VER-O-FATO: JÁ É TARDE PARA LULA

sexta-feira, 18 de março de 2016

JÁ É TARDE PARA LULA

Lula: da trajetória brilhante na política ao ocaso do líder que se deixou embriagar, literalmente, pelo poder.
Nenhum brasileiro - até mesmo aquele que hoje está indo às ruas execrá-lo - pode ignorar a bela trajetória de vida de Luiz Inácio Lula da Silva. Nascido em 1945, numa casa de dois cômodos e chão de terra batida, no semiárido sertão pernambucano, foi o sétimo filho de um casal de lavradores analfabetos. Lula, então com 7 anos, a mãe e os irmãos deixaram Caetés rumo a São Paulo, a redenção daqueles que fugiam da seca e da vida miserável em busca de dias melhores.

Em São Paulo, estuda e começa a trabalhar, desde os 8 anos de idade, como ambulante e engraxate. Aos 14 anos, faz um curso técnico de torneiro mecânico no Senai e é empregado numa metalúrgica. Aos 17 anos, num acidente de trabalho, perde o dedo mínimo da mão esquerda. Segue em frente, sem imaginar o futuro brilhante que o aguardava.

Em 1969, Lula entra para o mundo sindical e é alí, em plena ditadura, que começa a revelar sua capacidade rara de liderança política entre os trabalhadores do ABC paulista. Autodidata, hábil negociador, lidera greves e conquistas salariais e melhores condições de trabalho para os metalúrgicos. Inspira, com sua luta, outras categorias, ganhando cada vez mais a simpatia e admiração de todos. Seu nome já é conhecido em todo o país e nos meios sindicais. Em 1980 é preso e fica por 31 dias na cadeia. Acusação: ferir a Lei de Segurança Nacional do regime militar, liderando uma greve de metalúrgicos considerada ilegal pelo governo.

Ao lado de intelectuais, religiosos, estudantes e militantes egressos da luta armada, funda o PT e se torna seu primeiro presidente. O poder começa a se abrir para Lula, mas sua hora ainda não havia chegado. Juntamente com líderes de outros partidos, destaca-se no comício por eleições diretas e em 1986 se elege o deputado mais votado do país. Em 1989, sua chegada ao poder bate na trave e perde a eleição para Collor.

A partir daí, sua chegada ao Palácio do Planalto era apenas uma questão de tempo e oportunidade. E ela surge em novembro de 2002, após três frustradas tentativas. E agora? Lula faz um primeiro mandato à altura das expectativas populares, sobretudo dos mais pobres. O forte são os programas sociais de distribuição de renda, como o Bolsa Família, além de acessibilidade às linhas de crédito para quem antes sequer tinha conta bancária. Com a indústria, o comércio e as exportações aquecidas, há empregos e melhor qualidade de vida da população. Surgem programas como Minha Casa, Minha Vida, Luz para Todos e o PAC.

Os opositores do primeiro governo de Lula perdem seu discurso e ficam atônitos com a desenvoltura do ex-líder metalúrgico no poder. "O nunca, antes, na história desse país", saído da boca do próprio Lula, vira bordão e exemplo de eficiência administrativa. Populista de discurso fácil e sem opositores, o presidente usa e abusa das frases de efeito. Seus excessos verbais e o destempero são ofuscados pelo bom governo que faz.

Devagar, porém, começam a aparecer na imprensa as primeiras denúncias de aparelhamento do Estado para desvio de verbas públicas. Mas quem ligava para isso? A maioria do povo estava indo bem e não havia do que se queixar do governo. As denúncias caiam no vazio. A popularidade de Lula estava nas nuvens, acima de 80%. O PT e Lula bolavam planos para ficar 30 anos no poder.

O cenário era perfeito. A imprensa e os grandes veículos de comunicação, para completar, estavam ao lado do governo. As verbas publicitárias oficiais eram fartas e generosas no caixa das empresas, jornais, TVs e rádios. O pobre, por outro lado, podia viajar de avião e os shoppings viviam lotados.

Eis que no segundo mandato de Lula, ainda com seus índices de aceitação popular inabaláveis, surge o Mensalão. A compra de votos de parlamentares para matérias de interesse do governo na Câmara e Senado. Em viagem pelo exterior, com o assunto pipocando na imprensa e com os primeiros documentos da maracutaia vindo à tona, o presidente usa a célebre frase "eu não sabia". E, logo em seguida, reduz tudo a um "Caixa 2", afirmando que aquilo "todo mundo fazia". 

No Congresso Nacional, surge a ideia de um impeachment de Lula, mas a própria oposição, representada pelo PSDB, sepulta a intenção em nome da "governabilidade". Líderes petistas como Zé Dirceu e José Genoíno, juntamente com empresários que alimentavam a corrupção no governo, são condenados pelo STF e presos. Começa aí, embora ainda sem se dar conta disso, o tormento do PT e do próprio Lula.

O "Petrolão" ainda estava abafado, mas logo surgiria com a força devastadora de um tsunami. Desponta a "Operação Lava Jato", já com Dilma eleita e reeleita. A panela de pressão explode. O mau cheiro da roubalheira revela uma quadrilha instalada no coração do poder federal que desviou mais de R$ 21 bilhões, até agora apurados, para os bolsos de privilegiados da República: grandes empreiteiras, políticos e "laranjas".

Indícios e provas dos crimes apurados pela Polícia Federal batem à porta de Lula - a esta altura do campeonato em apuros para explicar o triplex do Guarujá e o sítio de Atibaia - e o que o ex-presidente faz? O que sempre fez no poder: desdenha, ironiza, ataca com palavrões, colocando-se acima da lei, do bem e do mal. Mas, desta vez, faz pior: afronta instituições sérias como o Ministério Público Federal (MPF) e o Supremo Tribunal Federal (STF).

