terça-feira, 5 de janeiro de 2016

A ENTREVISTA DE QUINTINO LIRA NA RÁDIO CLUBE, EM 1984


Entre 1984 e 1985, o redator e editor do Ver-o-Fato chefiava o jornalismo da Rádio Clube do Pará, a antiga PRC-5. Ao meio-dia, de segunda à sexta-feira, enquanto nas outras rádios pululavam programas policiais (na Rádio Marajoara, por exemplo, havia o "Patrulha da Cidade" ), na Rádio Clube era apresentado o programa "Sala de Debates", apresentado pelo redator e editor deste blog, e que contava sempre com a jornalista Lúcia Leão, falando sobre direitos e cidadania. Sempre havia entrevistas polêmicas no programa e os ouvintes participavam intensamente, fazendo denúncias e críticas ao vivo. A audiência era grande.   

Num desses programas, por volta de dezembro de 1984, no auge da perseguição de latifundiários da Gleba Cidapar e da própria Polícia Militar contra Quintino Lira da Silva, um homem que sozinho apavorava meio mundo de poderosos e governantes de plantão, quem telefonou para a emissora - muito ouvida em Ourém, Garrafão do Norte, Capitão Poço e Viseu - foi  o próprio Quintino. Ele queria falar com o jornalista Carlos Mendes e ligou de um telefone público.

No ar, por mais de 10 minutos, Quintino foi entrevistado e contou o que ocorria na região, denunciando que era caçado porque defendia pessoas despejadas de seus lotes por grandes fazendeiros oriundos de outros estados. Quintino também falou da repressão policial e da pistolagem contra os colonos comandada por  James Vita Lopes, que em 1987 seria um dos principais envolvidos na morte do ex-deputado Paulo Fonteles, uma execução que chocou o país.

No final da entrevista, Quintino afirmou que precisava desligar o telefone porque estava sendo caçado pela PM e a qualquer momento poderia ser morto pelas forças do Estado. Foi uma entrevista bombástica, cuja gravação se perdeu, juntamente com parte do acervo de programas - bons programas - da Rádio Clube. 

Nessa época, a rádio pertencia ao grupo comandado pelo empresário Jair Bernardino. Antes do final de 1985, a rádio passou para o controle do então governador à época, Jader Barbalho. 

O editor do blog já tentou resgatar essa entrevista, importante para a história política e policial do Estado, mas ainda não conseguiu encontrá-la. Nos livros sobre a história do Quintino essa entrevista sequer é mencionada - uma falha grave, porque se trata de um documento sonoro público, que foi do conhecimento de milhares de ouvintes da rádio. 

Menos de um mês depois, em janeiro de 1985, Quintino foi morto com dezenas de tiros por policiais militares que eram comandados pelo capitão Raimundo Cordovil.

9 comentários:

  1. Colega,
    Importante resgate histórico.
    De fato,o gatilheiro Quintino estar por merecer um resgate histórico efetivo, do qual a entrevista citada deverá ser finalmente resgatada.
    Parabéns pela oportuna lembrança.
    Aldenor Junior

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  2. Caro Aldenor. Aqueles foram anos importantes para mim como jornalista, pois foi minha estreia no rádio, com uma programa polêmico, que sempre apresentava atrações como líderes camponeses ameaçados de morte, políticos que tinham histórico de luta, como Paulo Fonteles, João Batista e sindicalistas que sempre apareciam na rádio, para entrevistas. Falar de direitos e cidadania, naqueles tempos, com o regime militar quase no fim, eram desafios na busca pela democracia e pelo fim da censura à imprensa. Os programas "Sala de Debates" deveriam ter sido preservados, mas não foram. Parece que mais importante foi apagar isso da história do rádio paraense. Nem no arquivo público eles existem. Mas estão na memória dos ouvintes e até hoje guardo algumas cartas de ouvintes do interior do Estado, que sempre faziam perguntas, pedidos e denúncias. Saudades daquela época, daqueles anos de chumbo para quem nada temia e fazia seu trabalho com empenho e coragem.

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  3. Mendes,

    Com raras exceções, muita gente tem falado sobre o Quintino nas últimas três décadas sem ter sido, como se dizia no Repórter Eco, testemunha ocular da história. Depoimentos como o contido no seu programa radiofônico poderiam ajudar a compor um painel real e desapaixonado sobre o personagem paraense, corrigindo o realismo fantástico que gerou até peça teatral.

