sexta-feira, 18 de março de 2016

O MANIFESTANTE RAIVOSO

 
Oswaldo Coimbra *
 
O manifestante é uma pessoa adulta. Isto é, já acumulou a vivência de quem atravessou várias fases da existência humana, cada qual carregada de anseios que – uns - resultaram em frustrações – outros -, em grandes satisfações. Ele, obviamente, muitas vezes, sentiu medo, esperança, raiva e amor, durante cerca de duas décadas, pelo menos. Ouviu músicas, assistiu a telejornais, teve muitas conversas com colegas, amigos, vizinhos. Acumulou, portanto, uma imensa carga de experiências, que, em princípio, deveria munir-lhe de instrumental lógico-intelectual para entender com argúcia e profundidade assuntos que são essenciais a todo ser humano. 

O manifestante sai de casa para a rua exatamente porque quer tornar público o que pensa sobre um destes assuntos graves: a situação atual de seu país, contrastada com o destino para o qual, julga, ele deva ser encaminhado.  A oportunidade surge quando alguém pede ao manifestante que exteriorize seu pensamento diante de uma câmera – de televisão ou de um simples celular.

Ele vai, então, comunicar ao mundo o que traz elaborado em sua mente. E exibe um discurso desarticulado, contraditório, cheio de frases feitas, todas empregadas por ele com muita raiva. Este desempenho verbal do manifestante logo é comentado por cientistas políticos e jornalistas. Já de antagonistas recebe ironias e caçoadas na internet. É, porém, possível enxergá-lo por outro ângulo.

Comecemos com uma constatação corriqueira para quem milita na área de Expressão Verbal: uma pessoa não cria um texto. Ela é o seu texto. Isto pode ser dito assim porque quando alguém fala ou escreve - isto é, quando usa palavras para se comunicar com outra pessoa -, aquilo que diz revela inúmeros aspectos íntimos seus. Muito mais do que o conjunto de significados literais, dicionarizados, das expressões empregadas: seu grau de sensibilidade, seu nível de inteligência, seu entendimento da existência humana adquirido por suas vivências no passado. 

E, ainda, os estímulos ou os desestímulos intelectuais provocados por sua maneira de viver naquele momento, os quais se refletem na posse ou na privação de um bom vocabulário. Aquela pessoa, acima de tudo, quando usa palavras mostra suas capacidades ou incapacidades de refletir sobre si mesma e de se autoperceber, ambas refletidas para os outros no seu discurso. 

Quem ensina Expressão Verbal examina textos com deficiências previsíveis. Isto é parte do seu dia a dia. Textos sem correção gramatical, com banalidades, uso inadequado de palavras, vocabulário pobre e insuficiente, raciocínio confuso. Quando o examinador quer ir à raiz daquelas insuficiências, sente-se tentado a dizer ao autor de um destes textos: “suas dificuldades não estão naquilo que você escreve. Estão na sua vida. Para exprimir o que tem a dizer com mais precisão, clareza, originalidade e beleza você vai ter de identificar dentro de sua existência o que, nela, o leva a escrever sem nenhuma destas qualidades”. 

Provavelmente, aquela pessoa não terá desenvolvido hábito de reflexão – algo como uma rotina na qual as complicações diárias mereçam a reserva de um tempo de concentração mental a fim de melhor entendê-las. Pois, se não expandimos desta maneira nossa capacidade de percepção e de reflexão – isto é, se não cultivamos modos independentes de registro e organização mentais de dados da realidade – como vamos nos expressar verbalmente?

Certamente, aderindo de modo mecânico àquilo que todos percebem e toda gente diz. Teremos, é verdade, um ganho: o conforto íntimo da irresponsabilidade. Pois, ninguém é obrigado a pagar por aquilo que “todo mundo” pensa e diz. E também escapamos de diversos outros riscos. Uma vez que a originalidade exige agressividade – uma energia a ser dispendida no confronto com o pensamento clichê – ela inevitavelmente nos empurra na direção da solidão e da incompreensão. 

Em contrapartida, a falsa segurança da mesmice nos condena à confusão mental, à falta de lógica, à atuação patética, e, acima de tudo, à raiva. Semelhantes às demonstradas por aquele manifestante.

* Oswaldo Coimbra é jornalista e escritor

2 comentários:

  1. Na passeata do dia 13 tinham muitos juízes e promotores, por que nao aparece um Moro parauara para prender os politicos corruptos do Pará, pricipalmente do PSDB, o pai que é dono de todo Inhangapi (sitio atibaia), o edificio Wing (triplex), filho pagodero que virou mais rico empresario de Belem, dono de casas noturnas e postos de combustiveis (lulinha)?

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  2. Mande prender os lularápios barbalhos que continuam soltos, como diz o chefe da gang Luladrão, achincalhando todo mundo, através de seus canais de televisão e rádio...

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