VER-O-FATO: QUE ME PERDONEN LOS MUERTOS DE MI FELICIDAD

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

QUE ME PERDONEN LOS MUERTOS DE MI FELICIDAD

 
OSWALDO COIMBRA *
 
Não tive mais que três razões me sustentando nas dificuldades com que o dia a dia nos provoca a desistir da vida. A maior delas foi Deus. Posição confortável era aquela de ver como de autoria Dele todas as provações que, me diziam, me purificariam, até eu merecer sua companhia. Tudo se encaixava perfeitamente. Havia “apenas” discrepando milhões de seres humanos nos países oficialmente ateus que não tinham tão nobre fim, e, no entanto, suportavam os embates. Claro, a imagem ingênua de servos do demônio não satisfazia à mente de jovem indagador, que enfiava como verruma dentro de si, suas interrogações até topar com as respostas.
 
Julguei, então, conveniente abrir um parêntese naqueles atos rotineiros da religião, para, livre da influência do ambiente, me colocar numa posição semelhante a dos ateus, providência que me parecia indispensável à descoberta do conteúdo de suas mentes. “Depois – disse a mim mesmo – fecho este parênteses, robustecido na minha fé, se for a vontade de Deus”.
Eu tinha completado dezessete anos, e, no meu “currículo” de católico, se incluíam longos anos como membro da Cruzada Infantil, coroinha, e, por três anos, seminarista. Uma verdadeira carreira dentro da Igreja.
 
Hoje, muitos anos depois, posso me classificar como ateu, exatamente pela serenidade com que compreendo as pessoas apegadas a esta instável tábua de salvação. Pois, se somos finitos – percebemos que após três ou quatro gerações, a lembrança de nossa passagem por este planeta estará apagada, como um risco na água -, se somos solitários a ponto de percebermos a separação de nossos corpos, inclusive na comunhão do ato amoroso, cada corpo com sua história, carregado com seus projetos; se nos sentimos insignificantes, dispensáveis, entre os bilhões de seres que se movimentam sobre a Terra, como não desejar que uma entidade imune ao tempo, absorvível pelo nosso recôndito, e, sobretudo, impressionantemente poderosa, tenha sido a mão que nos moldou? 
 
Não é justificável tal desejo? As possibilidades, portanto, pensei, são todas de que o homem é que O tenha criado, forçado pela angústia da sua fragilidade, e, depois, com ciúmes, o cultue, temeroso do peso da verdade por Ele amenizada. Contra o medo de existir sem motivo o que podem fazer as verdades das Ciências?
 
Mas, se pude compreender a necessidade de Deus, como conviver com os dogmas, as virgens imaculadas, os pães transubstanciados? Admiti-los teria sido um sofrimento maior, pela violência contra minha inteligência do que aquele que padecia por me sentir desorientado.
 
A segunda razão que dei à minha existência foi o desejo de empregá-la na luta pelo aperfeiçoamento da nossa sociedade. Só os brutos, os empedernidos não se indignam contra a forma como são distribuídos os bens produzidos coletivamente. Quase toda a riqueza nascida do esforço de um grande número de pessoas é canalizada para as mãos de uns poucos que, afinal, sequer são felizes na sua opulência, de vez que a má-consciência que lhes dá a sensação do direito por superioridade cega-os, inutilizando-os para o convívio fraterno, no qual poderiam sentir bem-estar.
 
Infelizmente, os paladinos da justiça não são menos afetados pela cegueira dos crentes que não discutem sua fé. Certa simplicidade de espírito é necessária para colocar os bons de um lado e os maus de outro, num maniqueísmo que, aliás, não é o único ponto de contato entre eles e os cristãos.
 
A última razão foi o amor, Viver em razão de outra pessoa. Dentro do drama da condição humana, a de ter de preferir a si ou a outrem, escolher a alternativa bondosa. Há exigências pessoais tão agudas em mim, contudo, como a da solidão, que se abrisse mão delas me esfrangalharia e o máximo que conseguiria oferecer à outra pessoa seriam estilhaços de gente, cheios de rancor. Nunca acertei no malabarismo de caminhar sobre o estreito fio que separa o “eu” do “tu”, atendendo ora a um, ora a outro.
 
Os poemas por mim escritos homenagearam mulheres que transpuseram o portal do sítio abandonado por Deus. Aquelas que absorvi, metabolizei, existiram externamente sob forma de versos, mas, para ser franco, os versos foram formas às quais elas nunca se ajustaram comodamente. E não as culpo por isto, apesar da dor cada vez renovada, ao constatar que, no leito de Procusto dos poemas, sobravam partes delas. Fascinantes nas suas limitações de gente, havia sempre o inevitável momento do cansaço, advindo da percepção de que a harmonia seria inalcançável, posto que o convívio humano é feito de tensões, às vezes insuportáveis.
 
Deus, justiça social, amor. Os três valores social-filosófico-éticos que deram sentido à vida de muitos jovens da minha geração, na recente História de nosso país. Este texto sobre como fui afetado por eles continuaria a retratar ipsis litteris ainda hoje minha existência, embora escrito há quase quatro décadas. Se nela, no entanto, não tivesse penetrado, há um ano, Ana Cláudia Benevides. A parceira com quem compartilho atualmente as inquietações contidas na busca de respeito a estes valores.
 
A imagem dela está aqui como homenagem a meus contemporâneos que se sacrificaram para que todos pudéssemos, hoje, nos sentir alegres e felizes. Pois tentaram embelezar nossa aventura humana de existir, com sensibilidade, inteligência e criatividade. São meus mortos queridos. Que me perdoem por desfrutar da felicidade negada a eles.
 
Na minha gratidão à Ana Cláudia concentro os agradecimentos àqueles amigos que nos trouxeram alegria com seus cumprimentos pela passagem do meu aniversário.
 
*Oswaldo Coimbra - jornalista e escritor

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