha do Norte” explodiu com a manchete: “ FOI PÁ,PÁ,TAM “. No título estava o nome do responsável pelas mortes. E demos até os nomes dos militares que participavam do grupo de extermínio. Os jornaleiros foram ao orgasmo, gritando a manchete pelas ruas.

A oficina teve de rodar uma segunda edição, mais 8 mil exemplares, além dos 35 mil da tiragem normal. O Patam, meses depois, foi extinto, por ordem do então governador, Jader Barbalho.

O jornalismo policial teve seus dias de glória, mas a fórmula – que provocava aplausos de muitos, e críticas ácidas, de outros – foi aos poucos causando problemas. O Ministério Público mandou ofício ao jornal, pedindo que a cobertura fosse atenuada, sem “sensacionalismo”, para que no futuro não tivéssemos problemas com a Justiça.

A fórmula editorial, na verdade, estava cansando nosso público. Menos, é claro, os leitores que sempre pediam mais sangue e retrato de bandidos no caderno policial. Esse é um tipo sádico de leitor: quanto mais sangue, para ele, melhor.

De comum acordo com a direção da empresa, decidimos reduzir as chamadas policiais da capa e aos poucos começamos a substituir as manchetes do jornal, sempre carregada de crimes, por informações sobre esporte, política e economia. O que precipitou a mudança foi a manchete na capa do jornal, no corpo 72, caixa alta, o maior da tipologia gráfica.

Dizia a manchete: “LOUCA, NUA E MORTA”. Na matéria, o relato do suicídio de uma socialite de Belém. Mulher que tinha grana e muitos vícios, entre esses a compulsão por jogo de baralho até altas horas da madrugada, bebida e remédios para depressão. Para piorar, a ilustre morta era amiga dos donos do jornal.

O fim das manchetes pesadas teve reação imediata e furiosa. “Baderneiros” e jornaleiros, em passeata, foram para a frente do jornal protestar contra a mudança, exigindo que o caderno de polícia – que tinha sido anexado ao noticiário normal, mas sem destaque, voltasse a ter capa e contracapa, coloridas, como era antes. Sangue e cadáver eram exigidos.

Ficou, para mim, a seguinte constatação: quando se acostuma o leitor com aquilo que o vicia, fica difícil mudar o hábito. É mais fácil mudar a rotação da Terra.

Um bom jornal tem que ser bom todos os dias e ter um pouco de tudo. Inclusive critério na apuração das matérias, sem nunca deixar de ouvir o outro lado. Mas tudo na dosagem certa. Para atender a todo tipo de público. Isso agrega credibilidade. E atrai anunciantes.

O exagero faz mal. Inclusive para o bolso.

___________________BASTIDORES_____________________

* A debandada de partidos aliados do governo Dilma terá reflexos importantes no Pará. Principalmente para partidos como PMDB, PR, PP e PSD. Se Temer assumir, com o impeachment da presidente, o PMDB poderá ser o maior beneficiado com o rompimento.

* No momento, porém, o horizonte anda nebuloso e não dá para saber ainda se esses reflexos serão positivos ou negativos. Para completar, ainda tem a eleição de prefeito e vereador, em outubro. Agora sem o financiamento da campanha por empresas.

* O governo do PSDB no Pará terá de conviver com o fato de ter permitido que o estado se transformasse na segunda maior lixeira tóxica do país. Pior: nada faz para reverter a situação. Entre 1999 e 2002, a Uspam, empresa ligada à Companhia Brasileira de Bauxita (CBB) se instalou no município de Ulianópolis dizendo que iria recolher lixo industrial e tóxico de todo o país.

* No total, as maiores empresas nacionais e multinacionais do mundo despejaram 25 mil toneladas de resíduos e 30 mil litros de lixo tóxico, contaminando o solo, rios e igarapés da região. Pelo menos cinco pessoas já morreram e outras centenas sofrem os efeitos da contaminação.

* Até hoje, de concreto, pouca coisa foi feita para resolver o problema. O Ministério Público elaborou um TAC, os responsáveis pela contaminação assinaram, mas parou por aí.

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