VER-O-FATO: VIRAMOS TODOS UMAS VELHINHAS MORALISTAS, APONTANDO O DEDO POR AÍ

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

VIRAMOS TODOS UMAS VELHINHAS MORALISTAS, APONTANDO O DEDO POR AÍ


Rodrigo da Silva *

Você não consegue dar dois passos na sua rede social favorita sem tropeçar nele. Às vezes, ele se esconde atrás de uma imagem qualquer, trancafiado num ver mais ou num continuar lendo. Outras vezes age de forma escancarada. O moralismo do bem é o alicerce do homem moderno, estampado nos textões e nos memes que inundam a internet nossa de cada dia.

Nesse feriado ele alcançou o Carnaval. Bastou um pai, Fernando, fantasiar-se de Aladdin e vestir seu filho, negro, de Abu, num bloco em Belo Horizonte, para agitar os mais histriônicos baluartes do moralismo do bem da grande rede brazuca. Virou febre: uma demonstração clara de racismo numa festa que é parte da cultura negra tupiniquim. Um pai, sem dizer uma única palavra enquanto celebrava a vida com seu filho, atestava a similaridade imbecil entre negros e macacos no imaginário justiceiro. Sem qualquer direito à defesa.
 
Afinal de contas, qual foi o exato ponto da história em que abandonamos aquela noção de que a vida dos outros não nos pertence para nos transformarmos em velhinhas moralistas que passam o dia fofocando sobre a falibilidade de perfeitos estranhos? Quando foi que deixamos de viver as dores e as tragédias da nossa vida para virarmos fiscais dos costumes alheios, apontando o dedo pra gente que a gente nunca viu? Esse não era, afinal de contas, o grande problema por trás de tudo?

Hoje somos todos justiceiros de alguma coisa. Há sempre uma minoria para salvar de algum perigo. Negros, mulheres, gordos, crianças, gays, ciclistas, índios. Há sempre alguém pra gente usar por aí pra alimentar o nosso próprio ego e escalar montanhas em direção ao nosso incandescente paraíso moral. Há, aos montes, arqui-inimigos pra odiar e combater. 

Com a gente? Não há nada de errado. Nunca. Cultivamos uma alimentação saudável, nos conectamos à mãe natureza, nos preocupamos com o futuro das nossas crianças, compartilhamos todas aquelas matérias engajadas do Catraca Livre, votamos em partidos de esquerda. Somos todos perfeitamente coloridos e bem resolvidos, como se fossemos estrelas de uma dessas propagandas de margarina ou parte do marketing de um banco que se esforça em parecer mais humano do que realmente é. Somos todos desencanados, virtuosos, conscientes, modernos, jovens. Feitos. Pra. Você.

Dentro da gente há um rio de hashtags e slogans. Há mais amor por favor, há gentileza que gera gentileza, há o nome de uma tribo indefesa qualquer. Nosso coração é um imenso jogo da velha, cheio de filtros de instagram e sacadas à lá Prefs. Dentro dele, monopolizamos toda sensibilidade do mundo. Longe da matéria que o forma não resta nada além da mais insipiente truculência. 

Para os justiceiros, é apenas dessa forma que essa bolota azul sobrevoando o espaço se torna um lugar previsivelmente fácil de lidar. Nela, no epicentro dos nossos tribunais morais, há os bons e os ruins. Há aqueles que se importam em criar um mundo melhor – seja lá o que isso signifique. E há o rancor da velha ordem, antiquada, negligente com os cuidados da natureza, mal resolvida com os gays e as mulheres, autoritária, pouco preocupada com as condições dos mais pobres, politicamente incorreta e grosseira. Se você não faz parte de um grupo está necessariamente inscrito no outro.

Dessa forma, viramos todos caçadores de fascistas. Ninguém escapa do nosso combate. Gente que têm dinheiro, gente branca, gente que não vota nos nossos candidatos (deixando de praticar a verdadeira democracia), gente que preenche o esteriótipo que a gente cria pra combater a estereotipização das minorias que problematizamos. Viramos todos umas velhinhas moralistas apontando o dedo por aí. Não sobra nada. 

Das mulheres que estrelam campanhas lascívias de marcas de cerveja, criando um padrão inalcançável de beleza e objetificando o corpo feminino, aos constantes discursos que silenciamos em desagravo, enquanto lutamos pela liberdade de expressão dos artistas e intelectuais politicamente alinhados com as nossas ideias. Somos todas idosas futriqueiras metendo o bedelho na vida alheia enquanto pedimos que o nosso espaço seja respeitado. O olho que tudo vê na inquisição da santa igreja do progressismo dos últimos dias, pedindo por privacidade.

Foi um português quem escreveu num poema em linha reta o retrato desse tempo. E ele não era cadastrado em qualquer serviço de email, não fazia a menor ideia do que era uma rede social e não tinha noção do poder que um compartilhamento poderia alcançar. O nome dele também era Fernando.


Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil, Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita, Indesculpavelmente sujo, Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho, Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo, Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas, Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante, Que tenho sofrido enxovalhos e calado, Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda; Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel, Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes, Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar, Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado Para fora da possibilidade do soco; Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas, Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho, Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia; Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia! Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam. Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil? Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses! Onde é que há gente no mundo?

Onde é que há afinal?


*Rodrigo da Silva - editor do Spotniks

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