Linha de Tiro - Gilberto Valente

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

INSTITUTO MAMIRAUÁ CONFIRMA 3 ESPÉCIES DE TARTARUGAS EM ÁREAS PROTEGIDAS

Thais Morcatty: "comércio ilegal é ameaça a essas espécies"
Foi divulgada recentemente, em publicações científicas, a confirmação do aumento da distribuição geográfica de três espécies de quelônios em duas unidades de conservação do Amazonas. A ocorrência dos animais era desconhecida para a Amazônia Central. A comprovação foi possível com a realização de expedições pela equipe de pesquisadores e técnicos do Instituto Mamirauá, unidade de pesquisa do Ministério da Ciência e Tecnologia e Inovação.  

Os registros de ocorrência foram na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Amanã, no município de Maraã e na Reserva Extrativista do Rio Jutaí, no município de mesmo nome. As três espécies, identificadas no Amazonas, são conhecidas na região Amazônica como Perema ou Lalá. Em outras regiões, são conhecidas como Jabuti-machado (Platemys platycephala platycephala), e Cágado-cabeça-de-sapo (Mesoclemmys raniceps e Mesoclemmys heliostemma).

As publicações estão disponíveis para acesso e download gratuito no site da revista ZenScientist. A revista científica internacional, dos Estados Unidos, tem como foco publicações sobre herpetologia, ramo da zoologia dedicado ao estudo dos répteis e anfíbios. A revista é publicada pela Society for study of Amphibians and Reptiles.

De acordo com Thaís Morcatty, pesquisadora do Instituto Mamirauá e uma das autoras das publicações, conhecer a área de distribuição das espécies é importante para a tomada de decisões sobre a conservação das áreas onde ocorrem e para o desenvolvimento de estudos.

"Novos registros chamam a atenção para o pouco que sabemos sobre essas espécies, incitando novos estudos e indicando novas áreas onde eles poderão ser desenvolvidos. Adicionalmente, a riqueza e a composição das espécies em determinado local definem se ele necessita regras para conservação ou não, por exemplo, para a criação de unidades de conservação ou autorização para atividades econômicas", contou Thaís.

A pesquisadora também ressalta que o comércio ilegal de animais silvestres como animais de estimação pode ser uma das ameaças a essas espécies. "A principal ameaça conhecida para estas três espécies é a perda de habitat por atividades humanas, como desmatamento e mineração. Outra importante ameaça que pode afetar as populações é retirada de indivíduos dessas espécies para abastecimento do mercado de pet, onde são vendidas como animal de estimação. Devido à falta de estudos, ainda não sabemos o impacto dessa atividade na maioria dos quelônios brasileiros", disse.
 
Histórico
"Desses três aumentos de distribuição, o mais importante é da Mesoclemmys heliostemma. Agora nós completamos a região central da Amazônia, onde sua distribuição era totalmente desconhecida", afirmou a pesquisadora.

Fonte: IUCN

Até então, os pesquisadores pensavam que a ocorrência dessa espécie estava restrita a uma pequena área entre o norte do Equador e Peru e sul da Venezuela e alguns estados da Amazônia. Em 2012, com uma revisão da coleção de museus, a espécie foi confirmada nos estados do Pará, Amazonas, Mato Grosso e Rondônia e Acre. Mas o registro mais próximo à Reserva Amanã e Jutaí, estão a cerca de 400km, na Venezuela. Thais afirma que o novo registro preenche uma lacuna de 1,8 milhões de quilômetros sem registros anteriores.

 "As descobertas quanto à distribuição geográfica são boas para salientar a importância do Instituto Mamirauá e suas pesquisas na região central da Amazônia, que ainda é uma área onde se tem muito mais a descobrir. Além disso, ressaltam a importância das nossas expedições para lugares nunca estudados, para novos trabalhos", comentou a pesquisadora.

Thaís reforça que as três espécies são amazônicas, semiaquáticas, predadoras, de comportamentos noturnos, e ocorrentes em terra firme. "As três espécies são cágados, ou seja, estão adaptadas tanto ao ambiente terrestre quanto aquático, possuindo patas com membranas interdigitais. Essas membranas são semelhantes às membranas do pato, que contribui para natação", disse Thaís.
A pesquisa foi realizada com recursos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Acesse as publicações na íntegra, na seção "Geographic Distribution", da revista ZenScientist:
- Mesoclemmys heliostemma e Mesoclemmys raniceps
- Platemys platicephala

Palavra de especialista

Veja abaixo algumas características das três espécies, pontuadas pela pesquisadora Thaís Morcatty:
 
Jabuti-machado (Platemys platycephala platycephala)

É uma das menores espécies de quelônios da Amazônia, que pode alcançar até 18 centímetros de comprimento de casco. Mesmo pequena, essa espécie chama atenção devido à bonita e chamativa coloração do casco.

Apesar de ser um cágado, essa espécie recebe o nome de jabuti, aludindo as espécies de quelônios terrestres. Isto porque o jabuti-machado possui a coloração do casco marrom-amarelado e negro, semelhante aos jabutis ocorrentes no Brasil.

Essa espécie habita ambientes pantanosos, como poças d'água formadas no interior das florestas de terra firme da Amazônia. É uma espécie de hábitos solitários e noturnos, se alimentando de pequenos peixes, girinos e invertebrados, como caranguejos e camarões.

Esta espécie se camufla bem na paisagem e é muito difícil de capturar. Portanto, pouco se sabe sobre a sua história natural. O número de posturas anuais ainda é desconhecido, mas se sabe que durante a postura, a fêmea deposita um único grande ovo, o qual passa por um período de incubação de 5 longos meses.
 
Cágado-cabeça-de-sapo (Mesoclemmys raniceps)

É um importante predador no ambiente amazônico, se alimenta de peixes e anfíbios. Possui hábitos noturnos e parece ocorrer em baixas densidades. Pode atingir cerca de 30 cm de comprimento do casco.

Está presente em rios e lagos de água preta (oligotrófica) da Bacia Amazônica (terra Firme), rodeados por floresta preservada. Possui o hábito de se esconder em baixo de troncos em baixo d'água.

Existe pouca informação sobre reprodução desta espécie, por enquanto é conhecido que a fêmea produz 4 a 8 ovos por postura, e é sugerido que uma fêmea pode realizar até 6 posturas por ano.

Os registros dessa espécie são esparsos e geralmente mais antigos.
 
Cágado-cabeça-de-sapo (Mesoclemmys heliostemma)

Possui hábito noturno e se alimenta de pequenos peixes e invertebrados. Pode alcançar 25 centímetros de comprimento de casco.

Vive em cursos d'água pequeno, lênticos e pouco profundos formados no interior de florestas de terra firme na região Amazônica. Aspectos de sua reprodução ainda permanecem completamente desconhecidos.
Texto: Amanda Lelis (Assessoria de Comunicação / Instituto Mamirauá)

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