    Pelo Liberal, os jornalistas Paulo Roberto Ferreira (com sua valorosa e destemida série de reportagens e entrevistas exclusivas com o próprio Quintino, de quem se tornou amigo) e Euclides Farias, este que vos fala, estiveram na Cidapar e demais nas regiões do conflito. Menores, minhas incursões se fizeram a partir do dia da morte de Quintino, no dia 4 de janeiro de 1985, há 30 anos, portanto, completados anteontem.

    Fiz com os fotógrafos Alexandre Lima e Eurico Alencar, viagens memoráveis. Na primeira, fizemos o trajeto de Capanema, desde a exumação, a Vizeu, onde está enterrado. Foi uma espécie de coluna de lavradores chorosos da morte do seu protetor. O diretor de Redação, Cláudio Augusto Sá Leal, um mestre do jornalismo, até achou a matéria "muito dom Quintino" e repliquei que manteria todas as vírgulas, por retratar a realidade.

    Numa das viagens de investigação jornalística, depois barrados por seguranças de James Vita Lopes na porta da companhia Cidapar, Alexandre Lima fez uma fotografia genial: o fusquinha do Liberal se afastando, ele apontou a câmera para trás e apertou o botão, colhendo a imagem do pistoleiro com metralhadora em punho guardando o portão da empresa.

    Escrevi notícias que desmentiram a versão da PM de um suposto tiroteio com Quintino ao sustentar que fora morto por tiro de fuzil pelas costas. Descobri também que o cordão entregue pela PM a Helena, viúva de Quintino, era falso. Eu e o advogado José Carlos Castro mandamos "tocar" o cordão na vila do Japiim, em Ourém. Os policiais que o mataram tinha retirado do pescoço do morto o cordão com pepita que ostentava no peito. O então secretário de Segurança, Lélio Alcântara, abriu inquérito e devolveu a joia à família.

    Memórias...

    Abraço,
    Euclides

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  4. Repórter Esso, pois não.

    Euclides

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  5. Grande Euclides. Andas hibernando, é? Vamos atualizar os papos. Se souberes quem tem essa gravação da entrevista que fiz com o Quintino na rádio, me avisa. Daquela época, nem os arquivos do programa "O Regatão vem aí", do Jaci Duarte, escaparam do estravio. Ou coisa que o valho. No rádio, como na TV paraense, nossa memória é um horror. Não tem praticamente nada, com raras exceções. Abraços, irmão.

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  6. Caro Mendes, aqui José Menezes. Trabalhei como assessor do CBMPA de 1994 a 2000 e lá foi comandante - nomeado em janeiro e exonerado em novembro de 1995, pelo Almir - o Coronel José Ribamar Mattos. Diziam na época que ele tinha participado da patrulha que matou Quintino. É bom lembrar aqui que na época os Bombeiros eram integrados à PM e o Ribamar, na época tenente, foi designado para participar da caçada e - comentava-se - teria sido um dos homens de linha de frente para o enfrentamento final com Quintino, já que trazia experiência, pois também tinha participado da caçada a guerrilheiros do Araguaia. Como assessor de imprensa do comando nunca toquei no assunto com ele, e depois perdi o contato. Mas sei que ele mora em um sítio no Outeiro. Nos Bombeiros devem ter o telefone dele.

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  7. Meu Deus essa história é um horror e muito contraditória.da história de Quintino.pois vi e vivi essa história. Pois era de minha época. Pois quando sabíamos que ele estava na rua.saimos da escola e corriamos pra casa. Capitão poço viveu momentos de tensão profunda com essa história. Vive essa história pra contar.assim como nossos conterrâneos da época. Eu morria de medo com ele conversava com meu falecido pai. Meu pai avisa pessoalmente pra ele.nao toque em minha família cabra.assim meu pai dava o recado pro próprio Quintino.ele se virava dava bom dia ou boa tarde pro meu pai e daquia. Por meu pai ser um cearense cabra da peste.ele o respeitava.meu pai era muito conhecido na região por seus artesanatos de couro.endumentarias de animais.pra cavalos . O Sr.conhecido famoso ALCIDES CELEIRO. ALCIDES GUEDES DE SOUZA.

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  8. Sr.Jorge Mendes: eu também fiz parte dessa história quando eu sabia que ele ia visitar minha casa eu me escondia ou se visse ele chegando saia correndo ele era amigo e parceiro de lutas pelos oprimidos da epoca do meu falecido pai na história eles falam que Quirino era sozinho negativo ele tinha seus comparsas e eu conhecia alguns e vi a pesseguicao da polícia para capitura-lo ainda hoje existem dois que foi amigo dele vivo.a verdadeira história não é contada como aconteceu.

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