VER-O-FATO: OS VERDADEIROS PRESENTES QUE BELÉM MERECE

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

OS VERDADEIROS PRESENTES QUE BELÉM MERECE

 

Nas comemorações oficiais pelos 400 anos de fundação de Belém, a prefeitura programou alguns shows e fogos, farta distribuição de medalhas a algumas "distintas personalidades", mas a população da cidade tem muito pouco a festejar. Apesar do descaso e dos maus tratos de seus últimos governos, de péssima memória e nenhuma saudade, Belém continua brejeira na sua morenice e imbatível na variedade de seus sabores,cheiros e cores. 

A melhor maneira de comemorar esse aniversário seria com um belo banho de cheiro nas feiras e praças da cidade para lavar a "alma" da cidade e também afastar tudo aquilo que agride a beleza natural de Belém. Os códigos não observados, as posturas inadequadas e as imposturas persistentes.

Que tal também presentear a cidade com um livro contando sua história, através dos relatos de seus cronistas, desde os mais antigos, que descreveram a gostosa Belém de outrora, aos mais modernos, que se reportam ao viver contemporâneo? Uma coletânea com o melhor do que relataram sobre Belém (em prosa, verso ou música) apaixonados namorados da cidade, dentre outros, De Campos Ribeiro, Augusto Meira Filho, Nilo Franco, Edgard e Edyr Proença, Adalcinda Camarão, Ernesto Cruz, Edwaldo Martins, Carlos Rocque, grandes figuras humanas dotadas de sensibilidade e talento, que, infelizmente, já se foram, deixando mais pobre e vazia de poesia e arte a paisagem humana/urbana de Belém. Que tal reeditar o livro "Crônicas da Cidade", editado pela Imprensa Oficial, salvo engano, na década de 70, com saborosas crônicas publicadas pela "Província do Pará", de autoria do cronista maior da cidade, jornalista Nilo Franco?

Outro presente para a cidade seria a criação de um Conselho Municipal de Cultura, composto de cidadãos belenenses que se destacam no mundo das artes e da cultura, tendo como principal requisito uma declaração sincera de amor à Belém. A esse conselho caberia zelar pela memória da cidade, oferecendo sugestões ao prefeito, sem cobrar cachê nem DAS. Nem ameaçar o emprego dos vereadores e de seus dedicados assessores...
 

E o trânsito caótico e neurótico, que continua fazendo vítimas, diariamente, além de se transformar numa das faces mais cruéis do caos urbano, com seus congestionamentos irritantes e colossais?

As artérias de uma cidade são como as veias no corpo humano: quando entopem, o organismo todo entra em colapso e morre. Belém está parando, a cada ano um pouco mais, como aliás previram os técnicos japoneses da JICA, na década de 80, caso nada fosse feito até 2010,em termos de planejamento e obras viárias já então consideradas inadiáveis...

Decorridos mais de 25 anos de omissões desde a apresentação do PDTU dos japoneses da JICA , o ex-prefeito Duciomar , bem a seu estilo de pequeno títere, resolveu implementar "na marra" o projeto do BRT como solução mágica para todos os males do congestionado trânsito e pesado tráfego da cidade travada. Obra iniciada atabalhoadamente , sem planejamento adequado (não por falta de tempo, diga-se) e atropelando dispositivos legais na sua licitação, o BRT em Belém virou sinônimo de bagunça, malversação e desperdício do dinheiro público. Única via de entrada e saída da cidade, a avenida Almirante Barroso jamais poderia sofrer qualquer intervenção viária antes de serem construídos os elevados do Entroncamento.

Essa verdadeira "herança grega" (o BRT) continua qual fratura exposta na atual gestão a consumir mais recursos públicos sem oferecer uma solução efetiva para a mobilidade urbana da cidade, cada vez mais "engessada" com quase 500 mil veículos circulando pelas mesmas e congestionadas vias de 50 anos atrás. Quanto aos prejuízos ao erário municipal, o Ministério Público e a Justiça devem cuidar com o zelo que o assunto merece. 


Aliás, já vem cuidando como se evidencia da sentença da íntegra juíza Hind Kayath, que condenou o ex-prefeito e uma de suas fiéis assessoras a devolverem cerca de R$ 80 milhões aos cofres públicos. É essa, aliás, a maior punição que se pode dar a um mau gestor público. Melhor do que a cadeia, certamente.

Também não decolaram as obras de prolongamento da avenida João Paulo II,, além da extensão do BRT até Marituba, que seriam realizadas pelo governo do Estado, como presente que a cidade ganharia para comemorar seus 400 anos, destravando aquele infernal gargalo do Entroncamento, além de possibilitar maior mobilidade urbana e qualidade de vida em todos os municípios que integram a Região Metropolitana de Belém.

