VER-O-FATO: A MORTE DO JOVEM EM 2012 E O VETO DA MATÉRIA PELA TV RECORD/BELÉM

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

A MORTE DO JOVEM EM 2012 E O VETO DA MATÉRIA PELA TV RECORD/BELÉM

O protesto fechou a BR-316, mas a matéria sobre o motivo foi vetada na TV Record/Belém

O jornalista Luiz Gustavo Padrão, que já atuou como repórter da TV Record em Belém e hoje é analista de comunicação social do Ministério Público Federal (MPF) no Rio de Janeiro, além de estudante de Artes Cênicas, enviou para o Ver-o-Fato um relato que bem demonstra a quantas anda o jornalismo local, com suas conveniências político-financeiras impostas pelas empresas de comunicação. Essas conveniências, que se impõem como verdadeira espada de Dâmocles nas redações de jornais, TVs e rádios do Pará, castram o direito de a população ter acesso a informações que não deveriam ser objeto de nenhum tipo de censura, ou autocensura - a pior de todas as censuras. 

Vejam o relato de Luiz Gustavo Padrão, que envolve suposta execução de um rapaz, Maurício da Silva Teixeira, de 21 anos, por homens da Rotam e da Polícia Civil. Faria parte da operação que matou o rapaz - segundo a família sem nenhum envolvimento com traficantes - na localidade de Benfica, o então delegado de polícia e hoje deputado federal pelo PSD do Pará, Eder Mauro: 

"Se eu não tiver parado de defecar pela boca, fico feliz por ter parado de oferecer, gratuitamente, meu bolo fecal à sociedade. Após 3 anos de abandono, a lembrança me emocionou de forma paradoxal. O amor que tive pela profissão e a decepção que tento esquecer.

Lembro o episódio que me fez perder o tesão pelo jornalismo e se tornar determinante para abandoná-lo. Julho de 2012, eu retornava à reportagem de TV, depois de um ano e meio afastado. Na primeira semana fui cobrir uma reportagem em Benfica, Região Metropolitana de Belém. Tratava-se da execução de um ajudante de pedreiro, apontado pela "elite" da Polícia Civil paraense como suspeito de envolvimento com o tráfico. A população estava revoltada com o assassinato (execução sumária) do rapaz e chegou a bloquear parte da BR-316, como forma de protesto.

Cheguei ao local e colhi depoimentos de moradores e parentes da vítima. Todos (unanimidade de cerca de 200 moradores) disseram que o rapaz nunca foi envolvido com o tráfico e que foi executado por engano e de forma covarde. Um dos moradores me passou um vídeo que mostrava policiais saindo de dentro do terreno onde ocorreu a morte momentos depois da execução. Entre os policiais estava o delegado Eder Mauro, chefe do grupo de polícia metropolitana (GPM) e famoso pelo número de traficantes mortos em suas operações policiais.

Ele foi apontado pelos moradores como o executor da vítima. Após colher os depoimentos, fui a delegacia para ouvir o outro lado, como mandam os melhores e piores manuais de jornalismo. O delegado Eder Mauro não quis falar sobre o caso. Escrevi a matéria e fui para TV no início da madrugada. Deixei todas as sugestões de imagens e de construção da matéria para a edição. No dia seguinte, na hora do almoço, aguardava a veiculação da reportagem no jornal mais importante da casa. A matéria não foi ao ar.

Liguei para chefia de reportagem para perguntar o que tinha acontecido. A chefe de reportagem não soube dar uma resposta concreta. Primeiro disse que havia ocorrido um problema com a fita onde estavam as imagens brutas. Eu não aceitei a resposta porque sabia que havia deixado a fita em perfeitas condições. 

Na mesma hora fui à TV para saber o que tinha acontecido de fato. Quando cheguei na redação, a mesma chefe de reportagem disse que a matéria não tinha sido aprovada pela direção geral da emissora pelo fato da Polícia ser "nossa parceira" (palavras da direção reproduzidas pela chefia).

A "parceria" fez com que a matéria nunca fosse veiculada. Eu recebi inúmeras ligações dos moradores, nas quais era chamado de vendido, antiético e parceiro de policial assassino. A história do rapaz foi para estática de assassinatos por conflitos armados entre policiais e "traficantes". Eu abandonei o jornalismo meses depois, após ser eleito pela direção como um dos premiados com a demissão coletiva, promovida em dezembro do mesmo ano. Parei de ler e ver jornais.

Ainda assim, assisti a vitória do mesmo policial envolvido no caso. Não na justiça, mas nas urnas. Se tornou "nosso representante" no Congresso Nacional, após ser o candidato mais votado, escolhido por mais de 250 mil eleitores. Nós, jornalistas, temos responsabilidade por isso. Nós o colocamos lá. Nós que aceitamos aquilo que nos é imposto pela mídia, ou, no caso, que nós impomos por meio da mídia.

Acredito, cada vez mais, que a maioria da prática jornalística, no mundo e no Brasil, não está exercendo sua função social, abandonando, consciente ou inconscientemente, a sua essência. Estamos prestando um desserviço à sociedade. Não estamos levando informação que provoque a reflexão e o estímulo à construção de uma sociedade de fato. Estamos enfiando goela abaixo um produto indigesto, engolido e reproduzido como excremento.

Fica a esperança de assistir a mudança jornalística e social um dia. Tento fazer minha parte em outras áreas, sempre atento ao perigo de oferecer excrementos. Temos sempre algo muito mais palatável e saudável a dar".



3 comentários:

  1. Bom tarde,
    Não é de hoje que a imprensa e os periódicos de mais visibilidade do Estado não fazem o seu devido papel de informa à sociedade, essas "parcerias" - seja com grupos de policiais ou de políticos- visam somente o benefício de seu seleto grupo, e impressionante e facilmente perceptível o quanto são tendenciosos, e se torna cada vez mais ridícula a declarada guerra que há entre as duas principais "maquina de informação" do Estado - situação que deve se agravar neste período eleitoral - ao leitor resta a seleção do que ler, com máxima cautela para que não se torne uma marionete, em mãos de grupos que por deveras distorcem os fatos, não se preocupando com o real objetivo de informar o cidadão, mas sim em sua autopromoção.

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  2. Gente, basta a imprensa ter acesso as apurações internas da policia civil, instauradas contra o Delegado eder Mauro, que vocês vão verificar que o mesmo, é acusado, de vários crimes(roubo, extorsão etc).

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  3. Quando este "distinto" deputado federal vier candidato a um cargo majoritário, seu mundo vai aparecer. Tem traficantes dispostos a falar sobre propinas. Traficantes que são extorquidos. Quando ele meter a cara vai aparecer denúncia contra a família (irmão vendedor de carvão de área de proteção ambiental); seus prédios e imóveis na área da marambaia (Cohab). Quem sabe até os vendedores de peças de carros não abram suas matracas. Não é mesmo ? Quem viver vai ver um pega pra acertar sem igual.

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