sábado, 30 de janeiro de 2016

CHICO JÁ FOI FELIZ NO BRASIL


Oswaldo Coimbra *

O país suportava a Ditadura Militar havia dois anos, em 1966. Mas Chico, aos 22 anos, ainda não fora levado por três vezes às Delegacias de Ordem Política, como ocorreria nas duas décadas seguintes devido à coragem cívica com que enfrentaria o regime usando apenas seu talento artístico. Nem já tivera de se abrigar na Itália, depois de receber ameaças físicas dos órgãos de repressão. Também não passara, até aquele momento, a ser sufocado pela Censura da Polícia Federal a ponto de se ver forçado a gravar só músicas de outros compositores e a ter de assinar suas composições com nome falso (Julinho de Adelaide).
 
Por isto, Chico podia ser feliz, em 1966. Embora já tivesse preocupações sociais como a que apareceu na canção “Pedro pedreiro”. Sim, ele era feliz. Afinal, estava iniciando a produção da vasta e valiosa herança que irá deixar à cultura do Brasil. Cerca de 500 músicas, desdobradas em três livros infantis, cinco peças de teatro, cinco filmes, e, cinco romances.
 
A felicidade de Chico se manifestava claramente no seu perfil psicológico, publicado em dezembro de 1966 pela revista Realidade, sob o título “Chico dá samba”, com fotos de Lew Parrela e Nilson Di Rago. O autor: Roberto Freire. Psiquiatra inovador, mais tarde, pai de uma escola de Psicoterapia, a Somaterapia. Além disto, profundo conhecedor da juventude brasileira, a ponto de vir a ser tornar autor da mais densa história de amor juvenil escrita no Brasil, o romance “Cléo e Daniel”.
 
Para Roberto, analisar o estado psicológico de Chico era um desafio que ele podia enfrentar com segurança. Pois tinha acesso ao ambiente doméstico de Chico e chegara a conviver com ele.
 
No trabalho de elaboração do perfil, Roberto observou-o durante semanas: num festival de música, no pequeno apartamento carioca dele, nas ruas, e, no meio de seus amigos. Diversos momentos e situações, transcorridos no Rio e em São Paulo, que ele narrou com interpenetração de planos de tempo e lugar, numa ousadia criativa vista antes só na prosa de vanguarda. E em todos os trechos da sua narrativa, Chico se mostrava feliz, alegre, brincalhão.
 
Ele podia ser assim. Porque ainda também não tivera parentes negros constrangidos nos seus prédios, como aconteceu recentemente. Ele próprio, não fora, até ali, insultado, de madrugada numa rua. Nem sua família recebera mensagens agressivas.
 
Na verdade, ninguém, em 1966, poderia imaginar Chico assim, hoje. Um herói da cultura nacional que corre riscos em ambientes públicos e contrata advogados para evitar novas ofensas à sua família. Aos 71 anos de idade.

* Oswaldo Coimbra é jornalista e escritor

2 comentários:

  1. Oswaldo Coimbra,como disse Eric Nepomuceno essa é a direita desgarrada que saiu do armário.

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  2. Chico não pare de compor, nem cantar... Os caminhos são descaminhos, e são os mesmos por onde passam os que vão pra lá e os que vem pra cá.
    Reclame não Chico!

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