Outro presente para Belém seria o resgate da cidadania e o direito de ir e vir de sua população ameaçada pela violência urbana. Há no ar, nas ruas, nos lares e nos bares, uma sensação de impotência e desamparo dos cidadãos belenenses em relação à violência e barbárie que tem tomado de assalto as ruas da cidade. A sociedade belenense está ficando refém da insegurança e do medo. Ninguém mais tem certeza de que voltará vivo para sua casa, após um dia de trabalho. Pais e mães temem pela segurança de seus filhos que precisam ir à escola, ao trabalho ou a um simples lazer.

Os governantes precisam assegurar proteção ao cidadão , uma de suas obrigações e deveres com a sociedade, nos termos do artigo 144 da Constituição Federal, que inclui a "segurança como dever do Estado e direito do cidadão." Belém também precisa da recuperação e do nivelamento de suas calçadas para que seus habitantes possam ter maior comodidade e segurança. Em bairros como Canudos, cada casa tem uma calçada diferente, obrigando os transeuntes a andar no meio fio, disputando perigosamente espaço com os veículos.


E, por favor, senhor prefeito, as "pedras portuguesas" são inadequadas para nosso clima, deslocam-se e ainda provocam quedas desastradas e perigosas. Que tal colocar os engenheiros da PMB para pesquisarem novos materiais resistentes ao nosso clima e mais adequados para o revestimento das calçadas da cidade? "A fadiga dos materiais" das pedras portuguesas é óbvia e ululante, como dizia o grande Nelson Rodrigues.


Belém também clama por mais arborização diante da insana "saga" predatória da corrida para o alto de torres cada vez mais tórridas, que se erguem deixando rastros de destruição das poucas áreas verdes que ainda restam na cidade. Não por acaso, o último quintal de Belém, na Almirante Barroso (Palacete Faciola) - cujo rèquien anotei em crônica neste blog - abriga hoje, além de três torres, uma casa para doentes mentais... Ali também deveriam ter sido internados os autores daquele verdadeiro crime contra a cidade...

Enquanto o BRT não vem, a população de Belém também clama por um transporte coletivo mais limpo e decente. Uma pergunta que não quer calar: por que os donos de ônibus não colocam em algumas linhas coletivos com ar-condicionado? Na maioria das capitais brasileiras eles existem e representam uma opção para os motoristas deixarem seus carros na garagem, assim contribuindo efetivamente para desafogar o pesado tráfego nas metrópoles. Por que a ex-Ctbel, ex-Amub, atual Semob não estimula essa opção? 


Por que não mudar os paradigmas de uma política de transporte urbano defasada e corporativa? Por que também se despreza a vocação natural das linhas fluviais urbanas, interligando Belém a Mosqueiro, Icoaraci, Outeiro, Combu e demais ilhas no entorno da metrópole das águas? 

Sabe-se apenas que os "coronéis" donos de ônibus não querem essa inovação para continuar faturando em cima do sacrifício da população. Mas não seria o caso de se abrir licitação nacional e até internacional para exploração do transporte fluvial urbano, com modernas lanchas modelo catamarã, como já vem ocorrendo em Santarém , com grande sucesso ? Afinal, porque a Semob não rompe com essa cortina do atraso ?

Belém também clama por novas janelas para o Rio. A cidade precisa respirar melhor diante das muralhas de concreto, aço e vidro que se erguem imponentes, mas destruindo as "pontes" da cidade com a natureza exuberante que a cerca.
 

Belém precisa sobretudo dos afagos de seus filhos, rogando que não joguem lixo nas ruas; que não urinem nos muros e nos postes; que não tirem as mangas ainda verdes para deixar que elas possam cair de maduras. Só quem já saboreou uma manga tomando banho de chuva numa tarde de Belém pode entender o sentido poético dessa relação de amor com a cidade morena, brejeira e faceira. Belém merece o melhor. 
Não só de seus governantes, mas, também, de seu povo cordial e hospitaleiro.
 
Francisco Sidou é jornalista
chicosidou@hotmail.com

4 comentários:

  1. Francisco, todos sambem que as empresas de ônibus mandam e desmandam nessa cidade simplesmente porque, com o poderio econômico, conseguem eleger um prefeito; e este quando assume o cargo já está até o pescoço atrelado às vontades deste cartel. Não vejo outra razão para o carnaval que é o centro da cidade de tanto ônibus vindo de todos o municípios da região metropolitana e passeando pelo centro (algo que não se vê em outras cidades). Sem falar nas empresas prestadoras de serviços para a prefeitura (empresa coletora de lixo por exemplo).

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  2. Verdade, Fábio, mas precisamos continuar protestando contra esses absurdos, notadamente os jovens como você e meu filho, que deve ser de sua faixa etária (22 anos). Um dia, quando jovem,alguém me chamou de comunista no ambiente de trabalho apenas por que costumava questionar as verdades estabelecidas pela burocracia reinante. Disse-lhe, então: amigo você precisa estudar para saber o que é o comunismo. O que sou e sempre serei é um não conformista.

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  3. Boa noite... Parabéns, tenha certeza que vou indicar seu texto para meus alunos, pelo fato de entender e acreditar que nossos jovens devem e precisam ter acesso à este tipo de leitura, para que possam ter o mínimo de senso crítico

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  4. isso é uma crônica?

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