terça-feira, 12 de janeiro de 2016

ÂMBAR EM BELÉM E EM BERLIM


Oswaldo Coimbra*
 
O trabalho de decoração de um quarto que seria considerado como a 8ª Maravilha do Mundo tinha sido iniciado, havia 2 anos, dentro do Palácio Real da Alemanha, em Berlim, quando, em 1703, chegou a Belém o entalhador alemão Johann Treyer.
 
Membro da Companhia de Jesus, Treyer passaria a metade das 7 décadas de sua existência, no Gram-Pará. Neste período, ele se tornou responsável pela Oficina de Escultura, no colégio dos jesuítas, em Belém. E, com a ajuda de alunos índios, esculpiu inúmeros cachos de uva, hastes, folhas de parreira, pelicanos, margaridas, flores. 

Todos, nas madeiras dos altares, dos púlpitos e da sacristia da Igreja de Santo Alexandre. Treyer criaria o conjunto de esculturas em madeiras considerado por Leandro Tocantins em “Santa Maria de Belém do Grão-Pará” como um dos mais bonitos do Pará.
 
Em Berlim, o projeto de decoração daquele quarto do palácio fora elaborado por um conterrâneo de Treyer, Andreas Schülter. Schülter, como Treyer em Belém, tinha decorado na Alemanha, vinte anos antes, um templo católico - a Capela Danzing Real.
 
Naquele início dos anos de 1700, quem estabelecesse um paralelo entre os dois escultores alemães, perceberia, assim, que Treyer trabalhava para a ordem dos jesuítas, na igreja de uma colônia portuguesa distante da Europa. Enquanto Schülter, preparava em Berlim um quarto encomendado pelo rei da atual Alemanha, na época chamada de Prússia, Frederico Guilherme I.
 
Treyer trabalhava com madeira. Schülter, com uma resina fóssil, o âmbar. A semelhança que mais aproximou os dois trabalhos se salientaria com o passar dos séculos. Mas já se esboçava naqueles anos de 1700, os do Século das Luzes. As esculturas criadas pelos dois alemães seriam profundamente atingidas pelas transformações sociais ocorridas na Europa. Algo já anunciado em 1757.
 
Naquele ano, o governador do Gram-Pará, Francisco Mendonça Furtado, acusou os jesuístas, construtores da igreja de Santo Alexandre em Belém, de contrabandearem âmbar para a Europa, o mesmo material que Schülter havia usado, meio século antes, na decoração daquele quarto, em Berlim. A acusação foi feita numa carta endereçada à Corte Portuguesa, na qual Mendonça iniciou com o âmbar uma curta relação de produtos da floresta amazônica exportados ilegalmente do Gram-Pará. 

De fato, como depois se confirmou, os jesuítas usaram o contrabando como meio para obter recursos necessários às suas construções em Belém. Tanto à construção da Igreja de Santo Alexandre, cujos altares pintaram a ouro, como à de todo o magnífico conjunto monumental arquitetônico ao qual o templo está integrado.
 
Três anos após a chegada à metrópole portuguesa da carta de Mendonça, os jesuítas foram expulsos do Gram-Pará, sob a acusação de terem provocado a ruína da administração do Estado. Uma punição, ampliada, mais tarde, com a expulsão da ordem de Portugal e da França. E, em 1773, com a extinção dela pelo papa Clemente XIV. Somente 1817, a Companhia de Jesus foi restaurada por Pio VII. Hoje, há quase 20 mil jesuítas atuando em 112 países.
 
Quanto ao projeto de Schülter, em 1757, quando Mendonça Furtado preparou sua carta, já tinha sofrido duas mudanças, havia dois anos. Os painéis da decoração do quarto do palácio de Berlim, 41 anos antes, em 1716, foram inteiramente desmontados, acomodados em 18 caixas grandes, e, enviados para Leningrado, na Rússia. Isto porque Frederico Guilherme I usou o trabalho de Schülter para presentear o Czar da Rússia, Pedro, o Grande, seu aliado nos confrontos contra a Suécia. Àquela altura, o presente consistia num conjunto de 100.000 peças esculpidas em âmbar, dispostas em vários mosaicos que preenchiam 22 painéis.
 
Os painéis foram montados na Casa de Inverno do Czar, em Leningrado. Em 1755, a Cezarina Elizabeth os transferiu para um cômodo do seu palácio, em Tsarskoye Selo, perto de Leningrado. Aquela edificação se tornaria esplendorosa, nos anos seguintes, com as intervenções nele de arquitetos geniais como o italiano Bartolomeu Rastrelli. E, ficaria conhecida como o Palácio de Catarina.
 
Nele surgiu o cômodo com seis toneladas de âmbar e espelhos folheados a ouro - a Câmara do Âmbar, 8ª Maravilha do Mundo. Os especialistas em obras de arte calculam que, hoje, aquela decoração valeria 220 milhões de reais.
 

No entanto, em 1941, os nazistas se apossaram dela, quando suas tropas invadiram a Alemanha, durante a 2ª Guerra Mundial. Os painéis foram remetidos para a Rússia. E, lá desapareceram. Mais de 3 décadas depois, em 1997, foram reencontrados ainda na Alemanha, uma cômoda e um mosaico da Câmara de Âmbar.
 
A partir destas duas peças, teve início um paciente trabalho de recuperação da 8ª Maravilha do Mundo, no Palácio de Catarina, na Rússia. Em 2003, finalmente, a câmara foi reinaugurada.
 
Em Belém, naquele mesmo ano, as peças esculpidas por Treyer também já podiam ser vistas novamente. Depois de 50 anos de abandono, a igreja de Santo Alexandre fora igualmente recuperada.
 
(Viva Belém no dia de seu quarto centenário)

*Oswaldo Coimbra - jornalista e escritor

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