Ora, o MPF e o STF, são os verdadeiros guardiões do Estado Democrático de Direito, pois têm sabido agir com serenidade, equilíbrio, isenção e independência, exercendo seus papéis institucionais. Isso tudo num ambiente de total descrédito e desmoralização do Poder Executivo e do Poder Legislativo, com seus partidos encharcados dos velhos vícios da política nacional e sem merecer a representatividade nas urnas a eles delegada pelas ruas.

Lula dispara, em gravações feitas com autorização judicial, ataques desesperados, cheios de ódio, rancor e arrogância, buscando se salvar, com bravatas, dos malfeitos que ele e seu partido produziram nos últimos 12 anos. Ao chamar de "totalmente acovardado" o STF, e o STJ, ele queria exercer um controle que já não mais possui nem mesmo junto a parcelas não fanatizadas - e por isso mesmo, cegas - do PT e de alguns núcleos esquerdistas.

A carta que ele mandou ontem ao STF, para tentar consertar o maior erro cometido de sua triunfal carreira política, hoje em total debacle, não mudará o rumo dos fatos. 

Já é tarde, muito tarde, para isso.


Veja a carta de Lula, abaixo:
 

"Creio nas instituições democráticas, na relação independente e harmônica entre os Poderes da República, conforme estabelecido na Constituição Federal.

Dos membros do Poder Judiciário espero, como todos os brasileiros, isenção e firmeza para distribuir a Justiça e garantir o cumprimento da lei e o respeito inarredável ao estado de direito.

Creio também nos critérios da impessoalidade, imparcialidade e equilíbrio que norteiam os magistrados incumbidos desta nobre missão.

Por acreditar nas instituições e nas pessoas que as encarnam, recorri ao Supremo Tribunal Federal sempre que necessário, especialmente nestas últimas semanas, para garantir direitos e prerrogativas que não me alcançam exclusivamente, mas a cada cidadão e a toda a sociedade.

Nos oito anos em que exerci a presidência da República, por decisão soberana do povo – fonte primeira e insubstituível do exercício do poder nas democracias – tive oportunidade de demonstrar apreço e respeito pelo Judiciário.

Não o fiz apenas por palavras, mas mantendo uma relação cotidiana de respeito, diálogo e cooperação; na prática, que é o critério mais justo da verdade.

Em meu governo, quando o Supremo Tribunal Federal considerou-se afrontado pela suspeita de que seu então presidente teria sido vítima de escuta telefônica, não me perdi em considerações sobre a origem ou a veracidade das evidências apresentadas.

Naquela ocasião, apresentei de plano a resposta que me pareceu adequada para​ preservar a dignidade da Suprema Corte, e para que as suspeitas fossem livremente investigadas e se chegasse, assim, à verdade dos fatos​.

Agi daquela forma não apenas ​porque teriam sido expostas a intimidade e as opiniões dos interlocutores.

Agi por respeito à instituição do Judiciário e porque me pareceu também a atitude adequada diante das res​ponsabilidades que me haviam sido confiadas pelo povo brasileiro.

Nas últimas semanas, como todos sabem, é a minha intimidade, de minha esposa e meus filhos, dos meus companheiros de trabalho que tem sido violentada por meio de vazamentos ilegais de informações que deveriam estar sob a guarda da Justiça.

Sob o manto de processos conhecidos primeiro pela imprensa e só depois pelos diretamente e legalmente interessados, foram praticado atos injustificáveis de violência contra minha pessoa e de minha família.

Nesta situação extrema, em que me foram subtraídos direitos fundamentais por agentes do estado, externei minha inconformidade em conversas pessoais, que jamais teriam ultrapassado os limites da confidencialidade, se não fossem expostas publicamente por uma decisão judicial que ofende a lei e o direito.

Não espero que ministros e ministras da Suprema Corte compartilhem minhas posições pessoais e políticas.

Mas não me conformo que, neste episódio, palavras extraídas ilegalmente de conversas pessoais, protegidas pelo Artigo 5o. da Constituição, tornem-se objeto de juízos derrogatórios ​sobre meu caráter.

Não me conformo que se palavras ditas em particular sejam tratadas como ofensa pública, antes de se proceder a um exame imparcial, isento e corajoso do levantamento ilegal do sigilo das informações.

Não me conformo que o juízo personalíssimo de valor​ se sobreponha ao direito.

Não tive acesso a grandes ​estudos formais, como sabem os brasileiros. Não sou doutor, letrado, jurisconsulto. Mas sei, como todo ser humano, distinguir o certo do errado; o justo do injusto.

Os tristes e vergonhosos episódios das últimas semanas não me farão descrer da instituição do Poder Judiciário. Nem me farão perder a esperança no discernimento, no equilíbrio e no senso de proporção de ministros e ministras da Suprema Corte.

Justiça, simplesmente justiça, é o que espero, para mim e para todos, na vigência plena do estado de direito democrático".

3 comentários:

  1. Parabéns, Mendes. Consegui ver a estrela brilhar e a estrela cair lendo o teu texto.

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  2. Parabéns pelo texto primo Mendes. Ficamos todos agradecidos, principalmente no que diz respeito às nossas crianças, para que entendam amanhã, o momento histórico (e talvez único) que estamos vivendo.

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  3. Carlos Mendes, excelente texto. A queda de um líder populista: a arrogância e a prepotência maculam sua imagem.

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