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Linha de Tiro - 19/04/2018

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

400 ANOS: A SÚPLICA DAS ILHAS DE BELÉM


O lixo da cidade é recolhido pelos ribeirinhos, que lutam para sobreviver

Não há sistema de transporte municipal e o barquinho é do próprio morador

Aqui já foi uma prisão, na abandonada ilha de Cotijuba

Antonio Praxedes *

As ilhas servidas aos nossos olhos na bandeja aquática formada pelos rios Guamá, Guajará e Pará assistem perplexas o crescimento de Belém, que do outro lado, grande, altiva, envolvida na sua soberba não lhes escuta o grito de socorro. O vai e vem das águas, o fluxo e o refluxo das marés arrastam invisíveis sentimentos de abandono e nostalgia, entristecendo os habitantes dessas porções de terra flutuantes, espécies de “primos pobres” da metrópole. 

Quem, de um ponto qualquer da cidade a beira rio, espicha a vista nua para o outro lado da baía não pode ver com precisão a seqüência de ilhas que demandam esse entremeio de rios, formando o arquipélago guajarino. O caudal, ora silencioso e calmo ora esbravejante e furibundo, é fruto das correntezas que descem o rio Amazonas, margeando a grande Ilha do Marajó no rumo do Canal Sul, embarafustando-se pelos “estreitos de Breves” e derramando-se no rio Pará que mistura-se às águas do rio Tocantins, crescendo e seguindo avante. Na altura de Belém recebe as águas do rio Guamá e de seus afluentes, escorrendo ao encontro do outro rio que deles se forma, o Guajará. Lá adiante se fundem e as duas baías, Marajó e Guajará, acalentam em seu colo as ilhas de Belém. Essa visão é privilégio de quem sobrevoa esse pedacinho da Amazônia. 

Nos arredores de Belém, lá de cima, a gente pode assistir o grande, inolvidável espetáculo das águas, cortando tortuosas a terra em todas as direções, isolando os torrões, formando as ilhas. Ilhas centenárias e ilhotas em formação.Quase todas ostentam identidade própria, nome de batismo e população residente: a oeste de Belém estão Outeiro, Santa Cruz, Jutuba, Coroinha, Paquetá, Cotijuba, Tatuoca, Papagaios, Jararaquinha, Redonda, Mirim, Cruzador, Fortinho e Fortim, além de quatro ilhotas não batizadas; ao Sul da capital, Patos, Cintra, Marineira, Combu, Murutura, Grande, Poticarvônia e Negra, totalizando vinte e seis ilhas. 

Elas compõem o arquipélago da cidade das águas, de acordo com a Lei Orgânica do Município de Belém, que as relega à sonolenta tutela do Segundo Distrito Administrativo, com sede na ilha de Outeiro. Uma sede administrativa sem recursos financeiros, sem embarcações, sem material humano compatível com a quantidade de unidades a serem vistas, visitadas, supridas, amparadas, saneadas... enfim, administradas. 

Umas poucas, como Cotijuba, Paquetá, Combu... contam com sub-sedes administrativas, talvez por terem um número significativo de eleitores. A maioria, porém, sobrevive do heroísmo de cada um de seus moradores, se auto-suprindo, provendo suas necessidades, amparando-se mutuamente, se virando do jeito que podem, sem assistência digna, sem energia elétrica (a tal universalização da energia elétrica objeto da Resolução 223/2007, da Aneel, segundo consta, não contempla as comunidades isoladas do continente), sem água encanada, sem coleta de lixo. 

Será que é querer muito ter o mínimo? Será que esse povo não merece privilégios iguais aos do indivíduo citadino? Não lhes basta a angústia da renhida luta contra a desdita do isolamento, de ter que batalhar diariamente, entrando na mata de madrugada pisando descalço o terreno encharcado entre cobras e mosquitos, para colher o açaí e alguns frutos silvestres comuns na região, depois trazer a minguada produção num casco a remo ou na pequena canoa motorizada, a rabeta, enfrentando muitas vezes maresia brava, para entregar por um quase nada ao atravessador que o espera cá no Ver-o-Peso, ou na Feira do Açaí, ou no trapiche de Icoarací?

Poluição - A outra alternativa de sobrevivência é estender o matapí todos os dias na maré baixa, para capturar o camarão quando a água sobe, ou tarrafear de sol a sol, na esperança de uma boa pescaria. Nos arredores das ilhas já não existe fartura de pescado como antigamente. A poluição, o zunir incessante dos motores e a pesca predatória escasseou a peixarada. Se quiser um peixe graúdo tem de sair lá pras bandas do Marajó, cinqüenta, cem milhas afora, para capturar a espinhel ou rede de arrasto, umas douradinhas, filhotes, sarda, arraia ou outras espécies regionais como a piramutaba e a pescadinha, que é o que ainda dá por essas bandas, além da piaba. 

Na verdade, nem dá para “poetar” sobre as belezas desse pedaço de terra-água-mata que circunda nossa Santa Maria de Belém do Grão Pará, diante da desamparada vida dos nossos irmãos ribeirinhos. O poder municipal finge que se esforça, esboçando alguma ajuda, mas ainda é quase nada o que faz. Aqui e ali tem uma escolinha freqüentada por dezenas de crianças que vêm de perto e de longe, trazidas em embarcações subsidiadas. Porém, melhor seria se em cada área habitada houvesse uma escola profissionalizante, assistência médica permanente, recursos mínimos, para atender a população local. 

Numa cidade como Belém, que tem sob sua jurisdição tantas ilhas, o Município deveria se obrigar a manter um serviço de transporte fluvial análogo ao transporte rodoviário urbano. Suprir as ilhas desse serviço a partir dos bairros situados na orla é como servir a periferia da área central do transporte coletivo. Quem mora do outro lado do rio, tem necessidade de locomoção tal qual o cidadão que mora do lado de cá. Cabe, sim, à Prefeitura manter frota própria e prover as ilhas de linha regular, com viagens constantes de ida e vinda, a exemplo do que já existe para Mosqueiro e Cotijuba. 

Precários - Afinal, crianças e jovens residentes nas ilhas freqüentam escolas no centro de Belém, donas de casa precisam vir ao supermercado e às feiras, doentes e idosos necessitam se deslocar em busca de assistência nos postos médicos, e comerciantes tem que abastecer suas lojas nos atacadistas. Sem um serviço de transporte eficiente os residentes na maioria das ilhas se socorrem das precárias estruturas existentes em Cotijuba, Outeiro ou Icoaraci, para onde se deslocam com enormes dificuldades.

Do ponto de vista econômico a esperança de melhoria reside na organização de cooperativas nos setores extrativista e pesqueiro, e da promessa governamental de ajuda para a compra de barcos e equipamentos de pesca.Tais incentivos, porém, quase sempre alcançam, apenas, uma minoria. 

E, assim, o povo dos rios vive essa dolorosa realidade: centenas de famílias mergulhadas nas águas do abandono e do isolamento, sobrevivendo, basicamente, da pesca e da extração do açaí... Diante de tanta penúria, o consolo do povo das ilhas é a prazerosa dádiva da natureza que as envolve: flora exuberante, fauna medianamente rica, o encanto das águas nesse vai e vem das marés, e o aconchego familiar, amainando a dor... a dor de viver exilado, embora tão perto da cidade grande.

Antonio Praxedes é jornalista

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