sábado, 5 de dezembro de 2015

UMA BAILARINA COMO A DE CHICO BUARQUE


Oswaldo Coimbra*

O moleque de onze anos vive a poesia. No seu convívio com brinquedos, bichos, plantas. Olhando o imenso céu. Mas, sobretudo, quando pensa na garota. De quem gosta a distância. Com quem troca olhares, ao cruzarem em salas de aulas, portas de templos, entradas dos cinemas. E por quem se planta, durante horas, numa rua estranha, à espera de vê-la abrir uma janela.
 
Para ele esta garota aparece no calendário antigo, pregado na parede de seu quarto. Com roupa de bailarina, sentada, três margaridas nas mãos. O nome do pintor chinês Guan Zeju no pé da imagem é somente outro mistério, em torno da criatura etérea. Aquelas mãos. Se um dia tocasse descuidadamente nelas, iria se sentir orgulhoso e certo de sua coragem, como um cruzado medieval, após seu ato de fé.
 
De coragem, aliás, que ele, o moleque poeta, logo irá precisar. Mas não sabe disto. Nem das batalhas que vai enfrentar quando sentir seu mundo rechaçado. Em casa, pela família, a exigir que ele comece a “por os pés no chão” e cuide de suas obrigações. Na escola, por professores que não aceitarão seu ar “meio aéreo”. Nem sua mente ocupada com qualquer coisa que não sejam as disciplinas. Na Igreja, pelo padre que achará “perigosa” a atenção dada àquela pequena “filha de Eva”.
 
E, pior: se o moleque sobreviver nele, após ficar adulto, virará caso de polícia. Como aconteceu com Chico Buarque, em 1982. Ao produzir a letra da música “Ciranda da Bailarina”, Chico despertou o moleque poeta adormecido dentro dele. Queria vê-lo descrever a garota que carregava na sua imaginação. Conseguiu. Ela era quase perfeita, se convenceu Chico, já na pele do moleque. 

Linda como a bailarina do chinês, no calendário. “Detalhes deslumbrantes” visíveis - como de praxe – apenas por poetas. Nos muitos exemplos. Entre os quais: não ter “pereba, marca de vacina, piriri, lombriga, ameba, verruga, frieira, piolho, escarlatina, febre amarela, remela”. Tampouco, “unha encardida, dente com comida, sujo atrás da orelha, bigode de groselha”. Na casa dela, nada de “irmão meio zarolho, goteira na vasilha, problema na família”.
 
E mais: no armário da bailarina, ninguém encontrava “calcinha um pouco velha”. No seu corpo, nenhum “pentelho”. Sim, pentelho, dito assim, claro. Ou alguém acha que moleque chama aqueles pelos de “pubianos”?  Mas, a Polícia Federal não estava interessada em sutilezas de variações de linguagem. Através de seu Serviço de Censura, proibiu “Ciranda da Bailarina”. A música permaneceria interditada até que Chico cortasse aquela palavra.
 
Ela foi gravada no cd “O Grande Circo Místico”. Com o corte. Ficaram três segundos de silêncio, quase no final da música. Que Chico fez questão de não preencher com outra palavra para que todos soubessem da violência que sofrera. Poucos segundos percebidos com espanto porque neles se calam as vozes das crianças que cantam a música. É um silêncio quase imperceptível. 

Suficiente, porém, para arrancar os disfarces da repressão na sociedade brasileira contra a criatividade dos moleques poetas. Cujas almas livres são, na verdade, vistas como ameaças à nossa “boa ordem social”. Na qual o mesmo destino está reservado para a maioria de nós, antes mesmo de nascermos. O de sermos moldados pelas três instituições encarregadas de nossa adaptação social. Isto é, a empregos tediosos e embrutecedores. Na condição de meros fornecedores de mão-de-obra, geradora de lucro para investimentos dos empresários. Não foi à toa que Louis Althusser chamou de “aparelhos ideológicos do Estado” a família, a escola e a igreja.
 
Permitir a erupção de originalidade em um de nós contraria a expectativa social. Perturba a ordem, subverte-a. Crimes que merecem ser punidos, no mínimo, com a marginalização social. Quando não, com a morte. Quase sempre, por infelicidade prolongada.

*Oswaldo Coimbra é jornalista e escritor 

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